Durante a Cúpula dos Líderes da COP30, em Belém (PA), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou atenção ao surgir, em sua reunião bilateral com o presidente francês Emmanuel Macron, nesta quinta-feira (6), usando uma camisa branca adornada por uma faixa lateral com grafismo marajoara — um detalhe carregado de simbolismo político e cultural.
O gesto, aparentemente simples, ganhou força simbólica. Em um evento global sobre o clima, a roupa transformou-se em mensagem política e cultural, projetando a Amazônia não apenas como tema da conferência, mas como protagonista.
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A peça — possivelmente confeccionada em tricoline de algodão e adornada com galão geométrico típico da estética marajoara — uniu elegância diplomática e identidade territorial.
A arte marajoara, originária da Ilha do Marajó, no Pará, é marcada por grafismos em cerâmicas ancestrais, consideradas as expressões artísticas mais antigas do Brasil e entre as mais antigas das Américas. Ao usar esse símbolo, Lula reforçou que a cultura amazônica é parte essencial da identidade nacional e da narrativa ambiental brasileira.
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A Amazônia no centro da cena
A escolha da camisa teve valor político. Ao adotar uma peça com referências regionais, Lula colocou a Amazônia como protagonista visual da conferência. A moda, nesse contexto, tornou-se extensão do discurso, uma forma de afirmar que o futuro do planeta depende da valorização da floresta e das comunidades que nela vivem.
O encontro com Macron ultrapassou a diplomacia tradicional: foi também uma exibição da criatividade, estética e elegância amazônica, rompendo com estereótipos que reduzem a região à natureza intocada ou à pobreza.
O olhar da moda paraense
Para entender o impacto desse gesto, a Fórum conversou com exclusividade com Naisha Cardoso, 40 anos, joalheira, artista e representante do Fashion Revolution Brasil em Belém, que acompanha a COP30.
Nascida e criada na capital paraense, Naisha é conhecida por reinventar a joalheria clássica com materiais da Amazônia, como vidro, pérolas de rio e elementos líquidos. Suas criações unem técnica artesanal e experimentação, propondo uma estética que valoriza o fazer manual, a natureza e a ancestralidade amazônica.
Sobre a peça escolhida por Lula, cuja estética remete à cultura marajoara, ela destaca que o gesto do presidente tem grande significado simbólico.
“Esse esforço do Lula de investir no que a gente produz aqui é muito importante. Mas eu espero coerência no que diz respeito às políticas públicas para toda a cadeia produtiva — do artesanato à moda, do início ao fim do processo.”
Moda com DNA amazônico
Naisha defende que a moda da Amazônia já existe e precisa ser valorizada em sua própria lógica, sem depender de interpretações externas ou elitizadas.
“A moda na Amazônia existe. Quando eu vejo um produto que não usa fibra natural, penso: vamos enaltecer a fibra natural com estilista daqui, com quem vive isso. É preciso valorizar não só o material, mas quem o faz.”
Ela lembra que não há uma única Amazônia, mas várias. “Estamos falando de um território de dimensões continentais. O que é feito em Belém é diferente do que é feito em Santarém, no Baixo Amazonas. Cada realidade tem sua força criativa própria.”
Do local ao universal
A artista acredita que a força da moda amazônica está em seu enraizamento. “A gente que cria na Amazônia não basta ser bonito — tem que carregar uma mensagem. E quanto mais local essa mensagem é, mais universal ela se torna.”
Ela se mostrou orgulhosa ao ver um produto regional ocupar o centro das atenções internacionais. “Ver um produto sair daqui sem o filtro da moda gourmetizada é muito gratificante. É como se ele honrasse um território inteiro, mostrando sua força de forma bruta e bonita.”
Continuidade e capacitação
Apesar da força simbólica, Naisha alerta que gestos como o de Lula precisam de continuidade.
“Isso é só a primeira página. Se o restante das atitudes confirmarem, fico feliz. Mas precisamos de capacitação, compreensão e continuidade. Uma inovação leva cinco anos para se consolidar. É preciso acolher os frutos desse trabalho e criar políticas de longo prazo para quem vive e produz aqui.”
Ela cita as bordadeiras do Marajó como exemplo de resistência cultural.“Essas mulheres fazem moda reafirmando suas histórias. Não é mercado, é sobrevivência e identidade. Isso precisa se traduzir em autoestima, reconhecimento e oportunidades reais.”
A moda como território político
Para Naisha, a moda é também uma forma de resistência e afirmação política.
“A gente cria porque precisa, porque essa é a nossa realidade. A moda é uma forma de afirmação e resistência. E quando o mundo escuta a Amazônia, isso torna tudo mais universal — mas sem pasteurizar nossas mensagens.”
Ela reforça que o desafio agora é transformar o símbolo em estrutura concreta: “Precisamos de políticas públicas continuadas. Só assim o gesto de Lula vai além do simbólico e se torna ação concreta.”
Um símbolo que pode virar legado
A camisa marajoara de Lula uniu política, cultura e identidade amazônica em um único gesto. Simples na forma, mas profunda em significado, a peça expressa uma visão de Brasil conectada às suas origens e à natureza.
Se o governo transformar essa simbologia em políticas culturais e ambientais duradouras, o gesto deixará de ser apenas uma lembrança marcante da COP30 e se tornará um legado político e estético da Amazônia para o mundo.
O que esperar da indústria da moda na COP30
O gesto do presidente Lula sintetiza o que a COP30 representa: a Amazônia no centro do mundo e a cultura como linguagem política. Como reflete Naisha, o gesto só ganha sentido se vier acompanhado de ações concretas — políticas que fortaleçam a cadeia produtiva local, valorizem o trabalho artesanal e sustentem a moda como expressão de território e resistência.
Essa é também a encruzilhada da indústria da moda diante da conferência: deixar de tratar a sustentabilidade como discurso e torná-la prática cotidiana. A COP30, entre 10 e 21 de novembro, em Belém (PA), será a primeira conferência do clima realizada no coração da Amazônia — e pode marcar um ponto de virada simbólico para o setor, um dos mais poluentes e menos transparentes do planeta.
A fala de Naisha sintetiza o desafio que a moda brasileira enfrenta ao entrar na COP30: não basta celebrar a estética amazônica; é preciso estruturar uma cadeia produtiva justa, sustentável e duradoura. Embora o setor movimente bilhões e empregue milhões de pessoas, ele ainda depende de matérias-primas de alto impacto ambiental, como algodão e couro, e de modelos produtivos baseados no descarte e na exploração laboral.
Nos últimos meses, alguns movimentos tentam corrigir esse rumo. O Índice de Transparência da Moda - Edição Clima 2025, do Fashion Revolution Brasil, revelou o baixo nível de comprometimento das grandes marcas com metas climáticas e rastreabilidade.
Já a Fashion CEO Agenda 2025, lançada pela Global Fashion Agenda (GFA), propõe metas concretas para reduzir emissões e alcançar impacto positivo até 2050.
No Brasil, a Liga de Descarbonização, lançada durante o Rio Ethical Fashion (REF), articula empresas, governo e sociedade civil para medir e reduzir emissões, formando uma base nacional de transparência climática.
Essas iniciativas apontam que o futuro da moda depende da coerência entre discurso e prática — a mesma coerência evocada por Naisha e simbolizada na camisa de Lula. O desafio agora é transformar gestos e promessas em estrutura, substituindo o marketing verde por políticas públicas efetivas, rastreabilidade real e valorização de quem cria a partir do território.
Se esse compromisso se concretizar, o Brasil poderá sair da COP30 com uma nova narrativa global: a de um país que veste a Amazônia não apenas como imagem, mas como projeto de futuro — onde moda, cultura e sustentabilidade coexistem no mesmo tecido que costura identidade, trabalho e responsabilidade planetária.
A conferência em Belém é o momento de alinhar estética, ética e economia, para que o país — e o setor — mostrem ao mundo que é possível costurar desenvolvimento e floresta no mesmo tecido.
Se conseguir dar esse passo, a moda brasileira poderá transformar o que começou como um gesto simbólico em um legado duradouro — um futuro em que vestir o Brasil seja também proteger o planeta.