Manifestantes fazem ato por memória e justiça das vítimas da pandemia

Em São Paulo, foram acesas 500 velas para lembrar as vítimas da pandemia no país na escadaria do Largo da Memória, no Anhangabaú; confira

Por Mônica Mourão

Ativistas independentes e militantes da Articulação Respira Brasil, da Marcha Mundial das Mulheres e do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) lembraram os mais de 500 mil mortos por Covid-19 no Brasil, num ato por memória e justiça nesta segunda-feira (21). Em São Paulo, foram acesas 500 velas para lembrar as vítimas da pandemia no país na escadaria do Largo da Memória, no Anhangabaú. Os manifestantes se somam à Campanha Nacional Fora Bolsonaro e pedem “vacina no braço e comida no prato”.

O grupo já havia se manifestado quando o Brasil chegou às marcas de 300 mil e 400 mil mortos por Covid-19, números atingidos nos dias 24 de março e 29 de abril, respectivamente. Agora, com meio milhão de vidas perdidas, atos semelhantes acontecem nessa semana em 18 cidades do país. “Esse é o terceiro ato que a gente faz aqui em São Paulo. Infelizmente a gente chegou nesse triste, absurdo e revoltante número de 500 mil pessoas por falta de uma resposta articulada desse governo genocida, que tem como plano matar as pessoas, visto que não dá uma resposta coordenada à pandemia e que negou cem vezes a compra da vacina para a Pfizer”, disse Larissa Viana, uma das organizadoras do ato. Ela lembra ainda que é preciso espaço para o luto, especialmente quando não podem acontecer velórios ou enterros que reúnam grande quantidade de pessoas. “Entendemos também que esse luto é coletivo, precisamos processá-lo através da justiça. Então essa é uma ação que clama e cobra por justiça. E esse luto é de um país inteiro”, afirmou.

Apenas hoje, outros dois atos pela memória das vítimas de Covid-19 foram realizados em São Paulo, na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, no Jardim Miriam, e na Escadaria Mascarenhas de Moraes, em Sapopemba. Padre Dário, em sua fala hoje, em Sapopemba, afirmou que “esse gesto é para que ninguém mais tenha que morrer. Hoje fazemos esse momento de oração de forma inter-religiosa. Não é só a comunidade católica. Em outras partes do Brasil também tem pessoas da comunidade evangélica, de religiões de matriz africana, muçulmanos, budistas, pessoas que tem a sua própria mística e que também rezam conosco. Estamos em comunhão com todas elas”.

Com os depoimentos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) em curso no Congresso Nacional, a política genocida de Jair Bolsonaro foi escancarada. Além de ter ignorado mais de cem e-mails da farmacêutica Pfizer, o governo federal também demorou a reagir às propostas do Instituto Butantan. O diretor do Instituto, Dimas Covas, afirmou à CPI que, se não fosse a demora na definição do contrato e na aprovação da Coronavac, 60 milhões de doses teriam sido entregues ainda em 2020. Com as duas ofertas, o Brasil deveria ter iniciado a vacinação contra a Covid-19 ainda no ano passado. Enquanto isso, o auxílio emergencial foi descontinuado no início deste ano e retomado com valor menor: entre R$ 150 e R$ 375, quando antes era de R$ 600 ou R$ 1200 para mulheres chefes de família. Além disso, o governo apostou na “imunização de rebanho” através da contaminação e foi contra as medidas de distanciamento social. Apenas o presidente Bolsonaro esteve em pelo menos 84 aglomerações desde o começo da pandemia.

Por tudo isso, para Sarah de Roure, da Marcha Mundial das Mulheres, “não chegamos à marca de meio milhão de mortes por Covid-19 no Brasil por casualidade. Está ficando comprovado que houve negligência na gestão da resposta pública para a pandemia. Quando a gente compara a resposta do Brasil com outros países, mesmo aqui na América Latina, a gente vê que essa resposta foi muito frágil”. Ela destaca também o quanto a pandemia reforçou desigualdades. “O vírus chega de forma diferente na periferia de São Paulo, comparado com Higienópolis. Isso significa que é preciso ter política, não só para serviço de saúde, mas também para enfrentar a desigualdade. Isso quer dizer que o vírus mata mais gente pobre, gente negra, gente trabalhadora”.

Sarah de Roure lembra também que o ato foi feito “porque nessa pandemia a gente perdeu trabalho, comida, terra e também perdeu amores. Estamos aqui para falar desses amores e da necessidade de reconhecer a dor e o sofrimento de quem está em casa chorando, achando que vive um problema privado”. A defesa da memória e da justiça é também inspirada em outros movimentos. “Aprendemos nas lutas com as mulheres negras, com os movimentos de resistência, pela anistia, que luto se faz com justiça”, disse.

Confira, abaixo, imagens do ato em São Paulo feitas pelo fotógrafo Edgar Bueno.

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