Cineasta lança rede latino-americana contra assédio e abuso no meio artístico

ONG Respeito em Cena tem como embaixadora a cantora Mariene de Castro e reúne artistas de 12 países

No mês internacional de luta das mulheres, a diretora brasileira de documentários Luciana Sérvulo da Cunha, ao lado de um grupo de artistas de cinema, teatro, dança, música e televisão, lançou uma rede em 12 países da América Latina para fazer campanha contra o assédio, abuso e outras formas de violência psicológica no meio artístico.

A Respeito em Cena reúne artistas vindos do Uruguai, México, Costa Rica, Panamá, Nicarágua, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Brasil, Chile e Argentina. O projeto tem como embaixadora a cantora Mariene de Castro e conta com a colaboração de diversos outros profissionais, como psicólogas, diretores de cena, coreógrafos, professores, cineastas, produtores, críticos de arte, médicas, sociólogos e outros profissionais.

“A violência psicológica no meio artístico, assim como em outras áreas e relações humanas, ocorre de maneira disfarçada e insidiosa. Ela é uma inimiga invisível, não deixa marcas físicas e portanto, é muito difícil de ser reconhecida, combatida e punida”, explica Luciana, em entrevista à Fórum.

“De maneira muito sutil e geralmente imperceptível, um(a) abusador(a) inverte valores, distorce acontecimentos, vai minando o terreno. E vai aos poucos invalidando nossos sentimentos de maneira a influenciar e persuadir o conceito, a visão e a própria experiência que temos de quem somos”, completou.

Um dos objetivos da nova rede é criar um espaço seguro e de acolhimento para que mulheres consigam falar sobre violência psicológica e receber ajuda. Para tal, o projeto conta com a parceria de outros movimentos sociais que disponibilizam assistência psicológica e de formalização de denúncias, como é o caso do Tamo Juntas!, Me Too Brasil, Projeto Justiceiras e o Instituto Dona de Si.

Luciana, que também vivenciou a violência psicológica no ambiente de trabalho, afirma que é comum abusos acontecerem no meio artístico por pessoas que estão em postos de poder, como diretores, produtores e preparadores de elenco.

“Quando uma atriz entra em uma sala de ensaio, no estúdio ou em um set de filmagem, ela está de peito, mente e coração abertos para se entregar ao processo de criação de um novo personagem e de uma história. Contração, apego e rigidez são antônimos a esse processo. É preciso se despir de referências e interferências”, relata.

“É durante esse processo que uma atriz adentra um estado de vulnerabilidade e onde infelizmente temos visto abusos e assédios serem cometidos”, completa a cineasta.

Luciana destaca, no entanto, que é possível romper com o ciclo de abuso. Ela explica que sair do isolamento e pedir ajuda são atitudes essenciais para quem sofre esse tipo de violência.

“Hoje em dia temos vários canais de ajuda, entidades, organizações e redes compostas por mulheres maravilhosas, advogadas, assistentes sociais, psicólogas e voluntárias de diversas profissões. O Respeito em Cena é uma dessas organizações. Saiba que existem saídas”, incentiva a cineasta.

Ações

A Respeito em Cena planeja diversas atividades ao longo do mês de março para impulsionar o debate sobre violência psicológica no meio artístico. No dia 31 de março, será realizado o primeiro webinário da ONG sobre o tema.

A organização também lançará vídeos da série “Não é Ficção” com a temática do abuso emocional e o assédio moral vividos por artistas latinas. O primeiro vídeo já está no ar na página da Respeito em Cena.

Além disso, a ONG planeja realizar capacitações, oficinas e cursos de formação sobre a violência psicológica e o seu combate em empresas privadas e produtoras, assim como para artistas, coordenadores e professores.

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Luisa Fragão

Jornalista.

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