Raphael Silva Fagundes

02 de janeiro de 2019, 12h27

Muito além de tolos consumidores: como “usar” a cultura pop

Que assistamos filmes inspirados em quadrinhos! Que joguemos videogame até altas horas da madrugada! Que passemos horas no Facebook e no Whatsapp! Mas sem que nos tornemos idiotas (o que quer a grande indústria) para isso.

“As pessoas já não acreditam nos fatos”, disse Chomsky. Isso nos faz refletir em como a esquerda precisa agir para difundir e formar indivíduos conscientes do socialismo.

Não adianta divulgar a farsa do motorista de Flávio Bolsonaro ou descobrir que o episódio da facada no mito foi tudo uma armação. As pessoas não acreditam mais nos fatos. É preciso educar.

Não é falando sobre Marx ou criticando o capitalismo que as pessoas serão atraídas ou convencidas a defender um mundo mais justo, com uma equidade econômica etc.

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As esquerdas, e parte de seus intelectuais, estão preocupados em criticar a sociedade de consumo, buscando “libertar” as pessoas das garras do fetichismo da mercadoria, chamando esta de alienação etc. Contudo, estou convencido de que isso não dá muito certo.

Prefiro “educacionalizar” os objetos de consumo, a cultura de massa, a propor a alguém que não consuma o que é diariamente induzido a consumir. Precisamos pensar em fazer novos usos desses objetos, mídias, enfim, signos, consumidos por todos e não dizer que certo produto é para gente burra e outro útil para emancipação intelectual. Tudo pode ser usado para emancipar o ser humano.

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É certo que o mercado (da indústria cultural principalmente) manipula as “maneiras de empregar os produtos impostos por uma ordem econômica dominante” para que assim reproduzamos a mesma lógica inúmeras vezes. Mas acredito que educar para o socialismo é educar as maneiras de usar os objetos que consumimos. Michel de Certeau chamaria de “maneiras de fazer” que “constituem as mil práticas pelas quais os usuários se reapropriam do espaço organizado pelas técnicas da produção sócio-cultural”. Ou seja, precisamos produzir discurso, não trazer à tona os fatos. As pessoas não consomem fatos, elas consomem discursos, os signos que constituem a mercadoria.

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Vivemos em um mundo, como destaca Jean Baudrillard, onde estamos mais rodeados de objetos que de outros seres humanos. Está na hora da esquerda pensar nas maneiras de se relacionar com esses objetos. Digo isto sem acreditar na forma tradicional de crítica na qual se rejeita veementemente o consumismo, mas através da formulação de um novo discurso que busque apropriá-los.

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Para o historiador Daniel Roche, o consumo já era uma realidade desde antes da Revolução Industrial. Consistia em “uma maneira de se definir e de se comportar”. As transformações nas sensibilidades contribuem para modificar as formas de usar as coisas, de modo que os indivíduos possam “se construir de outra forma e reajustar sua relação com a coletividade”.

Um filme de herói pode ser algo bem mais do que um mero entretenimento alienante. Uma animação hollywoodiana pode ser muito mais que algo para distrair crianças e arrancar risadas dos adultos. Um jogo de videogame pode estar transmitindo inúmeras mensagens e significados filosóficos e sociais, não sendo apenas um brinquedo para adolescentes.

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Precisamos apropriar as coisas e não rejeitá-las. Precisamos construir uma interpretação criativa dos produtos que consumimos, pois eles compõem a nossa realidade. Portanto, deixar de consumir tais objetos é deixar de entrar em contato com a própria realidade. Seria a alienação absoluta.

É a interpretação em relação ao objeto que aliena, não o objeto em si. Ao tirarmos a interpretação, por exemplo, que os jornalistas, a propaganda e comentaristas da grande imprensa dão a um filme blockbuster, interpretação que serve na maior parte dos casos para promover a venda do produto, e fizermos uma leitura social, política ou filosófica, podemos abrir a cabeça do consumidor, não para que ele deixe de consumir, mas que faça algo criativo e transformador a partir do que consome. O nosso objetivo seria libertar o consumidor da condição passiva, de tolo.

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Que assistamos filmes inspirados em quadrinhos! Que joguemos videogame até altas horas da madrugada! Que passemos horas no Facebook e no Whatsapp! Mas sem que nos tornemos idiotas (o que quer a grande indústria) para isso.

As redes sociais seriam o caminho mais interessante para disseminar essas interpretações, essa “outra forma de consumir o produto”. É adequando o discurso marxista a linguagem que emana dos produtos consumidos intensamente pela cultura de massa, que podemos tornar a política interessante, que podemos tornar a cidadania interessante.

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