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04 de agosto de 2019, 21h32

Cuidado com as petições online, porque na internet o peixe morre pelos dedos

As petições online em algum momento já foram forte instrumento de pressão política. Hoje, no entanto, podem não ter o mesmo efeito de outros momentos.

Por Antonio Arles*

Em vários grupos de esquerda em aplicativos de mensagem estão solicitando que se assinem petições para os mais diversos fins. Aparentemente as petições são falsas e, mesmo em tese, é importante alertar para este tipo de manobra.

Vivemos uma fase do Capitalismo que alguns chamam de Capitalismo da Vigilância. Nesta economia um dos grandes ativos econômicos são os dados dos cidadãos conectados. A primeira utilidade destes dados seria para fins de consumo, sendo que sua aquisição e tratamento um dos pilares do marketing moderno.

Mas e se como fins de “consumo” pudéssemos entender que o voto, nesta economia, também virou produto, sendo o marketing político um dos grandes utilizadores de dados obtidos através de métodos vigilantistas?

Não sem motivo em várias partes do mundo a extrema-direita subiu ao poder em diferentes países concomitantemente ao desenvolvimento das técnicas digitais dentro do Capitalismo da Vigilância. O grande escândalo neste sentido foi o uso de métodos e técnicas não-éticos por parte da empresa Cambridge Analityca, que coletou dados de usuários de Facebook sem o consentimento destes e usou para fins políticos, tendo inclusive participação fundamental na eleição de Trump e no BrExit.

Diante deste escândalo e de outros de menor repercussão as grandes plataformas como Facebook e Twitter limitaram a extração de dados por terceiros via suas APIs (interfaces de programação abertas), mesmo que estes dados continuem alimentando as empresas donas destas plataformas. Com isto os “mineradores de dados” procuram alternativas para continuar alimentando suas bases que antes eram alimentadas prioritariamente extraindo-se dados das grandes plataformas acima citadas.

Apesar de plataformas não hegemônicas – e as plataformas de petições se incluem nesta categoria – fornecerem menos dados em volume do que as grandes plataformas, estes dados podem ser melhor qualificados para os fins que estão traçados nas estratégias de comunicação de seus detentores.

Ora, consolidada as bases de direita – prova disso é o uso exitoso de mensageiros instantâneos pela campanha de Bolsonaro -, parece ter chegado a hora de estudar, compartimentar e macrossegmentar, com fins primeiramente de dissuasão, as bases adversárias.

As petições online em algum momento já foram forte instrumento de pressão política. Hoje, no entanto, esse instrumento de pressão pode não ter o mesmo efeito de outros momentos. Por outro lado, continuam sendo poderoso instrumento de recolhimento de uma base de dados qualificada de usuários, seja por requisitar desde e-mails até outros dados identificadores, como CPF e outros mais.

Esse instrumento foi tão importante para a criação das bases digitais da extrema-direita mundial que um dos principais hubs da organização de campanhas em rede de extrema-direita, principalmente religiosa, é o site CitizenGo, um site de petições. Na própria Política de Privacidade do site pode-se ver que eles explicitam o uso e tratamento de dados inseridos por meio da plataforma de petições ou recolhidos com as campanhas de e-mail que enviam para os assinantes. O CitizenGo é um hub poderoso de campanhas de extrema direta no mundo, mas não é o único e também não é o menos transparente dentre os milhares de sites com este tipo de proposta.

Muitos site se “vestem” com roupagens progressistas para recolher dados para os mais diversos fins e é preciso estar atenta(o) ao ceder dados pessoais em qualquer espaço da Internet. Evite proceder cadastro em sites ou aplicativos desconhecidos, preferindo ler atentamente todos os informativos sobre tratamento de dados destes antes de ceder qualquer dado. Na dúvida não clique no botão de cadastrar. Na Internet, o peixe morre pelos dedos.

*Antonio Arles é analista de dados.


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