Txahá Xohã, liderança Pataxó, fala aos não indígenas na II Marcha das Mulheres Indígenas

Em entrevista à Brigitte Thiérion, de origem francesa, Maria Florguerreira reflete sobre as mulheres, ancestralidade e especificidades no encontro entre duas culturas

Por Brigitte Thiérion, Kessis Soares e Maria Florguerreira*

Com o tema “Mulheres originárias: Reflorestando mentes para a cura da Terra”, as mulheres indígenas realizaram muitas plenárias e encontros culturais, culminando com a Marcha, adiada do dia 07 e realizada no dia 10 em resposta às ameaças de apoiadores do governo que se organizaram para ocupar a Esplanada no dia da Independência do Brasil.

A Segunda Marcha das Mulheres Indígenas aconteceu em Brasília, de 7 a 11 de setembro, com a participação de mais de 6 mil mulheres originárias acampadas no gramado da Funarte (Fundação Nacional de Artes). Foram dias intensos em que a luta das mulheres se uniu à pauta da luta contra o Marco Temporal, foco do acampamento anterior chamado Luta Pela Vida. Mulheres que em sua grande maioria nunca saíram de seus territórios, se deslocaram até Brasília, muitas carregando seus filhos, acompanhadas de seus maridos ou entre suas companheiras. Enfrentaram a destemperança do clima de Brasília e a violência Bolsonarista em prol da luta pelo território e pelos direitos adquiridos na constituição de 1988, direitos que estão na iminência de serem retirados já que o Marco Temporal está em votação no STF (Superior Tribunal Federal).

Para evitar conflitos, a marcha que iria até a Praça dos Três Poderes mudou seu trajeto para a Praça do Compromisso, que contém duas esculturas em homenagem a Galdino, índígena Pataxó Hã-Hã-Hãe que foi à cidade capital tratar de temas relativos à demarcação de terras em 1997 e acabou incendiado em um ponto de ônibus enquanto dormia após ter sido impedido de entrar no local em que se hospedava devido ao limite de horário. Em 2020, Gutemberg Nader de Almeida Júnior, um dos cinco assassinos de Galdino assumiu um cargo comissionado na Polícia Rodoviária Federal (PRF), onde é servidor concursado e foi nomeado para o cargo de chefia da Divisão de Testes, Qualidade e Implantação da PRF.

Apesar do direito ao território estar previsto no artigo 231 da constituição Federal do Brasil, que garante aos indígenas o direito às terras tradicionalmente ocupadas, os territórios estão ameaçados com a tese do Marco Temporal em meio à escalada de violência no campo, avanço da mineração e do agronegócio. A tese defende que só terão direito às suas terras aqueles que comprovarem habitá-las em 1988. Desta forma, todos os indígenas que não conseguirem comprovar que estavam em seus territórios no ano da Constituição serão evacuados, abrindo assim brechas para a especulação imobiliária e a toda espécie de extrativismo. A votação prossegue no Supremo Tribunal Federal com um voto do relator Edson Fachin contra o Marco Temporal e um voto de Nunes Marques a favor da tese.

Abaixo, a entrevista de Maria Flor Guerreira da etnia Pataxó à pesquisadora francesa Brigitte Thiérion.

Brigitte Thiérion: Eu gostaria de conhecer sua trajetória de vida um pouco. O sentido da sua luta também. E em relação às mulheres, o que você pensa?

Maria Florguerreira: Eu sou Maria, Maria Florguerreira. Uma das muitas Marias que foram danificadas por este mundo. Machucada, violentada. Filha de outra Maria, neta de outra Maria e bisneta de outra Maria. Vim da miséria. Mas não porque meu povo era miserável, mas porque nos empobreceram. E da onde eu vim, entregavam as crianças aos caminhoneiros para que elas não morressem de fome. Hoje eu posso dizer que eu venci. Hoje a gente resiste. Hoje eu sou uma história de luta.

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Txahá Xohã, meu nome indígena. Meu nome é Pataxó: Flor Guerreira. Mas já que me negaram a condição de ser registrada como Flor Guerreira, já como nos tiraram o direito de ter nossa língua, eu fui registrada como Maria, Maria Aparecida Costa de Oliveira, mas ainda assim eu sou a Flor Guerreira. Então hoje eu gosto que me chamem de Maria, Maria Florguerreira. Nem tanto “Flor”, nem tanto “Guerreira”, é tudo junto mesmo, porque como disse o nosso amigo Chê, “há de lutar, mas sem perder a ternura”.

Conquistei a Universidade e, juntamente com meus conhecimentos tradicionais, eu transformei em arma de luta a minha palavra, a minha inteligência em conhecimento ancestral. Vem tudo aqui na minha boca, na minha mente, pra transformar em poder, empoderamento das mulheres. Porque diante desse mundo machista, nosso povo indígena também foi contagiado por este machismo, e é contra ele que eu luto. Contra o machismo, a favor do direito das mulheres, a favor da vida, da vida da Terra.

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E quando eu digo do direito das mulheres eu falo da água, falo da terra, falo das plantas, porque elas são mulheres. Eu não entendo como esse mundo machista mata quem lhes alimenta, quem lhes dá a vida, quem lhes protege.

Diante disso eu não posso me calar. Eu agora, aos meus 56 anos, eu tenho pressa de escrever esta história. Tenho pressa de modificar esta história com meu punho, com o punho dos meus companheiros e das minhas companheiras. Porque eu sou feminista sim, mas eu não estou aqui separando, dividindo. Porque as pessoas não sabem, mas feminismo é pelo bem de todo mundo. Pelo bem deles, delas, de nós. Porque nós temos que estar juntos, do contraŕio a gente não vai sobreviver. E agora, nessa luta pelo Marco Temporal, a gente só tem uma saída, que é vencer.

Brigitte Thiérion: Você nos fala de uma história de resiliência, de mediação entre duas culturas também, e de procura de um diálogo melhor. Fale sobre isso.

Maria Florguerreira: Quando foi dada a condição da gente escolher as armas, nós indígenas escolhemos os biodegradáveis, o arco e a flecha, que ele faz um movimento cirúrgico, somente naquilo que a gente precisa, sem destruir o entorno. Já o povo não indígena, escolheu a pólvora, escolheu a bala, escolheu a caneta … Mas hoje nós sabemos que não dá mais pra gente lutar só com o arco e com a flecha, a gente também tem que pegar na caneta. A gente também tem que ter a linguagem coloquial, mas também a linguagem acadêmica.

Então a gente precisa dominar todas essas ferramentas, e dialogar com indígenas e não indígenas, com pessoas latino americanas, brasileiras, estrangeiras, europeias … Principalmente os europeus. Se hoje o Brasil está assim, vocês têm responsabilidade. Não estou dizendo que a gente tem raiva de vocês, porque a gente não tem. Mas vocês levaram a nossa madeira, o nosso ouro, os nossos povos indígenas pra ficar em exposição dentro de uma grade em praça pública, pra vocês saberem como é que era a gente, e achavam que a gente era bicho, mas a gente é gente. Gente tanto boa, tanto melhor como vocês. Iguais. Com defeitos, com qualidades, com desejos, com dores… Mas com muitos sonhos. Mais sonhos do que vocês. Sonho de manter a terra viva ao invés de ter o Pau Brasil transformado em mesa. Ao invés de ter todas as nossas belezas dentro do Louvre ou dentro de outros museus pelo mundo afora.

Eu falo aqui não é com ressentimento, mas é com compaixão, é com amor. Porque a gente não pode ter ressentimento, porque hoje vocês são descendentes de pessoas que tinham outro modo de enxergar a vida. Hoje eu estou querendo que vocês enxergam o nosso modo, porque ou vocês enxergam o nosso modo, ou a gente não vai ter saída … A gente está nessa peleja é por todos nós.

A gente acha os franceses lindos! A gente ficou com esse conceito de vira lata, complexo de vira lata de achar que só o exógeno é que é o bonito. Mas hoje a gente já se empoderou, hoje a gente sabe que a nossa história é linda e que a nossa capacidade de criatividade e de inventar as coisas, e de fazer, e de resistir é muito mais forte do que de qualquer outro povo. As mulheres originárias elas conseguem escrever livros, fazer filmes, fazer comida, catar lenha, fazer fotografia, inventar copo de plástico e sabe combinar cores … e sabe amar … Então é preciso que a gente esteja junto.

A gente quer contagiar vocês. A gente quer engravidar vocês. A gente precisa estar no coletivo. Porque vocês têm essa mania de esquartejar! Vocês separam tudo violentamente, daí que eu digo esquartejar. Esquartejam corpos. Quando vão estudar estudam cabeça, coração, útero, perna, dedo. Otorrinolaringologista. Mas a gente não é um pedaço, a gente é um complexo de elementos que tá na terra, que tá no ar, que tá nas plantas, que tá na espiritualidade. Então a gente não pode ser repartido. Nem corpo, nem pessoas. A gente não pode ficar esquartejado. Chega dessa violência! A gente precisa estar junto. É disso que eu falo: dessa união. União com os bichos, com a água, com a terra, com o ar, com as plantas, com as pessoas. Daí vai dar centro.

Brigitte Thiérion: Tem todo um programa que coloca a espiritualidade de certa forma no primeiro plano, e eu gostaria de falar justamente disso. Em que medida essa espiritualidade transforma as pessoas, como é que você vive a sua espiritualidade?

Maria Florguerreira: Eu não vivo a espiritualidade, ela que vive em mim. Cada palavra que eu falo, não é que eu sei, é que a energia do universo vem. Cada passo de dança que eu dou, não sou eu que danço, é a energia que vem dos ancestrais. Nós indígenas, nós não precisamos ensaiar pra dançar. A gente não precisa ficar imaginando.

“Imagina a água!” Uma professora de dança faz assim: “Imagina a água, imagine que você está pisando com o pé no chão, que está pisando na grama”. A gente não imagina. A gente pisa. A gente não se desconecta, independente da onde a gente for, a terra tá debaixo da unha. Essa espiritualidade vem junto. O respeito.

A gente corta uma árvore pra fazer uma gamela? Corta. Mas a gente sabe qual cortar: um pedaço. Não é extirpar. É tirar o pedaço que precisa ser tirado e cuidar da outra. E pedir licença. A gente não pode sair simplesmente devastando tudo. Isso sim, isso faz parte da espiritualidade.

A gente não foi em nenhuma academia pra saber como cuidar das plantas, como cuidar da floresta, como cuidar dos nossos corpos, mas a gente sabe. E hoje a academia foi lá na nossa terra, pegou nossos conhecimentos, botou na caixinha e ainda tem a cara de pau de vir vender pra gente. Tem …

Chega e fala: “olha aqui, elixir de abóbora com matruz é bom pra curar verme”. A gente tá cansado de saber como é que cura verme, e se bobear a gente ainda cai nisso, cai nessa armadilha de tomar esse remédio. É uma forma de nos destruir. Porque aí a gente acha que é mais fácil, pegar da caixinha, pegar o chazinho no “chasse”, chá … Como é que fala? Chá …. Chá que vem nos pacotinhos? Sachê! Sachê! Daí vem no sachezinho, daí a gente amarra a cordinha, né? Coloca no canequinho, né? Sendo que a gente tem a folha natural. Vai ficar tomando chá com papel, que sei lá de onde que veio?

Não é só o povo indígena, é todo mundo. Precisa dar um passo atrás. Rever isso, ter a sua erva dentro do seu apartamento, dentro da sua casa, no caixote, plantar em praça pública. Não tem essa desculpa de dizer que, “ah eu moro em apartamento, não dá pra ter”. Dá pra ter sim! É tanta porqueira que você coloca lá dentro! Um monte de negócio de grife, esmalte, e não cabe uma planta? Se em seu mundo não cabe uma planta, então você não tá cabendo no mundo. Porque o mundo tem que ter planta. Tem que ter água, tem que ter erva medicinal. Isso é o sagrado. Isso é ancestralidade. Isso é um pedaço, um pouquinho da ancestralidade.

Brigitte Thiérion: Nós estamos aqui no acampamento, na Marcha das Mulheres, na Segunda Marcha das Mulheres Indígenas. Eu gostaria de saber se as mulheres têm algo de singular ou de particular a trazer no modo de se comportar em relação ao mundo, mas também nas relações cotidianas, na gestão do cotidiano dentro das comunidades e depois fora também.

Maria Florguerreira: As mulheres, as mulheres indígenas, elas fazem tudo. Elas trabalham com o marido na roça, mas o marido dela também trabalha em casa com ela. A mulher indígena participa de tudo, e os maridos também. A gente tá junto. A gente pode ser feminista, mas a gente não é separado. A gente não é sozinha. Os nossos filhos são cuidados por todas as mulheres. Os filhos de uma, são filhos de todas. E se acontecer da gente terminar o casamento, a gente não fica brigando pra saber quem vai ficar com os filhos, todos continuam na responsabilidade. A criança não perde a avó, o avô, o tio… Não para de se relacionar com os outros. Ao contrário de vocês. Vocês ficam brigando na justiça, quem vai dar pensão, quem não vai dar, como se já não tivesse mais afeto pela criança. Só pensa no dinheiro, o tempo inteiro no dinheiro! Desculpa, eu não tô querendo ser agressiva, mas o amor indígena é um amor que não separa, mesmo que o casamento acabe. Enquanto que o povo não indígena quer saber só de receber pensão, quer se isentar da obrigação que tem com o filho. Nós indígenas, a gente não considera que tem obrigação. A gente considera que tem amor.

E as nossas mulheres, principalmente hoje, é um pé na aldeia, um pé no mundo. É vigiando o peixe, vigiando a brasa, amamentando, carregando mandioca nas costas. Ou que não for mandioca, que for sorvete, porque a gente toma sorvete. Para de ficar imaginando que a gente é do tempo dos livros que escreviam sobre nós. “Iracema dos lábios de mel”. Não! A gente tem mão grossa sim, a gente tá na academia, mas a gente tá plantando. A gente tem calo, tem calcanhar rachado, tem panturrilha grande, porque a gente faz. A gente faz tudo junto. Essa é a diferença.

Eu vejo que as meninas dos fazendeiros de antigamente, as filhas dos ricos, elas pararam, elas romperam com as tarefas domésticas. Nem precisa ser tão rico, classe média. Não fazem mais um arroz, não sabe fazer um feijão, não sabe fritar um ovo. “A minha filha não faz nada porque ela estuda”. Nós indígenas conseguem fazer tudo junto, e ainda chama a gente de preguiçosa! Preguiçoso é que não consegue lavar sua trouxa de roupa, que não consegue fazer seu arroz, que não consegue amamentar seu filho, que tem que chamar a mulher negra, uma mulher indígena pra ir amamentar os filhos. A gente tem que conseguir sim.

Tá, sobrecarrega a gente? Sobrecarrega. Mas aí a gente delega tarefas pros outros filhos, pros afilhados, pros maridos, pros cunhados, pras irmãs, pras avós, pras bisavós, porque a gente tem bisavó cedo, porque a gente tem um tanto de filho, porque o nosso povo que foi destruído, assassinado, genocídio, etnocídio, a gente não vai deixar assim. A gente vai se levantar. A gente tá repovoando o planeta de ideias e de filhos.

E na hora que vai pra universidade leva a criança sim. Leva a criança no braço, leva a criança na barriga e se não for na barriga nem no braço, leva no pensamento e no coração. Porque criança não pode ficar separado. Porque que criança tem que ficar separado? Aprisionado nas escolas? Depósito de meninos. Menino tem que andar com a gente pra aprender com a gente, porque se não, não aprende. Agora, tadinho dos menino que só vão tá aprendendo aí a separar, a separar a separar… A gente tem que juntar, juntar, juntar, todo mundo. Assim que vai dar certo.

Brigitte Thiérion: Agora muitas mulheres se formam na universidade, também muitos homens para justamente enfrentar o exterior e as relações, e criar novas relações. Qual é segundo você a dificuldade que elas têm nessa relação entre aldeia, cidade, nesse trânsito entre os dois universos?

Maria Florguerreira: Nossa, estar na cidade e estar na aldeia é um estranhamento horrível! Porque dentro do território, isso pra quem tem território, a gente tem as nossas práticas, a gente come nossa comidinha, o nosso temperinho, feita em casa. Vocês diriam que é “slow food”. E chega na cidade a gente engorda 20, 30 quilos comendo “fast food”. A gente não tem acesso a um chá.

A gente quer mesmo é que dentro da universidade, que a universidade dê condições da gente fazer o nosso chá na universidade, da gente amamentar as nossas crianças, da gente ter dentro da cidade da universidade espaços que a gente possa usar conforme as nossas culturas. Usar e socializar.

Então, a universidade no Brasil nos últimos 20 anos ela se modificou muito. O acesso à universidade que nós indígenas tivemos ainda não é o que a gente quer, mas é o que tem. Então tem que ficar colocado dentro da universidade espaço indígena, assim como tem os das, os cas, tem que ter espaço indígena com fogão apropriado pra gente. Não precisa ser um fogão de lenha, mas poderia ser um fogão solar, porque já que a gente precisa de refazer as coisas, de reaprender, a gente não tá exigindo só que os brancos reaprendam, nós também temos coisas pra avançar, porque são novas tecnologias que a gente precisa descobrir que não poluam, que seja possível da gente construir um bem viver.

Brigitte Thiérion: Esse bem viver justamente é uma meta na qual vários filósofos indígenas hoje estão pensando, estão escrevendo sobre isso. Segundo você, qual seria a direção que permitiria encontrar justamente esse bem viver? Como é que você consegue esse bem viver?

Maria Florguerreira: Aconteceu o seguinte: o mundo era todo cheio de florestas. Daí veio o branco e achou que sabia fazer as coisas. Se pudesse teria mudado a jabuticaba para o pé de abóbora e a abóbora para o pé de jabuticaba. Porque acreditando que sabe fazer as coisas, decidiu desmatar tudo. Comeu seu bolo inteiro. Comeu a sua mata toda. E agora quer ir pra dentro do nosso território indígena, que a gente nem tem demarcado, nem homologado, viver com a gente. Tá com inveja da gente.

“Ah, eu quero viver na aldeia. Será que eu posso passar um tempo lá?” Vai pra lá pra que? Pra estragar o espaço que a gente tem? E as nossas crianças que vão nascer, vão morar onde? Vão lá pra dentro da aldeia com seus costumes e daí a gente que gosta de receber tão bem, a gente vai comprar uma cerveja pra vocês e parar de tomar a nossa bebida sagrada? Então, a gente precisa sim esse decolonizar, daí que a gente vai conseguir esse bem viver. A gente deixar esses costumes europeus, a gente começar a cultivar as nossas terras, não só no nosso território, mas nas nossas praças.

Quem não tem seu território, essas pessoas que estão vendendo sorvete, que estão aí trabalhando de camelô, elas são resultado dessa desterritorialização. Então é preciso que essas pessoas tenham o seu espaço. Não é dentro da nossa aldeia, mas é fazer outros modos. Aldeia é um jeito que inventaram, é um nome que também é europeu. As pessoas acham que viver na aldeia é uma coisa que a gente sempre … Naturalizaram a palavra … Que a gente sempre viveu na aldeia. Não, a gente vivia nesta terra Pindorama, nessa terra Brasil, nesse espaço geográfico todo, e em tantos outros, mas aí nos colocaram em guetos.

E esse bem viver que eu digo hoje é a gente conseguir alimentar as nossas crianças, ter segurança alimentar para indígena e não indígena. Se tem que plantar soja, é plantar sem veneno. É fazer biofertilizante, é fazer compostagem orgânica, é dar condição do outro não ficar com inveja de você, e não ficar com inveja é a melhor coisa para o outro. Não ficar com inveja é ele ter igual a você. Ter a condição. Condição de respirar, condição de se cuidar, de se alimentar, principalmente, condição de amar. Porque quando a gente tem amor, a gente não tem inveja, a gente torce pelo outro, pela outra e pelo outre. Isso é bem viver.

Maria Florguerreira em Brasília (Foto: Kessis Sena)

*Brigitte Thiérion é Professora adjunta da Université Sorbonne Nouvelle-Paris 3 (France) e membro do CREPAL (Centre de Recherche sur les Pays Lusophones. – EA 3421). Ensina literatura e civilização brasileiras, nos níveis de graduação e pós-graduação. Ela ensina a literatura indígena brasileira a nível de pós-graduação e ultimamente pesquisa sobre o empoderamento das mulheres indígenas no Brasil.

Kessis Soares é estudante de História pela Universidade de São Paulo, documentarista, fotógrafo e midiativista.

Maria Florguerreira é Pataxó, professora formada pela Universidade Federal de Minas Gerais em licenciatura plena em Ciências Sociais e Humanidades, especialista em gênero e diversidade e palestrante pelas causas indígenas e pelo bem viver.

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