Ninguém anda pelado. Vestir-se é uma necessidade vital e um direito básico, reconhecido tanto pela Constituição brasileira, que assegura a dignidade da pessoa humana, quanto pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, que inclui o vestuário entre as condições essenciais para uma vida digna.
Ainda assim, o debate sobre a moda — uma das indústrias mais emblemáticas e poderosas do capitalismo — segue sendo deixado na bainha das discussões públicas. Quando o tema vem à tona, quase sempre é diluído entre fofocas, desfiles e tendências passageiras, como se a moda existisse apenas no campo da futilidade.
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Raramente se discute o que está por trás das roupas que vestimos todos os dias: a complexa cadeia produtiva global, a exploração do trabalho e o impacto ambiental que sustentam esse sistema bilionário. A moda, afinal, é mais que aparência — é economia, política e ideologia costuradas em tecido.
Shein em Paris: um espelho do nosso tempo
Um exemplo recente é a inauguração da primeira loja física da Shein, gigante chinesa do ultra fast fashion, no coração da capital mundial da moda, Paris — um episódio que escancarou a superficialidade com que o assunto costuma ser tratado.
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O debate público se espalhou pelas redes sociais em diferentes partes do mundo e dividiu opiniões. De um lado, estavam os que exaltavam a suposta “democratização” do acesso às roupas; de outro, os que denunciavam o impacto ambiental e a exploração do trabalho que sustentam a marca. Houve ainda quem, em uma leitura simplista, preferisse colocar sobre o consumidor individual toda a responsabilidade pelos efeitos desse sistema.
Mas, em todos os casos, faltou profundidade. Quase ninguém se pergunta como é possível vender uma camiseta por três euros e, ainda assim, lucrar. A discussão fica presa à superfície moral do consumo — entre a culpa e o glamour — sem enfrentar o verdadeiro problema: a engrenagem econômica que transforma corpos, tempo e natureza em mercadoria descartável.
No fundo, a polêmica em torno da Shein diz menos sobre a marca e mais sobre nós mesmos — sobre uma cultura moldada pela necessidade de pertencimento, pela lógica da obsolescência e por um capitalismo que transforma até a indignação em produto.
O livro que descostura o discurso
É nesse vazio de reflexão que surge o livro "A Indústria da Moda no Capitalismo Tardio", da pesquisadora Joana Contino, professora da ESPM Rio, doutora e mestre em Design pela PUC-Rio.
Atuante no campo da moda desde 2003 e docente universitária desde 2012, Joana investiga temas como economia criativa, cadeia produtiva, relações de trabalho, tecnologia, cultura e identidade — e propõe uma leitura crítica sobre como a moda traduz, materializa e tensiona as contradições do capitalismo contemporâneo.
Em entrevista exclusiva à Fórum, Joana reflete sobre o modo como tem sido conduzido o debate a respeito da inauguração da Shein — e sobre como ele revela os limites da discussão pública sobre consumo e responsabilidade individual. Segundo ela, o discurso neoliberal está no centro dessa distorção.
“De acordo com a lógica neoliberal, do mesmo modo que os indivíduos são responsáveis pelo seu sucesso (ou pelo seu fracasso), eles também são os culpados pelos problemas sistêmicos do capitalismo. E é central para a manutenção desse modo de produção que as pessoas acreditem nisso.”
Joana explica que essa inversão ideológica tem sido profundamente eficaz, e que o discurso que culpa o consumidor pelos impactos da moda encontra muito eco.
No livro, ela procura mostrar que a esfera da produção é predominante sobre o consumo. Ou seja, para dar vazão à produção sempre crescente de mercadorias, o consumo precisa aumentar cada vez mais.
E, para que isso aconteça, a indústria da moda utiliza uma série de mecanismos de convencimento — desde modelos de produção como o fast fashion e o ultra fast fashion, até a ideia de que nossos "estilos de vida" também são transitórios.
“Essa inversão da lente — olhar para a produção, e não apenas para o consumo — pode ajudar as pessoas a entenderem melhor como funciona a cadeia produtiva da moda, que só pode ser compreendida se for situada dentro das engrenagens capitalistas.”
A autora reforça que o problema está na estrutura — e não apenas nas escolhas individuais.
“Não dá para colocar a culpa só no consumidor.”
Na obra, Joana lembra as toneladas de roupas descartadas todos os anos no deserto do Atacama e a exploração dos trabalhadores da moda, consequência direta da velocidade produtiva imposta pelas grandes marcas.
“É claro que as pessoas têm que se conscientizar, mas elas são o tempo todo estimuladas a consumir mais e mais.”
Ela também analisa o conceito de ‘estilo de vida’ promovido por marcas e influenciadores: “Esses estilos de vida também se tornam passageiros. O capitalismo acelera tudo — a produção, o consumo e até as formas de viver.”
Vestir é um ato político
Em tempos em que virou tendência afirmar que tudo é político — “comer é um ato político”, “ler é um ato político”, “amar é um ato político” —, Joana propõe uma reflexão tão simples quanto poderosa: a moda também é um ato político.
“Assim como toda e qualquer indústria, a moda responde às demandas do capital, tendendo à acumulação, concentração e centralização nas mãos de poucos. Cria produtos obsoletos e explora a força de trabalho. A urgência de discutirmos isso agora é que essa conexão nunca esteve tão intrincada, tão veloz. Nunca criamos produtos que são comprados e descartados tão rapidamente — e nunca se explorou tanto o trabalhador da moda.”
O livro é fruto da tese de doutorado de Joana, na qual a autora revisita e atualiza conceitos fundamentais sobre o fast fashion, como a obsolescência programada das coleções e a aceleração produtiva que hoje impacta tanto o varejo popular quanto o mercado de luxo.
“A moda sempre teve a novidade como motor. Mas a moda contemporânea se caracteriza por uma velocidade inédita. As empresas pequenas tentam acompanhar as grandes redes sob o risco de ficarem para trás. A clássica divisão das coleções por estações já não atende à dinâmica da indústria. Hoje se lança coleção nova a cada mês, a cada duas semanas — e até a cada dia.”
O designer e a costureira: elos da mesma cadeia
O livro convida o leitor a olhar para as engrenagens da indústria e mostra como as leis do capital descritas por Karl Marx continuam atuando na moda. Joana critica a separação entre o trabalho intelectual e o manual:
“O designer não percebe que está tão inserido nas dinâmicas de exploração quanto as costureiras. E, ao se enxergar como diferente ou superior, ajuda a reproduzir o aparato ideológico capitalista.”
Parece inovação, mas é atraso
Por fim, Joana alerta para as contradições entre discurso tecnológico e prática real das empresas:
“Desde os anos 1980 já existem robôs de costura, os sewbots. Mas eles foram ignorados porque é mais vantajoso usar mão de obra barata — geralmente no Sul Global.”
Serviço — Lançamento do livro
Lançamento: "A Indústria da Moda no Capitalismo Tardio", de Joana Contino
Data: 1º de dezembro
Horário: 19h
Local: Livraria Blooks, em Botafogo (RJ)
Bate-papo com: a autora Joana Contino e a historiadora da moda e influenciadora Carol Lardoza