NOVELA MEXICANA

Miss Universo: escândalo com candidata do México reacende debate sobre concursos de beleza

Entre o glamour e as críticas feministas, o evento ganha nova face em uma era que cobra respeito, autonomia e diversidade

Miss Universo: escândalo com candidata do México reacende debate sobre concursos de beleza.Entre o glamour e as críticas feministas, o evento ganha nova face em uma era que cobra respeito, autonomia e diversidadeCréditos: Reprodução Instagram (@missuniverse.mexico)
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O Miss Universo 2025, realizado na Tailândia, transformou-se em uma verdadeira novela internacional sobre respeito e poder feminino. Denúncias de insultos, uma saída dramática e um pedido de desculpas em lágrimas colocaram o evento no centro de uma polêmica mundial.

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Mais de 120 candidatas de todo o planeta estão no país asiático disputando o título de mulher mais bela do universo. A candidata brasileira é Maria Gabriela Silva Lacerda, representante do estado do Piauí.

Mas o concurso ganhou outro tom depois que Fátima Bosch, representante do México, foi ofendida publicamente durante uma reunião com o organizador do evento, o empresário tailandês Nawat Itsaragrisil.

Em uma transmissão ao vivo que viralizou, Nawat criticou Bosch e, segundo o áudio, chegou a chamá-la de “burra” por não ter feito publicações sobre a Tailândia em suas redes sociais.

Envergonhada, a Miss México deixou o local acompanhada pela Miss Iraque. O organizador nega o insulto, mas o vídeo mostra que ele chegou a chamar a segurança durante o desentendimento.

Logo depois, Bosch desabafou à imprensa local:

“O que o diretor fez não é respeitoso. Ele me chamou de burra. O mundo precisa ver isso, porque somos mulheres empoderadas e esta é uma plataforma para nossa voz.”

O gesto provocou reação imediata. Diversas candidatas se levantaram em solidariedade, mas hesitaram ao ouvir a advertência de Nawat: apenas permaneceriam na competição aquelas que voltassem a se sentar.

O episódio ganhou repercussão internacional e chegou à presidenta do México, Claudia Sheinbaum, que elogiou a postura da Miss:

“As mulheres ficam mais bonitas quando erguem a voz e participam. Meu reconhecimento porque ela viveu essa agressão e, muito dignamente, disse: ‘Não concordo’.”

Confira o vídeo a partir de 1h49:

Diante da pressão, a Organização Miss Universo condenou o comportamento de Nawat. O presidente do concurso, Raúl Rocha, declarou:

“Não permitirei que os valores de respeito e dignidade para com as mulheres sejam violados.”

Horas depois, Nawat apareceu em uma coletiva chorando e pedindo desculpas:

“Sou humano. A pressão é grande.”

Mesmo assim, ele manteve presença na cerimônia de abertura, agora sob forte escrutínio da mídia e do público — em um concurso que se transformou em símbolo de um novo debate sobre empoderamento e respeito às mulheres.

A longa história dos concursos de beleza

Os concursos de beleza modernos ganharam força nos Estados Unidos em 1921, com o Miss America, realizado em Atlantic City, em Nova Jersey, no famoso Million Dollar Pier. Mas suas origens são ainda mais antigas: já no século 19, eram comuns pequenas competições de beleza em feiras e eventos locais, que serviram de inspiração para os espetáculos nacionais e internacionais que viriam depois.

A ideia do formato atual surgiu como uma estratégia de marketing. Comerciantes de Atlantic City queriam prolongar a temporada turística após o Labor Day — o Dia do Trabalho dos EUA, celebrado na primeira segunda-feira de setembro —, e o desfile de mulheres em trajes de banho rapidamente virou atração nacional.

Nos anos seguintes, o evento se transformou em um espetáculo transmitido por rádio e televisão, ajudando a moldar o ideal da “mulher moderna”: bela, educada, patriótica e símbolo da nação.

Após a Segunda Guerra Mundial, a partir dos anos 1950, o formato se espalhou pelo mundo e deu origem aos grandes concursos internacionais conhecidos como os “Big Four”: Miss World (Reino Unido, 1951), Miss Universe (Estados Unidos, 1952), Miss International (Japão, 1960) e Miss Earth (Filipinas, 2001)

Uma curiosidade envolve a criação do Miss Universo. O concurso nasceu após uma briga entre a marca de roupas de banho Catalina Swimwear e o Miss America. Em 1951, a vencedora se recusou a posar de maiô para a patrocinadora, e a empresa decidiu criar sua própria competição — celebrando abertamente o corpo feminino, o que na época foi considerado um desafio à moral conservadora.

Desde então, o Miss Universo evoluiu de uma disputa regional para um império global de mídia com mais de 120 países participantes. Ao longo das décadas, o evento se adaptou às mudanças sociais, incorporando discursos de empoderamento e diversidade, mas sem escapar das polêmicas que o acompanham desde o início.

Trump e o reinado do espetáculo

Organização Miss Universo

Entre 1996 e 2015, o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi proprietário do Miss Universo, além de deter os direitos sobre o Miss USA e o Miss Teen USA. Durante quase duas décadas, os concursos foram controlados pela Miss Universe Organization, empresa co-propriedade de Trump e da NBCUniversal.

Conhecido por transformar o evento em um espetáculo de autopromoção, Trump costumava aparecer nas transmissões e bastidores como o “dono do concurso”, associando-o à sua imagem de empresário de sucesso. Sob seu comando, o Miss Universe consolidou-se como símbolo do glamour dos EUA — mas também virou alvo de críticas por seu viés comercial e por reforçar estereótipos femininos.

O ciclo chegou ao fim em 2015, após Trump fazer declarações xenófobas contra imigrantes mexicanos durante sua pré-campanha presidencial. As emissoras NBC e Univision romperam contrato, levando à venda da Miss Universe Organization para a WME/IMG (atual Endeavor).

O olhar das feministas

Com o avanço das lutas femininas, especialmente a partir dos anos 1970, os concursos de beleza passaram a ser alvo de críticas severas. Para muitas feministas, esses eventos são parte de um sistema que une patriarcado, capitalismo e a objetificação do corpo feminino.

Na prática, o corpo da mulher se torna uma mercadoria, avaliada e explorada por uma indústria bilionária de moda, estética e mídia. O valor da mulher, nesse modelo, é medido pela aparência — não pela inteligência ou autonomia.

Essas críticas também denunciam os padrões de beleza restritos, geralmente centrados em mulheres brancas, magras e jovens, o que reforça desigualdades raciais e de classe.

Para as feministas marxistas, os concursos distraem a sociedade de problemas reais, como desigualdade salarial, trabalho doméstico não pago e violência de gênero, criando uma ilusão de empoderamento baseada na competição e na aparência.

O ponto de vista das defensoras

As mulheres que defendem os concursos de miss têm uma visão bem diferente. Para elas, esses eventos evoluíram com o tempo e deixaram de ser simples desfiles de beleza, tornando-se plataformas de empoderamento e representatividade.

Muitas misses afirmam que o concurso dá voz e visibilidade a mulheres de diferentes origens e que hoje há maior diversidade de corpos e histórias nos palcos. Ser miss, dizem, é representar o país e mostrar que a beleza também pode ser cultural, intelectual e solidária.

Elas também veem os concursos como espaços de aprendizado e superação pessoal. As candidatas se preparam física, emocional e intelectualmente, e muitas relatam ganhos de autoestima, autoconfiança e liderança.

Além disso, os concursos se tornaram portas de entrada para oportunidades profissionais e sociais — há misses que se transformaram em empreendedoras, diplomatas, ativistas e líderes comunitárias.

Nos últimos anos, as regras também mudaram: o Miss Universo passou a aceitar mulheres trans (desde 2018) e mães e casadas (a partir de 2023), além de dar mais peso a projetos sociais e à oratória do que à aparência física.

Para as defensoras, essas mudanças mostram que o concurso está se adaptando às transformações sociais e pode ser um instrumento de emancipação, e não de opressão.

Quando a coroa vira voz política

Ao longo das décadas, algumas misses transformaram o título em uma plataforma de ativismo e engajamento social, mostrando que o papel das vencedoras pode ir muito além da passarela.

A sul-africana Zozibini Tunzi, eleita Miss Universo 2019, usou sua visibilidade para combater o racismo e defender o empoderamento de mulheres negras. Com seu cabelo natural e discursos sobre autoestima e representatividade, ela se tornou símbolo de uma nova geração de misses que desafiam padrões de beleza tradicionais.

A indiana Harnaaz Sandhu, vencedora do Miss Universo 2021, também seguiu um caminho semelhante. Ela passou a atuar em campanhas pela saúde menstrual e educação feminina, usando o título para chamar atenção a temas ainda considerados tabu em várias partes do mundo.

No Brasil, um exemplo histórico é Martha Vasconcellos, Miss Universo 1968, que, após o fim de sua carreira nos concursos, se mudou para os Estados Unidos e passou a trabalhar em projetos de apoio a imigrantes e mulheres vítimas de violência doméstica.

Essas trajetórias mostram que, mesmo em um universo frequentemente criticado por sua superficialidade, há quem use a coroa como instrumento de transformação social e política, dando novo significado à ideia de ser “a mulher mais bela do mundo”.

Entre o empoderamento e o controle

O caso da Miss México revela o paradoxo central dos concursos de beleza: embora sejam apresentados como palcos de empoderamento e representatividade, ainda funcionam dentro de estruturas de poder que impõem submissão, padrões estéticos rígidos e silêncio diante da autoridade.

Entre lágrimas, aplausos e hashtags, o episódio mostra que a “rainha da beleza” do século 21 já não aceita ser apenas um símbolo decorativo. Ela quer ser sujeito de sua própria história, reivindicando algo muito mais valioso do que uma coroa: respeito.

Como resumiu a presidenta do México, Claudia Sheinbaum, “as mulheres ficam mais bonitas quando erguem a voz e participam”.

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