A indústria da moda está entre as mais poluentes e desiguais do planeta. O setor responde por até 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, por 20% da poluição da água e gera 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano — o equivalente a um caminhão de roupas descartadas a cada segundo.
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No Brasil, o impacto é ainda maior. Mais de 100 marcas já foram associadas ao desmatamento na Amazônia por causa da produção de couro. No Cerrado, responsável por 90% do algodão nacional, há registros de grilagem, desmatamento ilegal e violações de direitos humanos.
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Diante desse panorama, o Fashion Revolution Brasil — organização que há mais de uma década atua pela construção de uma moda mais justa e sustentável — lançou a campanha “Moda Pelo Clima”.
A iniciativa conecta a luta por justiça climática à transformação da indústria da moda, levando o tema para os espaços globais de decisão, como a COP30, que ocorre em Belém (PA) até 21 de novembro.
Transição justa e regenerativa na moda
Durante a conferência, o Fashion Revolution divulgou uma carta aberta defendendo uma transição justa e regenerativa para o setor. O manifesto cobra que a moda seja incluída nas agendas formais de enfrentamento à crise climática, com políticas que unam justiça social, inovação e sustentabilidade.
O documento alerta que, se nada mudar, a moda ultrapassará em 50% o limite global de emissões compatível com 1,5 °C, previsto pelo Acordo de Paris. A carta defende uma transição energética justa, desde a eletrificação das fábricas até a substituição dos combustíveis fósseis em toda a cadeia produtiva.
Os desafios e as propostas
O movimento identifica seis frentes urgentes: combater a precarização do trabalho, reduzir o uso de energia fóssil, frear o desmatamento vinculado à moda, conter a geração de resíduos têxteis, valorizar saberes tradicionais e ampliar a transparência das cadeias produtivas.
Entre as medidas propostas estão:
- Metas obrigatórias de descarbonização para o setor, alinhadas ao Acordo de Paris;
- Planos de adaptação climática com participação de trabalhadores, sindicatos e comunidades;
- Crédito público condicionado à divulgação de planos de transição e metas auditáveis;
- Rastreabilidade total de matérias-primas, como couro e algodão, com proibição de insumos vindos de áreas desmatadas;
- Investimentos em energias renováveis, encerrando subsídios a combustíveis fósseis;
- Apoio ao algodão agroecológico e à regulamentação do cânhamo industrial;
- Educação em moda decolonial e proteção de saberes tradicionais;
- Implementação do Plano Nacional de Economia Circular, com incentivo à logística reversa e ao upcycling.
Trabalhadores no centro da transição
O Fashion Revolution Brasil destaca que não há justiça climática sem trabalho digno, transparência e reparação histórica.
Um levantamento do Índice de Transparência da Moda – Edição Clima (2025) revelou que 98% das marcas ainda não têm planos de transição justa; 27% não oferecem compensações a trabalhadores afetados por eventos climáticos; e nenhuma marca investe em adaptação climática ao longo de suas cadeias produtivas.
Enquanto as grandes empresas continuam lucrando, costureiras, artesãos e povos da floresta seguem enfrentando jornadas exaustivas e os efeitos diretos do aquecimento global.
Um chamado à ação
Para o movimento, a transformação da moda precisa vir de baixo para cima, com o protagonismo de quem faz moda todos os dias.
“O futuro da moda precisa reparar, regenerar e reconstruir”, afirma a carta aberta.
Com o manifesto apresentado em Belém, o Fashion Revolution Brasil busca inserir definitivamente a moda na agenda climática global, lembrando que a mudança só será possível com justiça social, ambiental e econômica.
Agenda da Moda pelo Clima na COP30