300 famílias de Curitiba recebem cestas básicas doadas pelo MST e sindicatos

Ocupação criada há dois meses em Curitiba já conta com300 famílias que não conseguem pagar aluguel

Por Luiz Lomba, de Curitiba  

O #24J começou quente na gelada Curitiba, com comida para aquecer a barriga e muito companheirismo para fortalecer o espírito. Movimentos, pastorais e sindicatos que integram a União Solidária celebraram a inauguração do Centro Comunitário Olga Vive e a doação de cestas com alimentos para as 300 famílias da Vila União, bairro Tatuquara. A comunidade foi criada em maio deste ano por famílias vítimas dos desgovernos de Bolsonaro e Ratinho Jr. Depois do almoço comunitário, os moradores da Vila zarparam em três ônibus para o Centro, onde a manifestação Fora Bolsonaro aconteceu a partir das 15h na Praça Santos Andrade.

O centro comunitário homenageia Olga de Souza, militante social e fundadora da Vila, falecida essa semana vítima da Covid 19. Antes da inauguração, Roberto Baggio, integrante da coordenação do MST, pediu um minuto de silêncio para homenageá-la. “Com esse minuto a gente honra a vida da Olga e abençoa esse lugar, que é de todos nós e é também o futuro, se a gente olha para as crianças daqui”, disse. A comunidade tem 220 crianças.

Foto: Nelson Orlando de Andrade

O exemplo de vida de Olga tem a força que precisamos para superar esse momento em que os ataques aos direitos sociais ameaçam os trabalhadores do campo e da cidade, apontou Baggio. “Em vida, Olga cuidou das pessoas, ajudou a construir esse espaço da comunidade, sempre se preocupou com os outros, que somos todos nós”, afirmou, antes de pedir aos presentes que assumissem consigo mesmos o compromisso de seguir o exemplo dela. “Ser Olga nesse momento é ser solidário, é ser amigo, ajudar a comunidade, construir uma sociedade de irmãos entre nós. Só assim a gente vai sair dessa crise: um cuidando do outro, repartindo com o outro”, disse.

O Centro Comunitário vai potencializar o desenvolvimento da comunidade e dos laços entre seus moradores. “Esse é um espaço da vida, da partilha, da oração, da catequese, do reforço escolar, da juventude, do grafite, dos aniversários, das festas, dos casamentos”, afirmou Roberto Baggio. A Vila União foi fundada no dia 13 de maio, por 180 famílias, no bairro Tatuquara, periferia da capital paranaense. Em dois meses de existência, já são 300 famílias no terreno particular ocupado. As lideranças trabalham para regularizar os lotes.

O MST doou três toneladas de alimentos para compor as cestas básicas distribuídas. Sindicatos promoveram arrecadações para incluir outros produtos nas cestas, integrando campo e cidade no combate à fome durante a pandemia. Mas a atuação do MST na comunidade vai muito além da iniciativa pontual de doar alimentos para quem precisa, incluindo a instalação de um Núcleo de Educação Popular.

“Além de possibilitar organizar melhor todas as coisas, esse Centro Comunitário tem outra dimensão, estratégica, que é possibilitar às pessoas se desenvolverem como seres humanos, crescerem, formarem consciência. Isso só é possível com estudo, que vai gerar sabedoria. Teremos aqui um conjunto de iniciativas nessa área, independentemente das iniciativas do Estado, da educação municipal, estadual e federal, pois temos aqui adultos que precisam se recolocar, crianças que precisam de reforço escolar, jovens que querem se desenvolver”, adiantou Baggio.

O dia a dia na Vila União é difícil, especialmente no inverno de Curitiba, quando as temperaturas chegam perto do zero nas madrugadas. O espírito comunitário é que fortalece a mente e o corpo para resistir. “Se for cada um por si, fica fraco e o psicológico fica difícil”, diz Élcio Ruviaro de Oliveira, 41, um das lideranças na ocupação. “A gente ajuda a organizar para atender a todos, pois aqui todo mundo precisa. São famílias que não tinham mais como pagar o aluguel”, explica. Ele conta que as refeições são preparadas coletivamente e quem precisa pode pegar marmitas. Esse sábado foi um dia de festa na comunidade, com prato cheio para todos.

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Foto: Nelson Orlando de Andrade

Os alimentos doados à comunidade foram  benzidos pelo padre Joaquim Parron, que ressaltou ser esse sábado um dia de luta, pela terra, moradia, emprego e dignidade. “Pela manhã temos a bênção dos alimentos e essa reflexão coletiva. À tarde temos nossa passeata contra o genocídio no Brasil. Temos aqui a cidade e o campo dando as mãos para construirmos uma sociedade em que haja dignidade e as crianças possam ter saúde e educação”, disse. Ele citou o Evangelho e lembrou que Jesus Cristo afirmou aos seus discípulos que veio dar a vida dele por nós, para que tenhamos vida com dignidade, respeito e amor. Ele pediu uma salva de palmas ao MST antes de rezar o Pai Nosso.

A ação na Vila União foi realizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Paraná (MST); Sindicato dos Petroleiros do Paraná e Santa Catarina (Sindipetro PR e SC); Comissão da Dimensão Social da Arquidiocese de Curitiba; Centro Comunitário padre Miguel (Cocopam); Associação dos Professores da Universidade Federal do Paraná (APUFPR); Produtos da Terra; Coletivo Marmitas da Terra; APP-Sindicato Estadual, e Núcleos Curitiba Sul; e Partido dos Trabalhadores de Curitiba (PT-Curitiba).

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Solidariedade permanente

As iniciativas da “União Solidária” começaram em junho de 2020 e levaram alimentos e cargas de gás a diversas comunidades de Curitiba e região metropolitana. A mais recente ocorreu nas comunidades Pantanal e Chacrinha, do bairro Boqueirão, no dia 12 de junho. Neste dia foram distribuídas 500 cestas de alimentos e 100 cargas de gás a famílias em situação de vulnerabilidade social. Uma horta comunitária também foi inaugurada na vila Chacrinha, como forma de melhorar a qualidade da alimentação das famílias.

Foto: Nelson Orlando de Andrade

Ainda neste ano, no dia 1 de maio, a Vila Sabará recebeu a partilha de 560 cestas de alimentos e 100 cargas de gás. Também houve mutirão para a criação da Agrofloresta Papa Francisco, que está sendo mantida pelo Centro de Integração Social Divina Misericórdia (CISDIMI).

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