Espécie inédita encontrada em São Paulo só existe em uma única gruta no Brasil

Fruto de mais de dez anos de análises, a identificação da nova espécie, que se acredita só ocorrer no Brasil, foi um marco para a espeleologia brasileira

O pesquisador Carlos Eduardo Martins na Gruta de Santa Luzia.Créditos: Foto: Ericson Igual / divulgação
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A descoberta de uma nova espécie de caranguejo-de-rio foi considerada histórica para a espeleologia brasileira: na Gruta de Santa Luzia, em Mauá, região metropolitana de São Paulo, o caranguejo batizado de Aegla tamanduatei foi oficialmente descrito em 2025 na revista Zoological Studies, após mais de dez anos de análises morfológicas e genéticas.

Encontrada apenas naquela região, a nova espécie é fruto do trabalho de especialistas em espeleologia da Universidade de São Paulo (USP) e do Grupo Pierre Martin de Espeleologia (GPME).

O caranguejo é pequeno (mede entre dois e três centímetros) e extremamente sensível a alterações do seu habitat, o que o coloca na posição de espécie já naturalmente em risco.

Aegla tamanduatei.
Créditos: Bueno et al, Zoological Studies, 2025.

De acordo com os pesquisadores, o primeiro mapeamento da espécie foi feito em 2012, quando, durante um levantamento topográfico da Gruta de Santa Luzia, o crustáceo (pertencente ao gênero Aegla) foi avistado. O gênero, que agrega 72 espécies conhecidas de crustáceos de água doce sul-americanos, está associado a ambientes pouco acessíveis, como rios, lagos e cavernas.

No Brasil, existem, documentadas, dez espécies endêmicas do gênero, distribuídas entre as regiões Sul e Sudeste.

Acredita-se que a nova espécie seja endêmica da gruta onde foi encontrada, no município paulista, e não exista em nenhum outro lugar do mundo.

A sobrevivência da variedade depende, portanto, da qualidade da água que brota das nascentes que compõem a unidade de conservação em que está localizada: o Parque Ecológico da Gruta Santa Luzia, tombado pelo Estado como patrimônio ambiental e histórico, que abriga cerca de 450 mil m² de vegetação remanescente de Mata Atlântica.

A descoberta acende, entre os pesquisadores, a necessidade de elevar o grau de proteção ambiental da área, especialmente da nascente do Tamanduateí, que se origina na gruta e é ameaçada pela poluição que o rio sofre ao longo do trajeto pela área urbana.

A bacia do Rio Tamanduateí tem 320 quilômetros quadrados e faz parte da Sub-bacia Billings-Tamanduateí, que compõe a Bacia Hidrográfica do Alto Tietê. O rio passou por um processo de canalização que o fez perder suas curvas originais, com desvios que criaram um curso artificial em linha reta.

Os pesquisadores destacam que as espécies do gênero Aegla são consideradas bioindicadoras ambientais, por serem muito sensíveis a poluentes.

“Conhecemos essa caverna há mais de 40 anos, mas nunca imaginamos encontrar uma espécie tão ao norte e em uma zona tão urbanizada”, afirmou ao Conexão Planeta o espeleólogo Ericson Igual, um dos responsáveis pela descoberta e catalogação da nova espécie.

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