quarta-feira, 30 set 2020
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Ativistas propõem Pacto Pela Saúde Mental em São Paulo

Segundo a secretaria municipal de Saúde de São Paulo, uma em cada seis pessoas na cidade enfrenta algum tipo de transtorno mental

Durante a pandemia, muita gente tem reclamado de problemas ligados a transtornos mentais, como depressão e ansiedade, mas isso é um problema mais comum do que se possa imaginar e o confinamento social só veio jogar luzes sobre a questão.

De acordo com um levantamento feito pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo (2017), uma em cada seis pessoas na cidade enfrenta algum tipo de transtorno mental.

Por isso mesmo urge que políticas públicas sejam implementadas para sanar esse problema que é de saúde pública.

E por ser um problema tão gritante e ainda permanecer invisibilizado, um grupo de ativistas está propondo um Pacto Pela Saúde Mental em São Paulo. A ideia é sensibilizar governantes e candidatos a prestarem atenção a essa questão e colocá-la em pauta.

Barbara Panseri, ativista pela saúde mental e idealizadora do Pacto, comenta: “Convivi e convivo com pessoas acometidas por transtornos mentais a vida toda. Com o passar do tempo, percebi que o estigma sobre as doenças e a falta de visibilidade sobre as soluções tornavam impossível avançar em pautas propositivas, para toda a sociedade. A saúde mental deve ser uma bandeira de todos e todas nós. Só vamos viver em uma cidade mais humana e acolhedora, quando o tema da saúde mental for discutido por toda a sociedade”.

Como nem todo mundo tem dinheiro para pagar um bom consultório de psicologia, o movimento defende a promoção e prevenção da saúde mental e o diagnóstico, tratamento e reabilitação dos enfermos dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).

O Pacto pela Saúde Mental em São Paulo cobra que os governantes façam investimentos em equipamentos públicos e programas específicos para o tratamento dos transtornos mentais. Uma cidade inchada, com mais de 12 milhões de habitantes, com sérios problemas de violência, desemprego, droga, adicção, poluição sonora e visual, estresse no trânsito, no trabalho e na família, também produz solidão, apagamento, anti-empatia e abandono.

Tudo isso é combustível para desencadear uma série de distúrbios psíquicos. Por isso mesmo, o pacto propõe, ainda, melhorias na mobilidade urbana, na área da cultura e lazer e na criação de mais espaços verdes e de convivência. Saúde mental é qualidade de vida.

O pacto será lançado nesta quinta-feira, 10 de setembro. Com ele será lançado um manifesto que pode ser lido na íntegra aqui. Para assinar o manifesto ou se juntar ao grupo de ativistas, basta enviar um e-mail para [email protected].

O Manifesto

Saúde não é o contrário de doença,

Saúde não é só bem-estar físico,

É também bem-estar social, ambiental e mental.

Se não sentimos o Sol, ficamos tristes, não produzimos vitamina D.

Se não temos dinheiro para nos cuidarmos ou cuidarmos dos nossos, ficamos preocupados, com insônia, com gastrite ou estressados.
Se não nos alimentamos bem, nossa saúde física e mental é afetada.

Se nos estressamos no trabalho, nossas relações sociais e familiares são afetadas.

Tudo está interligado. Somos seres integrais!


Viver em grandes cidades é mais desafiador ainda.

Nos afastamos da vida em comunidade e isso influencia na produção de bem-estar físico e mental. Em São Paulo, a urbanização da cidade produziu enorme desigualdade.

Desigualdade no acesso a serviços fundamentais para o desenvolvimento pleno dos cidadãos.

Reforçou a desigualdade racial, a desigualdade de renda.

Como consequência, muita gente está adoecendo psiquicamente.

Te pergunto… Como está sua saúde mental?

Como está a saúde mental do seu vizinho, da sua filha, do seu pai?

Você conhece alguém com depressão ou com ansiedade? Com síndrome do pânico? Você conhece alguém com algum transtorno alimentar ou com transtorno bipolar?

Você já se questionou se precisava buscar ajuda de um psiquiatra ou de uma psicóloga?

Já teve dificuldade para sair da cama para trabalhar, vontade repentina de chorar ou explodiu sem motivo?

Você conhece alguém que sofre por ter um parente dependente químico?

Você faz uso abusivo de álcool ou outra droga? Ou bebe pra esquecer dos seus problemas?

Você não é a única. Você não é o único.

9,3% da população brasileira é ansiosa, e 8% é depressiva.

31 pessoas se suicidam por dia em nosso país.

13% dos brasileiros tem algum parente dependente químico.

Na cidade de São Paulo, 1 em cada 5 pessoas apresenta algum tipo de transtorno mental.

Nós vivemos em uma dura realidade que nos afeta de maneira silenciosa.

Vivemos numa cidade desigual, violenta e que nos traz medo, estresse e inquietação. Vivemos sob grande pressão, pressão para ter sucesso, para produzir, para casar, para corresponder às expectativas.

Nós podemos ter tudo isso, mas precisamos nos preocupar com nossa saúde de forma integral.

Nós queremos nos divertir, estudar, amar. Nós queremos viver em paz, viver bem.

Viver bem é ter moradia.

Viver bem é ter um trabalho digno.

Viver bem é ter amigos e familiares com saúde.

Viver bem é ter acesso a alimentos nutritivos e de qualidade,

É ter acesso à água potável e a esgoto.

Viver bem é ter acesso à educação, cultura, lazer e esporte.


Somos mães, pais, filhos e filhas,

Somos professores,

Somos indígenas,

Somos policiais,

Somos médicos,

Somos cidadãos

Somos humanos,

Somos paulistanas e paulistanos,

Preocupados com nossa saúde mental.

Uma rede de indivíduos que compartilha do mesmo propósito: viver em uma cidade mais humana, acolhedora e que tenha a saúde mental como um direito assegurado pelo governo, pelas empresas e por toda a sociedade.

Esta campanha foi criada para alertar as paulistanas e os paulistanos para a gravidade do problema e para exigirmos soluções. Nós, moradoras e moradores da cidade de São Paulo, demandamos políticas públicas que cuidem da saúde mental da nossa população.


Vem com a gente? Vamos espalhar esse pacto, pois a saúde da nossa mente merece atenção.

Lelê Teles
Lelê Teles
Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.