Cinegnose

por Wilson Ferreira

09 de julho de 2019, 09h14

Mídia omite suicídio de empresário e ultrapassa fronteira entre jornalismo e propaganda

Supostamente a Globo vive uma guerra particular com Bolsonaro, com suas diversas ameaças à poderosa emissora. Tudo faz parte de uma estratégia diversionista de propaganda por dissonância e até psicologia reversa

Fotos: Reprodução

Telejornais da mídia corporativa simplesmente omitiram ou relegaram à categoria de “fatos diversos” a notícia mais relevante da última quinta-feira. Uma notícia que faz a opinião pública avaliar o atual estágio de crise social e econômica: diante do ministro de Minas e Energia e do governador do estado, um empresário se matou com um tiro na boca em simpósio do setor em Sergipe. Ato extremo diante da insolvência da sua empresa em relação às dívidas do fornecimento de gás natural. Com os terremotos semanais da Vaza Jato, a grande mídia cruzou as fronteiras que separam o jornalismo da propaganda – passou a omitir tudo que, ou esteja fora do script da guerra semiótica criptografada (a usina produtora de crises Bolsonaro/Mídia e geradora de notícias dissonantes), ou que contradiga a atual estratégia de enaltecimento moral do empreendedorismo na massa de desempregados e desalentados: a fé de que é possível a força de trabalho se transmutar em capital com “otimismo”, “determinação” e superação”.

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Todos sabemos que as manipulações midiáticas não se limitam apenas ao viés (ou “frame”) pelo qual é mostrada uma notícia, ou pelas peripécias na ilha de edição ao pinçar aquilo que é mais conveniente ao script elaborado pelos dos aquários das redações.

Também, a manipulação ocorre naquilo que não é mostrado, colocado fora da pauta ou, no mínimo, fora da escalada pela qual começa todo telejornal. Tendemos a considerar aquilo que é mais importante pelo destaque que é dado ao telejornal. O que não for pautado, ou não existiu ou é considerado menos relevante.

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A omissão, nos principais telejornais de rede da grande mídia, do suicídio do empresário de Sergipe no setor de cerâmica, Sadi Gitz, ocorrido nessa quinta-feira, é um desses casos para deixar uma pulga atrás da orelha. Jornal Nacional da Globo, SBT Brasil e Jornal da Record, GloboNews e Record News simplesmente omitiram, ou deixaram em segundo plano como uma tragédia de ordem pessoal.

Gitz era dono da indústria de cerâmica Escurial, um dos líderes empresariais do estado, que enfrentava dificuldades e atualmente estava em recuperação judicial pelas dívidas resultantes do alto preço no fornecimento de gás natural.

Qual a relevância desse fato? Ele participava na manhã de quinta do “Simpósio de Oportunidades – Novo Cenário do Gás Natural de Sergipe”. Diante do governador do Estado e do Ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque. Antes dar um tiro na sua própria boca, chamou o governador de “mentiroso”.

Gitz teve o seu acordo de dívida negado pelo governador. Apesar de Sergipe ser o terceiro maior produtor de gás natural do Nordeste, os preços são elevados. A empresa questionava que a política de preços da Sergas (Sergipe Gás) era juridicamente ilegal. Gitz tinha decidido pelo fechamento da empresa, fundamental para o desenvolvimento e geração de empregos do polo industrial de Socorro.

Sadi Gitz (foto: Prefeitura de Aracaju)

O discurso pronto midiático

Portanto, todos os elementos dessa notícia seriam publicamente relevantes.

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Mas, as empresas jornalísticas têm um discurso pronto para justificar a não veiculação de notícias sobre suicídios – existiria um certo tipo de convenção profissional extraoficial de que suicídios não devem ser noticiados por dois motivos: (a) por ser um ato extremamente íntimo e pessoal; (b) a publicação massiva da notícia pode motivar pessoas predispostas a esse ato extremo. Aquilo que estudiosos chamam de “efeito copycat” ou de imitação.

Mas é claro que são argumentos oportunistas sacados do bolso do colete. Quantas vezes casos de suicídio de pessoas famosas do meio artístico e da indústria do entretenimento foram noticiados sem o maior pudor ou constrangimento? Desde Kurt Cobain e o ator Robin Williams ou de brasileiros como a atriz Leila Lopes e o sensacionalismo sobre as diversas tentativas de suicídio do cantor Rafael Ilha.

Durante toda quinta-feira, a grande mídia concentrou fogo sobre a aprovação do texto da Reforma da Previdência na Câmara e, no dia seguinte, o otimismo do onipresente “mercado” (que nunca especificam que é o “especulativo financeiro”) pela aprovação e a ida do texto da Reforma para a Plenária.

Bora empreender!…

A questão é que, do outro lado da moeda dessa pauta da Reforma da Previdência está a turbinagem do otimismo e o enaltecimento moral do empreendedorismo. “Bora empreender, Brasil!”, exortam peças publicitárias do banco Santander. Certamente, notícias de suicídios de empreendedores falidos pela política de preços de insumos não é nada bom para o discurso que diariamente está sendo empurrado goela abaixo dos brasileiros.

Um discurso que tenta mitigar a crise econômica crônica do desemprego e paralisia do setor produtivo e infraestrutura com a fé de que a força de trabalho (desempregada) pode, um dia, magicamente se transformar em capital. Claro, com as maquininhas de crédito/débito vendidas pelos bancos que, no futuro, irão faturar obscenamente com a privatização da Previdência.

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Em postagem anterior víamos como os telejornais estão focados na elevação do astral dos brasileiros: de pessoas desempregadas ao relento vendendo café e bolos em frente às estações de metrô noticiados sob o viés da “variedade da gastronomia de rua”, cantando loas ao “empreendedorismo”, à moralização da meteorologia (o sol como “boa notícia”) e a transformação de eventos esportivos das periferias (Copa das Favelas em São Paulo, por exemplo) como metáforas da “superação”, “determinação” e “otimismo” – segundo o jornalismo corporativo, ingredientes necessários para que ocorra a magia da transmutação da força de trabalho em capital – clique aqui.

Guerra semiótica criptografada: um show que nunca termina

A usina de crises criptografadas

A omissão da trágica notícia de Sergipe de tamanha relevância (para um líder de elite empresarial, branco, chegar a esse ato extremo, imagina quantos outros anônimos excluídos e vulneráveis estão, consciente ou inconscientemente, dando cabo da própria vida) é mais uma evidência de que a atual guerra semiótica é bem diversa do que aquela que a esquerda estava acostumada a enfrentar.

Supostamente a Globo vive uma guerra particular com Bolsonaro, com suas diversas ameaças à poderosa emissora. Tudo faz parte de uma estratégia diversionista de propaganda por dissonância e até psicologia reversa.

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*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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