Danda Bárbara: do perigo de morar nas ruas ao curso de Letras na Uerj

A história de Dayana Bárbara dos Santos Coqueiro impressiona pelas reviravoltas e pelo poder de superar as adversidades impostas pela vida

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Um longa-metragem talvez não fosse suficiente para contar a história de vida de Dayana Bárbara dos Santos Coqueiro. Uma série com vários episódios e temporadas seria mais indicado. Afinal, de Coroatá, no interior do Maranhão, até o bairro portuário do Santo Cristo, no Rio de Janeiro, onde vive atualmente, foram muitas experiências e dificuldades.

Danda Bárbara, como é conhecida, tem 36 anos e morou nas ruas de Brasília dos 8 aos 21, por “problemas de violação de direitos dentro da minha casa”, conforme define.

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Chegou a percorrer um caminho quase sem volta: “Demorei a entrar nas drogas, estava com quase 18 anos, mas comecei a trabalhar com o tráfico pesado, para pessoas importantes”, relata.

A gravidez, quando tinha entre 20 e 21 anos, representou sua redenção. Largou essa vida e passou a dedicar toda atenção a Arthur, hoje com 14 anos.

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Mudou-se de Brasília para o Rio de Janeiro em busca de um sonho, que está mais perto de se concretizar. Apesar de viver com dificuldades, trabalhando de ambulante vendendo queijo nas praias cariocas (Arhur ajuda vendendo biscoitos), Danda está prestes a dar o que talvez seja o maior salto de sua vida atribulada: ela passou no vestibular e vai cursar Letras na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

Ela, inclusive, está em busca de ajuda financeira para conseguir comprar um computador, o que facilitará seus estudos (quem quiser ajudar pode entrar nas redes sociais dela e ver como proceder).

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Versátil, além de ambulante, ela já atuou como atriz, percussionista, rapper, compositora e trabalhou no circo, ao longo de sua trajetória.

Essas incursões pelas artes fizeram com que, no final de 2021, Danda recebesse o Prêmio Mulher Negra do ano, promovido pela Secretaria de Cultura de Brasília.

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Danda Bárbara conta à Fórum apenas um pouco de sua história e revela que vive o atual momento com muita expectativa: “O que não tive na primeira infância e na adolescência, vou ter na idade adulta”.

Fórum: Sua vida é repleta de reviravoltas. Conta um pouco de sua trajetória. Por que teve de viver na rua durante mais de uma década (dos 8 aos 21 anos)?
Dayana Bárbara dos Santos Coqueiro (Danda):
Eu fui morar nas ruas aos 8 anos de idade, por problemas de violação de direitos dentro da minha casa e essas coisas me incomodavam bastante. Não tinha auxílio nenhum familiar. Minha família é do interior do interior do Maranhão. Nasci num local que tem menos de 20 mil habitantes e não tenho nenhuma afinidade com meus parentes. Eu morava com meu pai e a esposa dele e sofria todos os tipos de violação de direitos. Em conversa com algumas pessoas que moravam na rua, resolvi ir atrás da liberdade, que eu achava que era bom para mim, e me joguei na rua. Comecei a escrever minha história para não ser mais coadjuvante. Virei atriz principal de uma história que todo mundo escrevia. Fiquei até 21 anos. De 20 para 21, engravidei. Na época, eu estava no estágio final, digna de dó. Me joguei no crime, nas drogas. Demorei a entrar nas drogas, estava com quase 18 anos, mas comecei a trabalhar com o tráfico pesado, para pessoas importantes. Com isso, estava tendo uma renda bem boa. Foi quando me afundei no crack e vi que a única solução que eu tinha era ter uma raiz, o que achava difícil, porque nunca me entendi como pertencente a minha família. Foi quando comecei a me envolver com o pai do meu filho. Sempre tive relacionamentos homoafetivos e foi um processo bem custoso conseguir me envolver com um homem. Mas em função de ter esse filho, desfiz todo pensamento ruim a respeito de homens. Saí das ruas, consegui um trabalho. Nesse tempo que fiquei na rua, sempre estudei na Escola Meninos e Meninas do Parque, especializada em pessoas em situação de rua. Cheguei lá aos 14 anos e saí com 21. Terminei o ensino fundamental lá e o ensino médio fiz uma parte em escola pública e o último ano fiz em escola privada.

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Fórum: Muitas pessoas não conseguem sair da rua. Como encontrou forças para dar um novo rumo à sua vida e se mudar para o Rio de Janeiro?
Danda:
Consegui sair das ruas por conta do meu filho. Eu já tinha saído da rua, mas fui fazer um trabalho de vigiar carro e acabei perdendo meu filho para o Conselho Tutelar, que na época era Vara da Infância. Ele ficou um ano em um abrigo. Fui atrás e pensei: ‘Não vou perder meu filho, lutei tanto para ter ele’. Fui na Vara da Infância, mostrei que estava longe das drogas e merecia ter meu filho de volta. No final de um ano, consegui. Em julho do ano passado viemos morar no Rio, por conta de uma promessa de trabalho que eu tive para ser treinadora de um time, porque uma grande paixão minha é o futebol. Mas foi tudo mentira. Os caras não me pagaram, eu fiquei nesse espaço por três meses. Meu filho também joga futebol e pensei vamos ficar por aqui mesmo e consegui que ele entrasse em um time de várzea, mas que tem uma estrutura massa. Ele fica lá durante a semana e nos finais de semana ele passa comigo. Acionei algumas pessoas que podiam me ajudar, com internet para eu estudar, pagar aluguel, essas coisas. Não é fácil. Tem dia que eu chego em casa com menos de R$ 100 das minhas vendas. Meu filho me ajuda, porque tem que comprar chuteira, luva, várias outras coisas. Continuo em busca do sonho dele, que é meu também, de ver ele num time de futebol. Faço tudo por ele.

Fórum: É verdade que, além de vendedora ambulante, você é atriz, percussionista, rapper, compositora e trabalhou no circo?
Danda:
Desenvolvi, em Brasília, alguns trabalhos dentro da área da cultura, da arte. Às vezes, me colocam em espaços de rima e acabo ganhando prêmios. Além disso, em novembro de 2021, recebi, em Brasília, o Prêmio Mulher Negra, também fui premiada como melhor atriz, junto com o elenco feminino, pelo curta-metragem “Presas que menstruam”, baseado no livro de Nana Queiroz, participei de um documentário que teve como inspiração a vida da feminista Nísia Floresta. Na verdade, eu sempre caio de paraquedas nas questões da arte. Quando eu tento fugir dela, ela sempre me abraça de alguma forma e acaba me salvando de alguma forma, também.

Fórum: De onde surgiu o gosto pela escrita? Quais são seus autores preferidos?
Danda:
O gosto pela escrita surgiu para colocar no papel minha trajetória, minhas ideias e vivências. Minha inspiração de escritora hoje é a Djamila Ribeiro. A Bell Hooks também. Leio Cecília (Meireles), gosto de Cora (Coralina) e Machado (de Assis). Apesar do gosto pela literatura, Letras era minha terceira opção de curso na faculdade. A primeira era Educação Física e a segunda, Serviço Social.

Fórum: Você tem um filho, o Arthur. O que mudou em sua vida depois que ele nasceu?
Danda:
O Arthur está com 14 anos. Ele é o ar que eu respiro. Sem esse menino, acho que não estaria viva e minha história não estaria sendo vista por várias pessoas. Quando descobri que estava grávida foi uma sensação muito doida, porque eu queria estar grávida, mas, ao mesmo tempo, ainda estava no meio da rua. Comecei a processar como eu ia fazer para criar essa criança na rua. Foi quando eu comecei a trabalhar a possibilidade de ir embora, de sair da rua, porque eu não queria que ele tivesse a mesma vivência que eu. Eduquei ele, com ele sabendo de toda minha vida. Nunca escondi nada. Sempre mostrei o que o mundo tem a oferecer. Se você escolher esse lado do mundo, tem que estar sabendo que as coisas vão vir dessa forma. Até para ser traficante você tem que estudar. Eu não protejo ele das coisas, mas eu faço com que a dor maior venha para mim.

Fórum: Qual a importância para você ter sido escolhida para receber o Prêmio Mulher Negra do ano?
Danda:
Quando saiu o resultado e eu tinha sido uma das 30 selecionadas, não acreditei. Quem me passou a informação foi a Liana Farias, dona de uma produtora e que é da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Eu não queria concorrer. Em Brasília, tem um monte de mulheres pretas ótimas, que estão no ramo das artes há muito tempo. Eu sempre fiz trabalhos esporádicos e tem mulheres negras que só vivem da arte. Mas minhas amigas conseguiram os documentos, me inscreveram e depois me avisaram. Saiu a primeira leva e estava dentro. A Secretaria de Cultura de Brasília, quem promoveu, não sabia da minha história de vida. Soube depois, quando pediram para eu fazer uma minibiografia. Fiquei muito encantada, porque nunca tinha ganhado nada. A minha virada de chave, de visibilidade, começou com esse prêmio. Então, muitas pessoas que eu sempre acompanhei, artistas de Brasília que eu sempre admirei, ficaram sabendo um pedaço da minha história de vida. Não pude ir receber o prêmio, porque não tinha dinheiro para a passagem. Então, pedi para uma amiga de Brasília, mulher negra, que recebesse o prêmio para mim. Foi muito lindo. Uma galera veio falar comigo, dizendo que eu era referência, um exemplo de não desistência. Não almejo fazer um curso de teatro e viver como atriz. O que eu almejo é o caminho que estou trilhando agora. O foco é na academia, me formar e viver do meu curso.

Fórum: O que você espera da vida depois de ingressar na universidade?
Danda:
Estou com muito medo da universidade, porque é uma vivência completamente diferente de tudo que eu já vivi. Uma experiência que até agora não consegui saber, de fato, como vai ser para a Dayana (Danda). Vou sugar tudo que a universidade tiver para me oferecer. Eu sei que nesse primeiro semestre vou “comer muito capim”, vou ter muita dificuldade. Estou há 14 anos longe da sala de aula e quando volto é em um universo que é outro mundo. Mas estou cheia de expectativas positivas. Eu me inscrevi novamente no vestibular para fazer outro curso (Educação Física). Vai que eu consiga passar também. Agora, de verdade, minha vida vai fazer outro sentido. Tenho fé que vou ganhar muitas coisas positivas. O que não tive na primeira infância e na adolescência, vou ter na idade adulta. Agora é a hora da colheita. Hoje, não tenho qualidade de vida. A única vantagem que eu tenho hoje é uma casa para dormir e morar. Mas tem dias que eu abro a geladeira e o armário da dispensa e não têm nada. O que eu ganho hoje, no ano todo, sendo vendedora ambulante eu ganhava em dois, três meses, vendendo droga. Só que eu não quero. Prefiro passar essa dificuldade, pedir para as pessoas quando for necessário. Mas eu não volto para o tráfico.

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Lucas Vasques

Jornalista e redator da Revista Fórum.