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14 de janeiro de 2019, 09h19

Sonia Guajajara: Bolsonaro coloca a vida de indígenas nas mãos dos que “querem a nossa extinção”

"Resistiremos. E se junto com os povos quilombolas fomos os primeiros a serem atacados com medidas desse novo governo, seremos também os primeiros a puxar o movimento de resistência", disse Sonia, em entrevista exclusiva à Fórum.

Foto: Reprodução

Candidata a vice-presidente pelo PSol, na chapa com Guilherme Boulos (PSol), Sonia Guajajara, Sonia Guajajara nasceu – em março de 1974 – pouco mais de três meses após a promulgação do Estatuto do Índio.

Filha de pais analfabetos, a indígena da etnia guajajara/tentehar, que habita a Terra Indígena Araribóia, no Maranhão, deixou suas origens pela primeira vez aos 15 anos, quando recebeu ajuda da Funai para cursar o ensino médio em Minas Gerais. Depois, voltou para o Maranhão, onde se formou em letras e enfermagem e fez pós-graduação em Educação Especial.

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Desde então, tem lutado para fazer cumprir a legislação que, praticamente, nasceu junto com ela. No entanto, a posse de Jair Bolsonaro (PSL) mostrou que a luta ainda será mais intensa para impedir que se volte “décadas”, segundo ela, proteger seu povo da extinção defendida publicamente por aqueles que hoje ocupam cargos chaves no governo na relação com o povo indígena.

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Nos primeiros dias de governo Bolsonaro, Sonia montou um grupo de trabalho de apoio aos povos indígenas que agrega, além de representantes de diversas etnias, apoiadores e estudiosos da causa tanto no Brasil quanto no exterior. O objetivo é buscar apoio da comunidade internacional contra a política etnocida do novo governo.

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“Resistiremos. E se junto com os povos quilombolas fomos os primeiros a serem atacados com medidas desse novo governo, seremos também os primeiros a puxar o movimento de resistência”, disse Sonia, em entrevista exclusiva à Fórum.

Fórum: Como você vê a política relacionada aos povos indígenas nestes primeiros dias de governo Bolsonaro?
Sonia Guajajara: Não há uma política para os povos indígenas. Os primeiros dias mostraram que o governo chega com o intuito de desmantelar as instituições importantes para os povos indígenas (Funai, Secadi/MEC, MMA, Min. Cultura) e assim enfraquecer as políticas conquistadas por nós, que não são do PT, e que são reconhecidas nacional e internacionalmente, como a demarcação de terras tradicionais e reconhecimento de direito originário sem o ideário de assimilação, educação bilingue e intercultural, saúde específica, respeito à diversidade e fomento à cultura além do combate ao racismo e discriminação, política de proteção de povos isolados sem a imposição do contato, política de gestão e proteção territorial, garantia de espaços de diálogo, participação e efetivação do direito de consulta.

Fórum: Quais as consequências de se colocar nas mãos dos ruralistas a demarcação das terras indígenas?
Sonia Guajajara: Representa a consolidação da posição do Estado contra os povos indígenas. Em muitos países é assim, governo versus povos indígenas. Mas no Brasil, com a Funai operando, ainda que deficiente, mostrava como é possível dialogar com os povos indígenas e incluir nossos direitos, preocupações e interesses nas políticas nacionais. Afinal o papel do Estado é servir aos interesses nacionais escutando a todos, atuando frente à correlação de forças. Agora parece que será hegemônico: servir ao agronegócio e aos interesses pessoais e familiares dos políticos. Voltamos muitas décadas.

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Fórum: O que o esvaziamento da Funai representa para os povos indígenas?
Sonia Guajajara: A consequência é não cumprir com a Constituição de 1988 que manda o Estado demarcar e proteger as áreas tradicionalmente ocupadas e necessárias à sobrevivência física e cultural dos povos indígenas. Ou seja, é entregar o papel do Estado de proteger nossas vidas, nossas terras e nossos direitos às mãos daqueles que se colocam publicamente a favor de nossa extinção.

Fórum: Em relação ao trabalho de ONGs, como a da atual ministra Damares Alves, que tem o intuito de doutrinar religiosamente os povos indígenas acarreta que consequências?
Sonia Guajajara: A sra. Damares parece confundir suas crenças pessoais com sua responsabilidade enquanto Ministra. Seus primeiros pronunciamentos no cargo não fazem jus à responsabilidade que se tem de liderar a agenda de direitos humanos no país. Um estado laico, que promove a igualdade e combate o racismo e a discriminação não pode ter espaço para a doutrinação religiosa e outras ideologias radicais que ela transforma em slogans ultrapassados e ameaça trazer para a política pública. Então estamos aguardando quais serão suas propostas efetivas para a agenda de trabalho.

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Fórum: Quais são as suas perspectivas, como indígena, do governo Bolsonaro e quais serão as medidas tomadas pelos povos das florestas?
Sonia Guajajara: Resistiremos. E se junto com os povos quilombolas fomos os primeiros a serem atacados com medidas desse novo governo, seremos também os primeiros a puxar o movimento de resistência. Convocaremos a sociedade para se posicionar contra o racismo e o etnocídio. Como dizíamos em nossa campanha, eleição não é cheque em branco e a sociedade brasileira está do nosso lado. Vamos agora lançar a campanha Sangue indígena nenhuma gota a mais com a #janeirovermelho.

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