quarta-feira, 30 set 2020
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Após gravidez de criança estuprada pelo tio, mulheres compartilham abusos que sofreram na infância

Yasmin* tinha entre quatro e cinco anos quando foi abusada sexualmente pela primeira vez dentro de casa. O pai entrou no quarto da menina enquanto ela dormia, arrancou suas roupas e a masturbou. “Acabei ficando nua na cama e dormi assim. Quando minha mãe me acordou e me viu sem roupa, brigou comigo”, conta. “Quando eu falei que tinha sido o ‘pai’, quase apanhei e ela me disse que era pecado mentir, que Deus ficaria triste comigo”.

Para evitar testemunhas, o pai de Yasmin esperava a esposa sair para trabalhar, por volta das 4 da manhã, para ir até o quarto da filha. “Eu acendia uma vela e lia livros enquanto ele se saciava, porque ele fedia a alho e cachaça”, relata. “Foi assim até eu começar a menstruar, com 12 anos. Lembro das ameaças, de surras. Ele dizia que mataria minha mãe e meu irmão se eu contasse”, continua.

O caso da menina do Espírito Santo abusada sexualmente pelo próprio tio desde os seis anos, e que culminou em um aborto aos dez, está longe de ser um caso isolado. Segundo dados de 2018 do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 76% dos casos de estupro de vulnerável, o agressor é um parente ou amigo próximo à família da vítima e o abuso acontece em ambiente familiar.

A psicopedagoga Pâmela Tezzele, doutora em Educação pela PUC-SP, explica que, nos casos dos abusos que acontecem dentro de casa, há um vínculo de confiança com o abusador – por parte da criança e dos seus responsáveis – e uma facilidade de acesso à criança. “A criança fica refém de uma situação, muitas vezes sem as ferramentas necessárias para entender a gravidade  da mesma ou sem saber a quem recorrer”, afirma.

A história da menina que engravidou– e todas as violências que permeia sua trajetória até o aborto legal – sensibilizou milhares de homens e mulheres nas redes sociais, levando muitos a compartilharem vivências semelhantes de abuso e violência na infância. A maioria delas ocorria dentro de casa.

Flora* lembra de ter sido exposta pela primeira vez a uma situação abusiva com o padrasto aos oito anos. Ela estava brincando de boneca com a mãe – na época grávida de gêmeos – quando o homem anunciou que ia tomar banho. Eles mantinham boa relação até este dia, algo que nunca mais foi o mesmo depois que ele resolveu aparecer pelado na frente dela, em um momento em que Flora estava sozinha, enquanto ria e segurava o próprio pênis.

Depois deste episódio, Flora diz que tudo piorou. Ele a assistia tomar banho, passava a mão em seu corpo e a aterrorizava psicologicamente. Ainda criança, ela tentou denunciar os abusos que sofria à mãe e à irmã. Escreveu uma carta e deixou na sala, aguardando para que uma das duas lesse e a libertasse do medo constante de estar sozinha em casa com o seu abusador. Os parentes de Flora, no entanto, não acreditaram no relato da menina.

“Nunca mais falei nada, porque minha mãe me ignorou, mas [o abuso] continuou. Ele sempre esperava eu estar sozinha em casa. Então, eu comecei a evitar estar em casa, ou evitava estar sozinha, levava amigas para casa na hora do almoço – e foi aí que ele começou a me tratar muito mal”, conta.

Um ponto em comum que permeia as histórias de abuso na infância é o descrédito da família. Em muitos casos, os parentes até encobertam o abusador. No caso de Íris*, que foi molestada pelo tio aos 10 anos enquanto brincava na piscina, os parentes a baniram de eventos familiares para, segundo ela, “evitar constrangimentos”.

“Hoje em dia, faço terapia e consegui entender que devido a esse abuso, desenvolvi vários traumas e tenho problemas pra lidar com situações onde a autoridade seja um homem. Por anos me senti culpada e achava que tinha feito alguma coisa que tivesse provocado o abuso”, conta.

Para Pâmela, um dos fatores que explica esse descrédito da família é a construção sociocultural de cerceamento das vozes infantis, que acaba por instituir uma relação desigual de poder entre adultos e crianças. O segundo fator, afirma, são os tabus sociais e o machismo estrutural que permeia a vida das mulheres.

“É socialmente construído que o corpo da mulher é a ‘tentação’, que a roupa que ela usa é o ‘motivo’ e que coisas assim acontecem porque ela é mulher e ‘permissiva’”, afirma.

Assim como Íris, as demais vítimas ouvidas pela reportagem também relatam consequências psicológicas do abuso. Yasmin, por exemplo, desenvolveu ansiedade, depressão, crise de pânico e transtorno alimentar. “Achava que todos os homens só queriam transar comigo, não tinha confiança nenhuma em mim, não consegui estudar e nem fazer faculdade, só quero ficar dentro de casa”, conta.

A história da menina do Espírito Santo foi como um gatilho para que Yasmin voltasse a acessar as lembranças dos abusos que sofreu. “Essa semana foi terrível pra mim, revivi todas as minhas dores, foi como ser abusada novamente”.

Castração Química

Em reação ao caso da criança que engravidou do tio, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, apresentou um projeto de lei na segunda-feira (17) que propõe a castração química voluntária de estupradores. A submissão ao procedimento seria um caminho para a progressão da pena, segundo o projeto.

Para Pâmela, o PL apresenta questões controversas, já que o abuso e o estupro não ocorrem necessariamente através da penetração. “Acredito que a motivação não esteja apenas ligada ao desejo sexual, tão pouco que a não  ereção impeça outros atos que busquem satisfazer de outras formas o desejo patológico do estuprador”, afirma.

Nas redes sociais, uma das mulheres que compartilhou os abusos que sofreu na infância também se posicionou contra o projeto e opinou sobre as reais motivações que estariam por trás do estupro.

“Eu comecei a ser abusada sexualmente quando tinha sete anos e durou até os 10 anos. O meu abusador não usava o pênis dele para me estuprar. Ele fazia sexo oral em mim, e me masturbava com os dedos. Não é sobre o ‘pau’, é sobre poder”, afirma Eduarda, relato que foi compartilhado por quase 30 mil pessoas no Twitter.

“É sobre acreditar que você pode abusar de uma mulher, é sobre crescer sendo educado em uma cultura que aceita isso”, finaliza.

*Os nomes foram alterados para proteger as fontes.

Luisa Fragão
Luisa Fragão
Jornalista.