MST doa 67 toneladas de alimentos no Paraná

Atos marcam a lembrança e luta pelos 25 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás, quando 21 integrantes do MST foram assassinados no Pará

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Por Leonardo Henrique, de Curitiba (PR)

Desde o início da pandemia, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) tem promovido ações solidárias com quem sofre com as crises econômicas, diminuição na renda, perda de emprego e falta de acesso à alimentação de qualidade por todo o Brasil. Na semana dos 25 anos do Abril Vermelho, não seria diferente. Somente no Paraná, foram distribuídas 67 toneladas de alimentos, entre os dias 14 e 19 de abril.

As doações demonstram respeito aos 21 trabalhadores rurais mortos pela Polícia Militar do Pará, em 17 de abril de 1996, na cidade de Eldorado dos Carajás. Foi um dos maiores massacres mundiais na luta pela terra. Devido à repercussão internacional, a data foi definida como Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária e Dia Internacional de Luta Camponesa.

Para Roberto Baggio, da direção estadual do MST e um dos organizadores da ação em Curitiba, as mobilizações ocorrem no contexto de luta por auxílio emergencial de R$ 600, vacinação, pelo direto à moradia e políticas de geração de empregos.

“Esperamos que todo esse alimento, essa energia, natureza do bem acolha as famílias, proteja e estimule para que vivam”, afirma. “O 17 de abril é de memória e, certamente, todos os Sem Terra assassinados estão nos vendo como lutadores do povo. Estão felizes por esse gesto de repartir o pão”.

Ainda durante a semana, árvores foram plantadas nas áreas da Reforma Agrária. Integrantes do acampamento Maria Rosa, Padre Roque e Zapata, em Castro, fizeram um mutirão de manutenção de um hospital na cidade. E, em Porecatu famílias assentadas trancaram a rodovia João Lunardelli, PR 170, para lembrar os 25 anos do Abril Vermelho.

Além da doação dos alimentos e símbolos do MST, havia bandeiras do Brasil e faixas exigindo auxílio emergencial de, no mínimo, R$ 600, plano nacional de aceleração de vacinação e garantia do direito à moradia. Ação em Curitiba. Foto: Giorgia Prates

Números da fome crescem no Brasil

As estatísticas são alarmantes: até o fim de 2020, uma pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) atestou que 116,8 milhões de brasileiros não têm acesso pleno à comida. Desses, 19 milhões passaram fome.

É evidenciada a importância da solidariedade popular para enfrentar esse cenário. Desde abril de 2020, mais de 600 toneladas de alimentos foram compartilhadas no Paraná, com a participação de agricultoras e agricultores. Parte dessas famílias ainda batalham para permanecer nos locais, enquanto produzem comida de qualidade.

A logística das doações é feita com apoio de igrejas, poder público municipal e entidades urbanas. São respeitados os protocolos de proteção contra a Covid-19, como distanciamento e uso de máscaras e álcool gel.

Apenas em Curitiba, de maio de 2020 a abril de 2021, mais de 52 mil refeições foram distribuídas pelo coletivo Marmitas da Terra, coordenado pelo MST, o qual também conta com militantes de várias organizações sociais e voluntários. Participantes do coletivo têm notado que, a cada semana, cresce a demanda por almoço no Centro da capital.

União do campo e da cidade

Feijão, arroz, abóbora, frutas, vegetais, dentre outros. As cestas montadas com muito carinho foram distribuídas na semana dos 25 anos do Abril Vermelho, por todo o Paraná. Confira como as ações aconteceram em cada cidade:

Curitiba – Dias 14 e 16

Na quarta-feira, 1.100 Marmitas da Terra foram entregues em praças do Centro e ocupações urbanas. A Vila Jardim Veneza, no bairro Tatuquara, é atendida pela ação e também recebeu 9 toneladas de alimentos, na sexta-feira (16).

“É sempre difícil para a gente que vive em aluguel. É um dinheiro que a gente tira da mesa. Complicou ainda mais com a pandemia”, contou Marcelino Lemos. A família dele é uma das 348 da ocupação, que começou em 12 de dezembro de 2020.

“A marmita que chega toda quarta é uma tremenda ajuda. Quem tem filhos, não precisa fazer almoço é uma grande coisa porque sobra para a janta ou o próximo dia.”

O assentamento Maila Sabrina, em Ortigueira (norte do estado) doou 7 toneladas e produziu uma carta desejando forças à comunidade e reforçando a união. As outras 2 toneladas partiram de militantes do Partido dos Trabalhadores (PT) de Curitiba e do gabinete da deputada federal Gleisi Hoffmann, que destinaram 1.500 quilos de alimentos não perecíveis, e do Centro de Assistência Social Divina Misericórdia do Sabará (CASDM), com 101 cestas.

Pitanga – dia 14

As famílias do acampamento Claudete Vive, de Boa Ventura do São Roque, fizeram a doação de mais de 1.000 quilos de alimentos ao hospital São Vicente de Paula.

Maringá – dia 15

Arroz, macarrão, fubá, açúcar mascavo orgânico, mandioca, abóbora, pepino, limão, laranja, abacate e maracujá são alguns dos tantos alimentos presentes nas cestas distribuídas para 250 famílias em situação de vulnerabilidade. Abençoadas pelo padre Marcos Roberto, as 5 toneladas de comida chegaram aos bairros Jardim Ipanema, Jardim Alvorada, Cidade Alta e Jardim Ebenezer.

A ação partiu do assentamento Santa Maria, de Paranacity; Salete Strozake, de Itaguajé; Milton Santos, de Planaltina do Paraná; Companheira Roseli Nunes, de Amaporã; Ilgo Luiz Peruzzo, de Santa Mônica; Che Guevara e Pontal do Tigre, de Querência do Norte; do acampamento Padre Josimo, de Cruzeiro do Sul; assentamento Novo Horizonte, de Santo Inácio; e da Escola Milton Santos de agroecologia de Maringá.

Em Maringá, 250 famílias receberam uma grande diversidade de alimentos. Foto: Breno Thomé Ortega

Paranavaí – dia 16

Entrega de 5 toneladas em bairros da periferia de Paranavaí. A ação foi realizada pelas mesmas comunidades que atenderam famílias de Maringá, além dos assentamentos Vida Nova, São Paulo, Nossa Senhora da Penha e Sétimo Garibaldi, domunicípio de Terra Rica.

Cascavel – dia 16

Doação de 8.000 quilos a cerca de 400 famílias atendidas pelo Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do bairro Interlagos, pela Pastoral da Criança da Paróquia Nossa Senhora das Graças, do bairro Brasmadeira, e pela Paróquia Santo Inácio de Loyola, também do Brasmadeira.

Dalva Terezinha Peres tem 70 anos e diz conhecer o MST há muito tempo. “É a quarta vez que pego os alimentos. Que Deus dê muita saúde aos trabalhadores que têm o dom maravilhoso de dividir o trabalho com quem não têm”, declarou.

Parte do público que recebeu os alimentos são imigrantes haitianos e venezuelanos. Entre os itens das cestas, estavam feijão, fubá, arroz, quirera, mandioca, abóbora, abacate, trigo e verduras.

As partilhas aconteceram por meio dos acampamentos 1º de Agosto, Dorcelina Folador e Resistência Camponesa de Cascavel; acampamento Nova Semente, de Catanduvas; acampamento Formigas, de Ibema; assentamentos Valmir Mota, Jangadinha e Santa Terezinha, de Cascavel; assentamentos Olga Benário e Sepé Tiaraju, de Santa Tereza do Oeste; e assentamento Teixeirinha 8 de Março, de Campo Bonito.

Solidariedade popular, em Cascavel, como forma de enfrentamento à fome. Foto: Diangela Menegazzi

Foz do Iguaçu – dia 16

Famílias do MST da região Oeste do Paraná organizaram a distribuição de 3 toneladas de alimentos aos moradores do Conjunto Bubas, região do Porto Meira, em Foz do Iguaçu.

Arroz, feijão, mandioca, batata doce, abóbora, limão, abacate e banana são alguns dos itens destinados pelo assentamento 16 de Maio e pré-assentamento 28 de Outubro, de Ramilândia; assentamento Ander Rodolfo Henrique, de Diamante D’Oeste; acampamento Chico Mendes e pré-assentamento Padre Josimo, de Matelândia; acampamento Sebastião Camargo e assentamento Antônio Companheiro Tavares, de São Miguel do Iguaçu.

Jacarezinho – dia 16

Camponeses dos assentamentos Companheiro Keno, de Jacarezinho, e Elias de Meura, de Carlópolis, doaram 2 toneladas de alimentos colhidos nas hortas, lavouras e pomares, cerca de 100 pães e 100 litros de leite também foram partilhados.

Londrina – dia 17

Entrega de 22.000 quilos de alimentos e 2 litros de leitenos bairros União da Vitória, da Praça União IV, Cristal, Franciscato, São Jorge, Flores do Campo, Moka e Jardim Turquino.

A ação foi organizada parceria com o movimento Levante Popular da Juventude, com setores da Igreja Católica, e a campanha Periferia Viva. Os alimentos são frutos do trabalho de famílias dos assentamentos Eli Vive, de Londrina; Dorcelina Folador, de Arapongas; Maria Lara, de Centenário do Sul; Florestan Fernandes, de Florestópolis; Iraci Salete, de Alvorada do Sul; e Barra Bonita, do município de Primeiro de Maio.

Uma parte também vem de camponeses que ainda estão na luta para permanecer nos territórios, que são os acampamentos Zilda Arns e Manoel Jacinto Correio, de Florestópolis; Fidel Castro, em Centenário do Sul; e Herdeiros da Luta de Porecatu, no município de Porecatu.

Frutas e verduras compuseram as cestas. Foto: Patricia Lisboa

Pato Branco – dia 17

Os acampamentos Terra Livre e Mãe dos Pobres, de Clevelândia; e Sete Povos das Missões, de Honório Serpa, doaram 2 mil quilos de alimentos para cerca de 70 famílias da periferia de Pato Branco.

Pelo menos 15 destas famílias têm membros enfrentando o câncer, por isso o ato de partilha para aconteceu para fortalecer a imunidade dessas pessoas. A diversidade de itens leva feijão, mandioca, batata doce, hortaliças, temperos e frutas.

Ivaiporã e Jardim Alegre– dia 17

As famílias Sem Terra do assentamento Oito de Abril realizaram a entrega de 6 toneladas para os bairros Vila Monte Castelo e Nova Porã de Ivaiporã e bairro Vila Pachuski de Jardim Alegre.

Barbosa Ferraz – dia 17                                              

As famílias dos acampamentos Valdair Roque, de Quinta do Sol, e Irmã Dorothy, de Barbosa Ferraz, se reuniram para fazer mais uma distribuição de alimentos da Reforma Agrária para 60 famílias em situação de vulnerabilidade.

Umuarama – dia 19

Na manhã de segunda-feira, o hospital UOPECCAN, em Umuarama, recebeu 240 quilos de alimentos das famílias do assentamento Nossa Senhora Aparecida, de Mariluz.

Em Quedas do Iguaçu e Laranjeiras, estão previstas ações para o decorrer do mês.

Construir e colher um mundo novo

O MST lançou o Plano Nacional “Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis” com a intenção de plantar 100 milhões de árvores nas áreas de Reforma Agrária, até 2029. Durante a semana, também aconteceram mutirões por todo o estado.

Na Lapa, o coletivo Marmitas da Terra iniciou o plantio de 5 mil mudas de árvores. A ação também aconteceu em São Miguel do Iguaçu, com plantio de 500; em Congoinhas, que registrou 200; no acampamento Chico Mendes, de Matelândia, com 50 mudas; assentamentos Valmir Mota, em Cascavel, e Estrela do Oeste, em Santa Maria do Oeste; e no acampamento Nova Semente, em Catanduvas, com 100 mudas de abacaxi.

Ainda em Castro, famílias dos acampamentos Maria Rosa, Padre Roque e Zapata, que fazem parte da Brigada Emiliano Zapata, organizaram um mutirão de capinagem e pintura dos muros, meio fio e sinalizações em frente ao hospital Cruz Vermelha.

Em Porecatu, norte do Paraná, os acampamentos Herdeiros da Luta de Porecatu, Zilda Arns, Manoel Jacinto e Fidel Castro, trancaram a rodovia João Lunardelli, PR 170, em um ato simbólico pelos 25 anos do Abril Vermelho.