Urbanidades

16 de setembro de 2013, 18h11

México sai na frente

No urbanismo, o México está ganhando da gente de 2 x 0. Monterrey tem entre seus muitos espaços públicos de qualidade dois parques que eu ainda não vi surgirem nas nossas metrópoles

Na semana passada estive em Monterrey em missão de espionagem para o Clube Atlético Mineiro. Fui ver de perto o time dos Rayados que vão jogar o mundial de clubes no Marrocos em dezembro. No futebol tudo parece estar tranquilo, os Rayados não jogam lá estas coisas. E como viajei disfarçado de professor especialista em espaço público latino-americano, descobri que no urbanismo o México (que não anda nada bem nas eliminatórias) está ganhando da gente de 2 x 0 ai pelo inicio do segundo tempo.

Antes que vocês achem que eu estou variando, explico. Monterrey, com seus quase 5 milhões de habitantes, tem entre seus muitos espaços públicos de qualidade dois parques que eu ainda não vi surgirem nas nossas metrópoles.

Parque Fundidora (Foto: Enrique Silva/divulgação)

No lado leste da cidade, bem perto do centro histórico, funcionava uma siderúrgica enorme, do tamanho de uma CSN ou uma Usiminas, desde 1904. Nos anos 80 a indústria foi fechada. Depois de alguns anos abandonada com os terrenos correndo sério risco de serem vendidos para empreendimentos mobiliários, um governador corajoso resolveu transformar tudo num parque, o Parque Fundidora. Os alto-fornos se tornaram museus, os 142 hectares foram descontaminados, re-vegetados e abertos ao público.

Alí funcionam vários equipamentos culturais e um museu dedicado a “arqueologia industrial”, apontando claro para a memória da época aura do setor secundário. Já pensaram quantos espaços culturais e parques poderemos ter na medida em que nosso parque industrial, um pouco mais novo que este de Monterrey, for sendo desativado. Infelizmente, o mais comum é o terreno ficar anos abandonado enquanto corre o processo de falência, acumulando lixo e aedes-egypti pra todo lado. Depois, na nossa fúria capitalista, o terreno é então vendido para que se perpetue o processo de construção e destruição privada das cidades. Espaço público, este coitado, que fique esperando elegermos um prefeito ou um governador corajoso.  Gol do México, 1 x 0.

Canal Santa Lucia (Divulgação)

Agora entre o Parque Fundidora e o centro cívico existiu em séculos passados uma fonte de água. Chamada de Santa Lucia, a fonte secou quando a pavimentação ocupou todos os espaços, mas o leito seco do córrego continuou servindo de escoamento para as chuvas. O medo da enchente deixou esta área um pouco menos densa enquanto que nos últimos anos a valorização imobiliária começou a transformar o lugar. Imagine, o que antes era vizinho a uma siderurgia agora é vizinho a um grande parque. Foi então que o planejamento da cidade falou mais forte. Inspirados da vizinha San Antonio, no Texas, foi criado um espelho d’água no vale deste córrego urbano. Com calçadas confortáveis dos dois lados se abrindo para bares e restaurantes, o Paseo Santa Lucia rasga o coração da cidade e passa por baixo de várias vias expressas.  Mexico 2 x 0.

Agora começa o segundo tempo e temos tudo para virar o jogo. O convite para palestrar em Monterrey veio porque eles querem saber mais sobre o orçamento participativo, tema de vários artigos acadêmicos do meu disfarce de professor. Neste sentido o Brasil tem muito a ensinar, mesmo que ultimamente tenhamos deixado de lado este eficiente instrumento de empoderamento das comunidades mais carentes. Temos ataque para virar este jogo mas precisamos voltar a investir nos processos participativos ao mesmo tempo em que tomamos coragem de enfrentar o direito de propriedade em nome do bem maior da comunidade. E antes que me acusem de querer invadir terreno de alguém reafirmo que os instrumentos de indenização, iptu progressivo e solo criado (transferência do direito de construir) estão todos regulamentados desde 2001 pelo Estatuto das Cidades, a melhor lei aprovada pelo governo FHC.

O que precisamos é de parar de usar estes instrumentos de forma oportunista como por exemplo para facilitar a vida de empreendimentos hoteleiros com a desculpa de fazer bonito para a dona FIFA; e começar a aplicar a lei em defesa dos rios urbanos, parques e áreas de lazer que tenham potencial para melhorar a vida da grande maioria.

Uma cidade melhor é como o ouro olímpico que insistimos em deixar escapar, por indiferença ou por incompetência. As ruas, nossa maior arquibancada,  estão gritando por um urbanismo melhor. Ao ataque urbanistas!

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