Fórum Educação
04 de Maio de 2020, 20h23

“Sua maior arma sempre foi a inteligência”: Guerrilheira centenária volta para casa após quase 50 anos na clandestinidade

Exclusivo: Leonor Carrato adota nome falso desde 1971 e lutou no Araguaia. A Fórum conversou com familiares sobre o reencontro

Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/Jornal do Tocantins

Após sucessivos roubos em sua residência na cidade de Colinas do Tocantins, Maria Lidia Martino decidiu abrir ocorrência na 4ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher e Vulneráveis de Polícia Civil no fim de março.

A ocorrência trouxe uma grande reviravolta na vida da senhora que completou 100 anos de idade no dia 16 de abril. A partir da visita da policial Maria Bethânia Valadão, todo o passado de Maria Lidia foi trazido à tona.

Após a agente perguntar se Maria Lidia tinha filhos, a senhora se abriu com a policial e revelou que, na realidade, adotava um nome falso. A policial acionou colega Luiz Costa Jr e descobriu que aquela mulher centenária era uma guerrilheira do Araguaia que vivia há 4 décadas na clandestinidade.

Após relatos de Maria Lidia sobre a luta armada – na qual ela atuava na parte da inteligência – e a fundação do PCB, os agentes buscaram familiares de uma senhora que havia desaparecido em São Paulo há décadas e constatou que a centenária era, na realidade, Leonor Carrato.

Carrato afirma ainda que fez parte da Ação Libertadora Nacional (ALN) e conheceu Carlos Marighella pessoalmente em São Paulo. O nome falso passou a ser usado por Leonor em 1971, após certidão emitida em Castanhal (PA).

Fora dos relatórios da Comissão da Verdade, Leonor ainda relatou que três companheiras de luta no Araguaia conseguiram sair vivas e teriam partido para os Estados Unidos – sem revelar nomes.

A história foi contada nos mínimos detalhes ao jornalista Lailton Costa, do Jornal de Tocantins. A Fórum, então, buscou familiares de Leonor para falar sobre esse rencontro e as memórias da mulher que enfrentou a ditadura e se refugiou por anos no interior do Tocantins.

A produtora cultural Luciene Anacleto, sobrinha de Leonor, contou que a família realizou diversas buscas entre 1967 e 1980 por todo o estado de Goiás – na época, o Tocantins ainda integrava Goiás – e chegou até mesmo a contratar um detetive particular. Ela acredita que a troca de nomes impossibilitou o reencontro.

Luciene ainda comentou sobre as memórias da tia sobre o período ditatorial. Leonor revendia, em Goiás, roupas enviadas pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo com o objetivo de financiar o movimento.

“Vendendo essas roupas ela chegou a ir até o Araguaia, onde segundo ela, sua maior arma sempre foi a inteligência”, afirmou a sobrinha da guerrilheira centenária.

O esperado retorno da mãe de Luciene, Telezila – irmã mais velha já falecida da guerrilheira – não teria acontecido antes em razão de uma mentira que deixou a filha desolada. “O companheiro que ela convivia desde 1965, havia feito uma pesquisa e disse que sua mãe, Dona Maria, havia falecido em 1967 por tristeza e desgosta pelo sumiço. O que era uma grande mentira, minha avó faleceu no final dos anos 90”, relatou.

“Como uma mentira pode transformar e afetar uma família inteira… Segundo ela, ‘tinha acabado o sentido de voltar'”, disse ainda. Com o esforço das sobrinhas, Leonor agora está de volta Minas Gerais, estado onde nasceu. Está vivendo em Itamogi (MG), há 200 km de sua cidade natal, Andradas (MG).

Confira a entrevista da Fórum com Luciene Anacleto:

Fórum: Como foi receber a notícia de que a Leonor estaria vivendo no Tocantins?

Luciene: Eu sou a sobrinha mais nova da Leonor, quando ela desapareceu eu tinha seis meses de idade. Minha mãe Telezila, é a irmã mais velha dela. Recebi uma ligação da Leila, minha irmã, dando a notícia de que um policial do DEIC de Colinas do Tocantins, o Luiz Costa Jr, tinha entrado em contato perguntando se ela conhecia a Leonor.

Fiquei muito emocionada e comentei que pra Deus tudo é possível! A Leila disse “temos que buscá-la” e perguntou se eu iria e prontamente disse que sim! Só que tínhamos que ter certeza que era ela mesmo e no outro dia liguei para o policial e perguntei se seria possível conversar via vídeo chamada com a Leonor.

Na tarde do dia 07/04 ele atendeu o meu pedido, juntamente com a policial Maria Bethania Valadão, que era a pessoa de confiança da Leonor, pude conversar com ela por aproximadamente 30 minutos, onde confirmei a identidade e soube que se tratava da minha tia desaparecida.

Como foi o reencontro? Você foi na casa em que ela morava no Tocantins, certo?

Depois de 2 dias de viagem e quase 2 mil quilômetros percorridos, chegamos à cidade onde ela se encontrava. Fui até a delegacia encontrar os policiais, que foram extremamente solícitos com a minha causa. Se não fosse por eles, jamais teríamos encontrado minha tia.

Em seguida fomos ao local onde ela residia, de forma extremamente precária. Foi muito triste ver a cena, nenhum ser humano merece viver naquelas condições. Por uma coincidência, era o dia do aniversário dela, completou 100 anos.

Senti que ela, que só me atendeu pela janela por “estar tarde”, estava constrangida devido as condições em que se encontrava. Pela janela, conversamos por mais de 30 minutos. Ela segurava a minha mão todo o tempo.

A família chegou a fazer buscas pela Dona Leonor, certo? O quanto você sabia sobre ela antes do reencontro?

Minha mãe sempre mostrou fotos, e na minha casa tinha um quadro na parede da foto da formatura da minha tia e desde criança eu escutava que ela tinha ido pra Goiânia e nunca mais fez qualquer tipo de contato. Minha mãe sempre acreditou que ela estava viva.

Nossa família chegou a contratar um detetive particular para que rastreasse o paradeiro dela, infelizmente sem sucesso. Isso sem contar nas buscas feitas pela própria família, que foram até Goiânia procurar indícios do seu paradeiro. Essa busca se deu de 1967 a 1980.

Hoje sabemos que foi pela troca de nome que nossas buscas não obtiveram resultado positivo.

Vocês tem conversado sobre o período em que ela lutou contra a ditadura militar?

Tivemos longas conversas sobre o período, até porque sou bem interessada desde sempre por esse período da história nacional.

Ela me contou vários casos, dentre eles, sobre reuniões do partido aqui em SP de quando aconteceu o golpe. Nesse momento ela estava junto ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e relatou que pessoas do partido mandavam roupas pra ela, já em Goiânia, revender e assim ajudar nas causas do partido.

Vendendo essas roupas ela chegou a ir até o Araguaia, onde segundo ela, sua maior arma sempre foi a inteligência.

Tem alguma memória que te marcou em especial?

O que mais me marcou foi quando perguntei o porquê de nunca ter nos procurado.

Ela respondeu que o companheiro que ela convivia desde 1975, havia feito uma pesquisa e disse que sua mãe, Dona Maria, havia falecido em 1967 por tristeza e desgosta pelo sumiço. O que era uma grande mentira, minha avó faleceu no final dos anos 90.

Como uma mentira pode transformar e afetar uma família inteira… Segundo ela, “tinha acabado o sentido de voltar”.


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