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21 de setembro de 2019, 17h06

Sobre a Coalizão Pelo Clima, por Agnes Franco

Foram meses preparando o ato de ontem, que chamava atenção para as mudanças climáticas e o negacionismo à ciência do atual governo brasileiro. A foto mostra meu ponto de vista, mas não conta direito essa história.

Foto: Elineudo Meira (Chokito)

A Coalizão Pelo Clima, organizadora do ato, é um caldeirão composto por entidades tão diversas que vão desde CUT até Greenpeace. Reunir e consensuar com pessoas de origem e métodos de manifestação tão diferentes foi uma das experiências mais didáticas que esses meus 25 anos de militância me deram. Mais que isso: cuidar da frente de uma passeata com cerca de 50 mil pessoas onde a comissão de frente era composta por crianças foi um desafio à parte para nós todos.

Era uma dança. Manter o espaço de segurança entre a faixa de abertura carregada por crianças tão pequenas menores que ela própria e os fotógrafos que se aglomeravam na nossa frente exigiu de nós todos um equilíbrio que eu nunca tinha visto, em nenhum ato. Uma ação inspirada por uma menina sueca e que teve no Brasil um ato com catadores na vanguarda da passeata é coisa bonita de se ver em um tempo histórico tão doloroso para todos nós.

Foto: Elineudo Meira (Chokito)

“A mata é verde, Bolsonaro e cinza”, entoava uma das crianças. “A floresta fica, Bolsonaro sai”, gritava a outra. Vocês podem imaginar o que é ver crianças puxando essas palavras de ordem, sem interferência dos responsáveis? Foram eles os protagonistas de ontem.

Foto: Elineudo Meira (Chokito)

Eu, que estava dividindo a função de “chefe de ala” com outrxs companheirxs, na “comissão de frente”, não tinha dimensão do que acontecia lá atrás, apesar de ser tudo coordenado. Uma polícia secretamente me sussurrava… “está imenso o ato de vocês”, quase cúmplice. Os jornalistas nos entrevistavam e não entendiam bem quando dizíamos que nenhum de nós era “da direção”. A horizontalidade que o movimento ambiental carrega é confuso para quem só entende a lógica onde alguém manda e alguém obedece. Mas esse ato foi organizado assim, embora, naturalmente, haja o protagonismo de alguns indivíduos – generosos e cientes da responsabilidade de nossa geração em conter o aumento da temperatura da Terra.

Foto: Elineudo Meira (Chokito)

Foram dezenas de pessoas correndo de uma lado pra o outro para garantir a segurança, o som, rítmo do ato. E deu muito certo. Partidos políticos também fazem parte da Coalizão. E exceto a escorregada da assessoria de uma deputada que tentou brilhar mais do que a Coalizão permite (porque na Coalizão não cabe outro protagonismo que não o do coletivo) ninguém quis aparecer mais do que ninguém. As divergências foram estrategicamente substituídas por construção. Um pacto entre indivíduos de esquerda foi firmado e o resultado do dia ontem é uma lição que não deve ser esquecida. A luta pela preservação da Terra carrega em si o poder que a esquerda tem quando é capaz de encontrar agendas comuns. Ou alguém acredita que levar 50 mil pessoas para a paulista foi tarefa fácil?

Foto: Elineudo Meira (Chokito)

Infelizmente, apesar de toda a mídia presente no ato, nenhuma foto e nenhuma reportagem traduz a dimensão do dia que começou com as mulheres do MST ocupando a Bayer e fechando com a chuva caindo sob uma multidão liderada por movimentos sociais que anunciava um Fórum Socioambiental para o ano que vem.

Foto: Elineudo Meira (Chokito)

A esquerda tem muito a aprender com a Coalizão e com a agenda ambiental. Nós cumprimos a tarefa de ontem, e a luta não parou por aí. Eu, que sou só mais uma formiguinha da Coalizão, estou certa de que vamos incomodar muita gente. Inclusive as velhas estruturas de nosso campo. Mas de uma coisa vocês podem estar certos: a gente não vai parar. Porque acreditamos nas ciências, humanas e biológicas, e estamos cientes de que lindas análises conjunturais não são suficientes para parar o aquecimento global. É hora de uma humildade da dimensão que nós, humanos, temos diante do tamanho do Universo. É hora de entender que para a vida na Terra, não tem plano B. E qualquer coisa que planejemos depende, primeiramente, de nossa capacidade para construir um novo modelo de sociedade que nos dê a chance de sobreviver. Quando isso estiver garantido podemos retomar o debate sobre nossas divergências. Até lá, nós, da Coalizão Pelo Clima, estaremos construindo muita coisa juntos.

Agnes Franco
Membro da Coalizão Pelo Clima

Confira algumas fotos do ato:


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