Catadores da Novo Amanhecer celebram conquista de novo barracão em Curitiba

Sábado foi de festa para comemorar vitória com a união dos trabalhadores da cidade e do campo

Por Luís Lomba, de Curitiba

Depois de dias de luta, o sábado (16) foi de festa na Associação de Catadores Novo Amanhecer, em Curitiba (PR). A luta, mais uma entre tantas, foi para erguer os barracões que vão possibilitar aos carrinheiros trabalhar em local coberto, livres da chuva e do sol. A festa é para reunir, presencialmente e à distância, os que colaboraram na conquista, que exigiu esforço coletivo de muita gente, com trabalho voluntário e doações numa campanha que arrecadou R$ 55 mil para a obra, coordenada pela União Solidária, coletivo que reúne MST, sindicatos, igrejas e artistas. No Dia Mundial da Alimentação, para completar a festa teve distribuição de alimentos e cargas de gás para as 40 famílias da Associação.

Celebrar as conquistas do presente e organizar a sociedade do futuro, para manter a esperança, não desanimar e renovar o compromisso de seguir com a luta. Esse foi o sentido do encontro de sábado na Associação Novo Amanhecer. “Nós estamos num grande momento de celebração, de formação, de fortalecimento da fé e da esperança, com cultura, com arte, luz, música e trabalho. Então é um sábado especial”, resumiu Roberto Baggio, integrante da direção do MST.

A união dos trabalhadores e do campo abre perspectivas para sobreviver e prosperar, especialmente nesse momento de ataques a direitos sociais. “Temos aqui um esforço coletivo dos trabalhadores, com a força dos trabalhadores do campo, os sem terra, os sem trabalho, a parte do campo que o agronegócio, a grande fazenda não quer. Esses camponeses se somam aos trabalhadores da Novo Amanhecer, que o sistema capitalista também não quer. Então essas duas forças se juntam para erguer o projeto, cujo cimento foi a solidariedade de classes”, afirma.

A ação da União solidária na Associação Novo Amanhecer partiu de uma doação de madeira feita pelo MST, que disponibilizou 11 carpinteiros para trabalhar voluntariamente na obra. Em seguida, militantes, sindicalistas, religiosos e catadores de recicláveis iniciaram um esforço coletivo para obter os recursos necessários para a obra, o que incluiu uma campanha de comunicação e uma live com artistas populares no dia para conseguir doações. O resultado superou as expectativas e foram arrecadados R$ 55 mil – a meta inicial era conseguir R$ 42 mil.

Os trabalhadores da Novo Amanhecer ocuparam o terreno em que trabalham há 15 anos. A força do coletivo possibilitou a eles manter a cabeça erguida e prosperar na adversidade. A associação traz em si o embrião da sociedade do futuro, observa Baggio. “O que temos aqui é uma grande oportunidade de convívio, a satisfação de sentir ‘eu participei, criei relações’. Na sociedade adiante vamos precisar de relações humanas desse nível. Essa iniciativa aqui tem esse vigor do que seria a sociedade para o futuro, as novas relações, o cuidado humano, a generosidade”, diz.

Se olhar bem, dá para ver algo de novo e poderoso surgindo na Novo Amanhecer. “É o encanto de uma experiência comunitária de trabalhadores rejeitados pelo poder público e pelos ricos, que em 15 anos organizaram um estilo de sociedade comunitária baseada no trabalho combinado entre eles”, afirma Baggio.

“Olhando para a frente, que essa experiência aqui oriente os 100 milhões de brasileiros que o sistema rejeitou, que vivemos do trabalho e enriquecemos os ricos. Precisamos organizar iniciativas como essa, de trabalho, de educação, de saúde, de música, de alimentos, de cultura, de afetividade”, completa.

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Unir os trabalhadores que o sistema rejeita para organizar o embrião da nova sociedade é uma utopia muito nítida para ser desprezada. “Com essa experiência aqui podemos gestar qualquer nova estrutura, a partir de um belo coletivo com homens, mulheres e crianças, com 15 anos de caminhada”, aponta Roberto Baggio. “Nós temos nesse país riquezas para todos os brasileiros. Não queremos uma sociedade com 60 bilionários e 80 milhões de brasileiros sem um prato de comida. Isso não se sustenta e revela que o sistema está doente e talvez precise morrer para que a gente possa erguer esse outro tipo de vida que a gente quer”, afirma.

A orientação para um projeto de novo amanhecer está dada. “Queremos organizar sociedade de irmãos. União solidária significa que vamos conseguir um novo amanhecer. Queremos repartir a terra no campo e a riqueza concentrada na cidade. Queremos saúde pública, educação também, que a terra fique nas mãos dos brasileiros, que a Petrobras seja  nossa para garantir um gás que todos possam pagar”, conclui Roberto Baggio.

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A construção dos barracões melhora a vida de 40 famílias de catadores de recicláveis, que antes eram obrigadas a separar o material embaixo de sol e chuva. “A gente estava na expectativa de fazer duas ou três barraquinhas, como a gente fala, sairia pra gente quase uns R$ 15 mi. Então o Baggio veio com a notícia boa pra gente: vamos fazer três barracões. Pra gente foi uma alegria”, conta Antonio de Jesus Cardoso de Lima Filho, presidente da Associação Novo Amanhecer.

A Associação Novo Amanhecer funciona num galpão ocupado no dia 7 setembro de 2006. Em 15 anos, muitas conquistas foram alcançadas, entre elas uma cozinha comunitária que serve almoço aos associados por R$ 1,50. “Vai fazer 15 anos que estamos nessa área, aqui em Curitiba, e melhorou muito a situação dos carrinheiros”, conta Juliana da Silva Santos, vice-presidente do Novo Amanhecer, se referindo à conquista de um local para trabalhar. “Hoje em dia, o Brasil está em crise, então se trabalha bastante para comer”, completa.

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