MST já doou mais de 5 mil toneladas de alimentos e 1 milhão de marmitas na pandemia

Apesar de toda a criminalização imposta por alguns setores sociais, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra tem realizado um papel muito importante em tempos tão difíceis

Amanda Yargas

Neste domingo, 25 de julho, foi o Dia da Agricultura Familiar. Para comemorar a data, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) doou quase 48,7 toneladas de alimentos no Centro-Sul paranaense, incluindo 2,6 mil litros de leite. As cestas com produtos recém-colhidos e o leite partiram de 9 comunidades, sendo 8 delas ligadas ao movimento, somando mais de 2 mil famílias. Os kits foram destinados a trabalhadores urbanos em situação de vulnerabilidade e a cerca de mil famílias das comunidades indígenas da reserva Rio das Cobras, das etnias Kaingang e Guarani.

Mas esta não é uma ação pontual. Desde o início da pandemia os trabalhadores e trabalhadoras rurais acampados e assentados já doaram aproximadamente 5 mil toneladas de alimentos e 1 milhão de marmitas em todo o país, além de álcool 70 e sabão caseiro, com participação de comunidades tradicionais, unidades de produção da Agricultura Familiar, cooperativas e sindicatos.

Entre os mais de 80 tipos de alimentos que já foram entregues nestas ações estão arroz, feijão, mandioca, fubá, frutas, verduras, legumes, pães, ovos, mel, bolachas, leite, queijo, bebida láctea e pinhão. A produção é feita principalmente de forma orgânica. Tarcísio Leopoldo, do acampamento Dom Tomás Balduíno, na cidade paranaense de Quedas do Iguaçu, explica que “para além da certificação, da comercialização, a produção agroecológica envolve as relações sociais e com a natureza. Além do cultivo sem uso de veneno, de agrotóxico, de você ter uma alimentação mais saudável, a gente tem o cuidado com as nascentes, com os cursos d’água, e todo mundo é uma família”.

Foto: Wellington Lenon / MST-PR

O aumento da fome e a contrapartida da agricultura familiar

Apesar da multiplicação das ações de solidariedade durante a pandemia, Darci Frigo, membro do Conselho Nacional de Direitos Humanos e coordenador da organização Terra de Direitos, alerta que isso não é suficiente para amenizar os problemas estruturais, como a falta de emprego, de oportunidade e de políticas públicas que possam realmente enfrentar a situação de pobreza e miséria que as pessoas estão vivendo.

A insegurança alimentar, que é a dificuldade para conseguir alimento de forma regular, em quantidade e qualidade necessárias, já atinge a maior parte da população brasileira: 59%, de acordo com uma pesquisa realizada por pesquisadores da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade de Brasília. Além disso, 15% das pessoas estão em situação de fome.

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Por outro lado, a maior parte dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros, quase 70%, segundo o IBGE, vêm da agricultura familiar. Jonas Furis, membro da coordenação estadual do MST no Paraná, reforça que, para o movimento, a resposta para estes problemas sociais é o acesso à produção no campo. “A gente está tentando mostrar para o trabalhador da cidade que existe um jeito sim de diminuir a crise, que é a reforma agrária popular, para produzir alimentos, não para copiar o agronegócio”.

A criminalização dos movimentos sociais e a aproximação das causas

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O desembargador Fernando Prazeres, da Comissão de Conflitos Fundiários do Tribunal de Justiça do Paraná, explica que os movimentos sociais, como o MST e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), sofrem uma narrativa de criminalização. “Toda vez que há algum tipo de invasão, já se joga o estigma de violência e ilegalidade dentro dos movimentos. A partir do momento que o movimento se aproxima da cidade, mostra o seu trabalho, diz ‘minha produção vai alimentar vocês’, essa integração campo-cidade serve para humanizar o entendimento que as pessoas têm dos movimentos sociais, o que é fundamental para o sucesso da Reforma Agrária no país”, afirma o desembargador.

Já os indígenas, enfrentam fome e perseguição e correm o risco de perderem ainda mais espaço com o projeto de Lei 490/2007, que tramita na Câmara dos Deputados e muda as regras de demarcação dos seus territórios. Segundo Neoli Kafy Rygue Olibio, líder indígena da reserva Rio das Cobras, a aproximação com o MST acontece porque os dois movimentos lutam pelo direito à terra e traz ganhos para todos os lados. “É uma troca de conhecimento, o manejo da terra no formato da agricultura familiar, o MST conhece muito bem e a comunidade indígena conhece muito bem a preservação dos recursos naturais. São dois sistemas que a troca de conhecimento vai beneficiar, e não só essas comunidades, mas a sociedade como um todo”.

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