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07 de outubro de 2019, 07h05

“Dói”: Cleo Pires desabafa no Fantástico sobre ataques gordofóbicos nas redes sociais 

"Eu achava que eram 10 kg, mas foram 20 kg a mais. Obviamente você vai mudar. E gente, qual é o problema? Não é normal você ser pressionada e julgada por causa da sua aparência", disse a atriz durante a entrevista

Reprodução/Redes sociais

A atriz e cantora Cleo Pires fez um longo desabafo ao programa do Fantástico neste domingo (6) sobre a onda de ataques que passou a receber nas redes contra o seu corpo. A reportagem a colocou como vítima de “body shaming”, quando alguém é julgado por sua aparência física, o que levou a atriz a começar terapia depois de ler tantos comentários negativos e gordofóbicos.

“Dói, né? Dói. Eu não estou imune a esse tipo de coisa. Não conheço alguém que não se importa quando tem uma enxurrada de gente dando opinião sobre a sua vida sem nem saber quem você é de verdade. E tudo bem também você ficar mal. Faz parte do processo, faz parte da vida”, desabafou a atriz.

Entre os comentários, Cleo lembrou que muitos diziam que seu rosto estava deformado após ter engordado. Outros especularam sobre possíveis cirurgias plásticas que ela teria feito às escondidas.

“Eu já falei abertamente que fiz plástica no nariz e preenchimento nas olheiras há anos atrás. Não tem por que mentir. É óbvio. Minha cara está muito mais inchada. Eu estou diferente. Ganhei peso, meu rosto está diferente. Eu achava que eram 10 kg, mas foram 20 kg a mais. Obviamente você vai mudar. E gente, qual é o problema? Não é normal você ser pressionada e julgada por causa da sua aparência”, reclamou.

Cleo também comentou que sempre teve problemas com a sua aparência, mas seu incômodo foi tamanho que a levou a desenvolver uma compulsão alimentar. Ao se ver com 20 kg a mais, ela passou a evitar sair de casa.

“Eu morria de vergonha, medo de sair, aparecer nos lugares. Parecia que eu estava fazendo algum mal. Aí eu parei pra pensar por que eu estava com tanta vergonha. Por que as pessoas estavam falando de mim desse jeito? Aí você fica mal, mais compulsiva ainda, come mais. Aí entra num rolo compressor de perda de controle mínimo de suas emoções, atitudes. Parece um pesadelo. Não é certo eu me sentir assim. Não vou deixar fazerem isso comigo”, disse.

Outra personalidade famosa que também sofre diretamente com ataques gordofóbicos é a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP). Militante feminista e autora de diversos projetos de lei que buscam combater a violência contra a mulher, Sâmia recebe todos os dias ofensas sobre o seu corpo, principalmente vindas de militantes bolsonaristas nas redes sociais – ou até mesmo da própria família Bolsonaro.

Em entrevista ao Universa, da UOL, Sâmia se pronunciou sobre esses ataques. “Eu sou uma deputada federal, não importa o quanto eu peso. Minha forma física não é uma questão para o papel que estou exercendo na sociedade e nem atrapalha meu desempenho parlamentar”, disse. Com nove meses de mandato em Brasília, ela hoje é, também, a pré-candidata do PSOL à prefeitura de São Paulo.

O que é Gordofobia?

Em artigo publicado na Fórum, a escritora Jarid Arraes explica que a gordofobia é uma forma de discriminação estruturada e disseminada nos mais variados contextos socioculturais, consistindo na desvalorização, estigmatização e hostilização de pessoas gordas e seus corpos.

As atitudes gordofóbicas geralmente reforçam estereótipos e impõem situações degradantes com fins segregacionistas; por isso, a gordofobia está presente não apenas nos tipos mais diretos de discriminação, mas também nos valores cotidianos das pessoas.

Para ela, uma das maiores dificuldades ao se enfrentar a gordofobia está na própria resistência social de reconhecer esse preconceito. Isso acontece porque é considerado aceitável intimidar e censurar quem é gordo, fazer observações constragedoras sobre o que a pessoa gorda está comendo e utilizar todos esses comportamentos intrusivos como justificativas para uma falsa preocupação com a saúde do indivíduo.

No entanto, uma pesquisa publicada no periódico “Archives of Internal Medicine” em 2017 indica que uma em cada quatro pessoas magras sofre dos riscos associados à obesidade. Outro estudo do mesmo ano, da Universidade de Los Angeles, afirma que o uso do índice de massa corporal como determinante de saúde levou à classificação incorreta de 54 milhões de americanos saudáveis como “doentes”.

Nas redes sociais, o internauta Vlad Schüler elaborou uma thread que ajuda a explicar como a gordofobia opera, em especial sob o argumento de que ataques são uma “preocupação com a saúde” da vítima.

O papel do feminismo

Para a escritora Jarid Arraes, as mulheres gordas sofrem uma carga ainda mais intensa de gordofobia, por conta do padrão de beleza e da mentalidade objetificadora da sociedade. “O movimento feminista está consciente disso, mas é comum identificar atitudes similares entre ativistas, especialmente quando o assunto é gordofobia”, escreve Arraes. Para ela, um dos motivos porque ainda há gordofobia no meio feminista é a falta de aprofundamento no debate.

Algumas mulheres, no entanto, estão na luta para trazer mais complexidade ao debate. A youtuber Luiza Junqueira, do canal “Tá Querida”, é uma das novas vozes do movimento feminista que tem tentado desconstruir padrões de beleza tóxicos às mulheres.

Luiza lançou um curta em 2016 chamado “Gorda“, que aborda a relação de três mulheres gordas com seus corpos, cujos depoimentos revelam vivências únicas que ajudam a enriquecer o debate sobre corpo e feminismo.


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