quarta-feira, 30 set 2020
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Youtuber de 21 anos faz sucesso falando de política e socialismo e é vítima de haters

Laura Sabino produz conteúdo marxista e incomoda os "bolsominions"

“Meu trabalho é tirar o jovem do seio do liberalismo e colocar na teta de Marx”, é assim que o perfil oficial do Instagram da (futura) historiadora e youtuber, Laura Sabino, 21, se abre ao público expandindo um grande leque de estudos políticos voltados para correntes de esquerda no Brasil e no mundo.

O canal nasceu em 2019, sendo dirigido por Laura e mais dois amigos (Jordana Leite e Lucas Bastos) que levam os aprendizados acadêmicos, adquiridos na faculdade de História, para a prática da militância online e também da vida real. A proposta de uma plataforma voltada para dar voz aos movimentos de esquerda, extremamente incompreendidos em um país de herança colonialista e conservadora, foi motivada pela experiência da estudiosa em crescer cara a cara com a ascensão da direita ultraconservadora no Brasil.

“Eu tenho 21 anos. Isso significa que eu vi a ascensão da extrema direita entre os meninos da minha idade, quando eu estava na escola”, relata Laura sobre a jornada pela criação do canal. “Comecei a ver que muitos colegas meus passaram a dizer coisas de extrema direita, extremamente machistas, e uma das coisas que eles mais falavam era sobre os youtubers de direita. Aí eu percebi que faltava na esquerda alguém para falar sobre as suas pautas com uma linguagem de jovem, criando esse conteúdo. No meu caso, criando um conteúdo marxista.”

Laura também conta que a grande dificuldade em buscar vídeos voltados para o estudo das teorias marxistas, ou outros meios digitais mais atualizados de acordo com o contexto da era tecnológica na qual o mundo se insere hoje, foi um grande marco na decisão de se criar o canal do Youtube. Segundo a ela, grande parte dos conteúdos cibernéticos da esquerda eram de caráter “mais adulto”, ou se inseriam na gama de videoaulas voltadas para vestibulares. Os vídeos compartilhados no canal de forma mais descolada e didática, entretanto, não são simples de serem produzidos. Segundo Laura, é um trabalho extenso de apuração bibliográfica e muito esforço.

Haters bolsonaristas

A youtuber conta que antes mesmo de começar a iniciativa, foram muitas ofensivas por parte de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. “Antes mesmo de começar o canal, eu recebia um grande número de xingamentos de ‘bolsominions’, de outros grupos também… mas eu nunca imaginei que as coisas fossem chegar no nível que chegaram com relação a fake news, ataques e tentativas desmoralizar minha imagem, ou me ferir.”

Recentemente, Laura teve seu nome vinculado a um vídeo pornográfico, onde seus agressores divulgaram o conteúdo amplamente nas redes, alegando se tratar de um trabalho que ela mesma tinha feito. A ofensiva foi disseminada pelo único fato de a youtuber e a protagonista do material terem a mesma cor de cabelo. Para além disso, as diferenças entre ambas eram gritantes.

“É muito complicado, porque envolve pessoas além de mim, como meu pai e amigos pessoais que me questionam sobre a verdade dos fatos. E quando a gente tem fake news tão agressivas quanto essa que inventaram agora, é assustador!”, diz. “É muito complicado e difícil contornar isso, me mantendo psicologicamente bem. Às vezes é mais forte, às vezes menos. De qualquer maneira, tem todo um cansaço mental que isso produz.”

Contudo, o canal “Laura Sabino” não é alvo apenas de ataques violentos. A grande motivação em dar continuidade a divulgação e elucidação das correntes de esquerda vem das muitas avaliações positivas que a estudante e os colegas recebem de várias faixas etárias. Mensagens de adolescentes de 14 e 15 anos chegam à plataforma, elogiando a maneira como os vídeos são feitos, compartilhando terem até mesmo se encontrado politicamente por meio dos conteúdos.

A influenciadora também relatou ter ouvido de pessoas idosas que “agora elas estavam conseguindo entender” a esquerda política, porque antes sentiam falta de explicações marcadas por linguagem mais simples.

No canal, a equipe sempre preza pelo compartilhamento de dicas literárias mais acessíveis, que conversem com todos os tipos de pessoas e, numa busca pela democratização do conhecimento político, muito em breve estará disponível na plataforma do Youtube uma playlist de vídeos explicativos sobre as funções de cargos parlamentares, por exemplo, e outros conhecimentos mais básicos.

Apoio da esquerda

Por trás dos grandes esforços empreendidos pelos jovens, Laura comenta sobre a necessidade da esquerda brasileira em dar voz as pequenas iniciativas, muitas vezes ofuscadas por figurões famosos que não se encaixam nos debates da oposição as teorias liberais.

“A esquerda precisa repensar na maneira como ela olha para os conteúdos produzidos dentro dela. Eu reparo que as pessoas têm uma tendência em compartilhar muito mais links de portais da direita, da grande mídia, e o mesmo serve para os influenciadores. Às vezes eu vejo os movimentos compartilhando coisas de pessoas que tem um grande número de seguidores, mas não são de esquerda, são apenas antibolsonaro e, provavelmente, nas próximas eleições vão estar apoiando alguém de direita”, afirma.

De acordo com Laura, existe um grande esforço em trazer para a discussão o questionamento das fontes responsáveis por sustentar argumentos, origem de termos, análise documental e construção de narrativas, por exemplo. O canal do Youtube tem contribuído fortemente para a formação de Laura enquanto historiadora e pesquisadora.

“Eu não estou só estudando história. Eu estou vendo a história sendo construída de uma forma muito próxima. Estou na linha de frente contra um regime fascista, me expondo. É uma situação muito complicada e eu percebo que, ao mesmo tempo que é muito reconfortante, que não tenho vontade de desistir do canal, porque é muito útil pra muita gente, estou dando minha cara a tapa. Meu curso de história, quando eu estudo sobre fascismo, sobre regimes autoritárias, se torna muito mais vívido”, relata.

Confira aqui o canal Laura Sabino.

Julia Cachapuz
Julia Cachapuz
Estudante de Jornalismo e estagiária na Revista Fórum, sob a supervisão de Adriana Delorenzo.