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21 de maio de 2019, 18h57

Movimento “Direitos Já” busca isolar Bolsonaro e criar um novo espectro político de resistência

Um espectro político amplo, que reúne partidos com diferenças profundas, mas que se encontram em um movimento em defesa da democracia e dos direitos humanos atacados por Bolsonaro

Por Julinho Bittencourt e George Marques A reunião realizada com o objetivo de construir uma frente ampla por direitos e contras as políticas de Bolsonaro realizada no apartamento do jurista Pedro Serrano nesta segunda-feira e que se tornou pauta política depois de reportagem assinada por Pedro Venceslau e Ricardo Galhardo, de O Estadão, é fruto de uma articulação que vem se dando desde novembro do ano passado. Fórum apurou que este encontro teria sido o 13° realizado pelo grupo. O objetivo, de acordo com os seus participantes, é” defender a civilização, a democracia e os direitos no país”. Para isso,...

Por Julinho Bittencourt e George Marques

A reunião realizada com o objetivo de construir uma frente ampla por direitos e contras as políticas de Bolsonaro realizada no apartamento do jurista Pedro Serrano nesta segunda-feira e que se tornou pauta política depois de reportagem assinada por Pedro Venceslau e Ricardo Galhardo, de O Estadão, é fruto de uma articulação que vem se dando desde novembro do ano passado. Fórum apurou que este encontro teria sido o 13° realizado pelo grupo.

O objetivo, de acordo com os seus participantes, é” defender a civilização, a democracia e os direitos no país”. Para isso, o grupo já criou um slogan, “Direitos Já”. Com clara alusão ao movimento das Diretas Já este novo slogan já se tornou broches que foram distribuídos aos que chegavam à residência de Serrano.


Frente Ampla

No encontro desta segunda-feira, entre as cerca de 40 pessoas presentes, estavam desde o ex-senador José Anibal (PSDB-SP) até Guilherme Boulos (PSOL-SP), passando por vários outros políticos como Fernando Haddad, Aloizio Mercadante e o vereador Eduardo Suplicy, todos do PT; o ex-ministro da Justiça José Gregori, o vereador Daniel Anneberg e André Franco Montoro, todos pelo PSDB; o presidente do PV, José Pena; José Gustavo, porta voz da Rede, Soninha Francine (PPS) e Aldo Rebelo, do Solidariedade.

Além deles, estavam presentes também vários juristas, representantes da sociedade civil, membros da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CONDEPE), a presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Marianna Nunes, junto com outros três ex-presidentes da entidade, entre diversas outras.

Serra e Alckmin para o movimento

De acordo com o coordenador da tendência tucana ‘Esquerda pra Valer’, Fernando Guimarães, um dos articuladores do processo, ao lado de Pedro Serrano e do advogado petista Marco Aurélio Carvalho, o movimento não tem “nenhum caráter de política eleitoral”, mas busca preservar “valores fundamentais que são expressos na Constituição Brasileira”. O escritor diz que já aconteceram conversas com Eduardo Jorge (PV-SP), Andréa Matarazzo (PSD-SP) e Mário Covas Neto (Podemos-SP) para tentar atrai-los para esta frente.

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Guimarães também revelou que nos próximos encontros tentarão convencer caciques do PSDB, como José Serra e, logo em seguida, Geraldo Alckmin para o movimento. “Nós temos feito uma série de dois encontros por semana, com quase todos os partidos. Temos optado por não apresentar nada como pronto. É um processo de construção e, daqui até agosto, nós queremos colocar no palco o leque mais representativo possível. Entre nós o clima está muito respeitoso”, sustenta.

Boulos e Freixo consideram um movimento importante

Guilherme Boulos, ex-candidato a presidente que também participou da reunião, considera que a iniciativa é importante no sentido de agregar vários setores da sociedade dispostos a lutar pela democracia.

“Existem outras iniciativas em curso. Tem uma mesa que congrega lideranças como Haddad, Flávio Dino, Sônia Guajajara, Ricardo Coutinho. Tem as reuniões dos partidos de esquerda. Logo, essa é mais uma iniciativa que traz alguns setores que estão preocupados com a crise democrática no Brasil”, ressaltou.

O deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) avalia que “diante do fascismo é necessário reorganizar as forças democráticas com capacidade de ação no Congresso e que possam combater as agendas regressivas desse governo.”

Risco de radicalização 

Para o vice-líder do PT na Câmara, José Guimarães, há que se ter a preocupação também com o que pode vir num momento pós-Bolsonaro.

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“O presidente já mostrou que na falta de liderança, ataca o Congresso. É curioso que a única instância preservada de seus impropérios sejam os militares. Por quê?”, pontua Guimarães.

O advogado Marco Aurélio Carvalho, militante do PT, segue na mesma linha e afirma que “o momento pelo qual o país passa, com os recentes ataques à democracia, nos coloca a obrigação de sentar à mesa com um leque amplo de forças para construir uma pauta comum. Ele sustenta que “é o momento de reafirmarmos as nossas convergências e deixarmos de lado tudo aquilo que nos separa, até para que possamos continuar a divergir. O que nos une, seguramente, é muito maior do que o que nos distancia”.

Na mesma linha, a coordenadora do Núcleo da Acompanhamento Legislativo da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Margarete Gonçalves Pedroso, afirma que a reunião foi uma “aliança nas diferenças”. Segundo ela, as pessoas estão buscando um denominador comum para defender as instituições e a democracia. “É algo maior do que as diferenças entre as forças que estavam ali presentes. É a busca de manutenção da democracia, de espaço democrático e principalmente das instituições democráticas que estão sendo abaladas com todas as políticas que têm sido implementadas pelo governo federal”, disse.

Movimento supra e extrapartidário

O anfitrião deste último encontro, o jurista e professor da PUC-SP Pedro Serrano, considera a iniciativa como fundamental para que se construa um arco social capaz de defender pontos  fundamentais da Constituição de 1988 que colocaram o Brasil num outo patamar civilizatório após a ditadura militar.

“Nesta reunião ficou claramente registrado o espirito que, em defesa da democracia, todo mundo vai se unir. O movimento é supra e extrapartidário. Muita gente, como eu, não é de partido nenhum. A minha avaliação é que a reunião foi muito positiva. A grande maioria dos presentes estava disposto a deixar as diferenças de lado e construir uma pauta comum, em torno da defesa da legalidade, educação, direitos humanos, da luta contra o desemprego e do respeito às pautas identitárias”, disse.

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Serrano lembrou ainda que “este é um movimento de defesa, não de ataque. No momento em que este governo parar de atacar os direitos humanos, os valores civilizatórios, nós também paramos”.

O objetivo do grupo é lançar um manifesto, muito provavelmente em agosto, no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Tuca), com a participação mais ampla possível de políticos e personalidades da esquerda até a centro-direita.

Polêmica Lula Livre

A reportagem de O Estadão registrou que o deputado estadual e tesoureiro nacional do PT teria dito que “a educação pode ser um ponto que nos una mais. Se não nos unificar a Previdência e a campanha Lula Livre, vamos procurar o que nos une.” Tanto Emídio de Souza emitiu uma nota desmentindo a frase, como outros participantes que estavam no encontro afirmaram à Fórum que ela não foi dita. “Eu estava ao lado do Emídio, ele não disse nada parecido com isso”, sustenta Pedro Serrano.

A exploração desta frase nas redes criou atritos em grupos de whatsapp de dirigentes do partido. O desmentido de Emídio não teria sido suficiente para acalmar todas as alas do PT e algumas consideram que o movimento é uma traição a Lula e uma aproximação com os golpistas.

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