quinta-feira, 22 out 2020
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Feminicídio: PM bolsonarista que posava com armas é morta pelo marido na Bahia

Rafaella Gonçalves era influenciadora digital e compartilhava nas redes vídeos em que treinava tiros. O marido, Edson Salvador, também policial, já havia sido preso por violência doméstica

A Policial Militar Sylvia Rafaella Gonçalves Pereira, eleitora de Jair Bolsonaro, foi morta nesta segunda-feira (5) em Ibotirama, no oeste da Bahia. A principal suspeita é de que o marido dela, Edson Salvador Ferreira de Carvalho, também policial, teria cometido feminicídio e se matado logo em seguida. Os corpos dos dois foram encontrados na casa em que moravam.

Além de policial, Rafaella também era influenciadora digital. Com mais de 70 mil seguidores no Instagram, ela costumava compartilhar fotos com armas e vídeos em que aparece treinando tiros.

Em uma das publicações, de 8 de abril deste ano, a PM comenta sobre o aumento da violência contra a mulher na pandemia. “As vezes a vítima não pode falar abertamente”, escreve. “Por causa do isolamento em decorrência da pandemia, a violência contra a mulher aumentou! Denunciem”, continua.

Edson Salvador trabalhava na Companhia Independente de Policiamento Especializado. Em julho, ele foi preso em flagrante por violência doméstica. Depois disso foi expedida medida protetiva em favor de Rafaella. No entanto, não há detalhes se a medida ainda estava em vigor.

De acordo com a polícia, o crime ocorreu por volta das 12h30. O casal tinha duas filhas com idades entre 3 e 7 anos. Elas estavam no imóvel quando ocorreu o crime, mas não há detalhes se elas presenciaram o feminicídio seguido de suicídio.

“Quando uma mulher morre, morre um pouco de todas as outras junto a ela. O feminicídio é um crime bárbaro, que quase sempre acontece no nosso lar, com quem unimos nossas vidas”, afirmou no Twitter a major Denice Santiago, candidata à Prefeitura de Salvador pelo PT e idealizadora da Ronda Maria da Penha na Bahia.

Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou aumento nos índices de feminicídio neste ano. Os dolosos, quando há a intenção de matar, subiram de 7,1% em maio de 2019 para 136 em 2020.

Feminicídio e armas de fogo

A flexibilização do porte e posse de armas é uma das principais bandeiras do governo de Jair Bolsonaro. Diversos parlamentares chegaram a defender projetos para autorizar o armamento de mulheres como forma de combater a violência doméstica.

No entanto, estudos apontam que a ampliação do porte pode aumentar o risco para as mulheres. No Rio de Janeiro, por exemplo, 47,2% dos assassinatos de mulheres são cometidos por armas de fogo e 9,7% por arma branca, isto é, facas e facões, de acordo com a Subcoordenadora de Comunicação Social da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ). O caso da PM Rafaella também mostra que o porte de armas por parte da mulher não necessariamente é uma garantia de defesa.

Outro lado

A assessoria do deputado estadual soldado Prisco (PSC), coordenador geral da Associação dos Policiais e Bombeiros Militares e seus Familiares da Bahia (Aspra), afirmou em nota que é “incabível” separar brasileiros por grupos partidários, em referência ao uso do termo “PM bolsonarista” utilizado na reportagem.

“A referência a militar como “PM bolsonarista” e “Eleitora de Bolsonaro”, para além de desnecessária, pode gerar, ao leitor, entendimento que vise justificar o crime brutal praticado contra as mulheres. O deputado entende como incabível essa busca constante, por diversos meios de comunicação, de separar os brasileiros entre grupos partidários”, diz a nota.

“Toda e qualquer violência contra a mulher, independente de cor, raça, ideologia partidária, sexo e etc deve ser combatida. Desnecessária e ofensiva a qualificação da PFem como “PMbolsonarista””, afirmou o coordenador geral da Entidade.

O Policial Militar Virgílio, amigo de Rafaella e sua família, disse que a soldado não era uma pessoa que “militava nessa esfera política”, mas teve a “infelicidade” de apoiar Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. “Isso não faz dela um objeto de desprezo. Votar em Bolsonaro não exclui as milhares de coisas boas que ela fez por todas as pessoas que cruzaram seu caminho”, escreve.

“Eu como apoiador da esquerda e da mídia independente tenho que dizer que hoje me doeu muito ver aquela pessoa maravilhosa cheia de luz ser reduzida a “PM Bolsonarista”, apesar de não ser nenhum crime apoiar esse cidadão, nós sabemos o tom pejorativo que associamos a esse termo quando o falamos ou escrevemos”, continua.

Ele afirma ainda que Rafaella atuava como assessora de comunicação na Polícia Militar da Bahia e, por isso, fazia postagens em suas redes sociais em horário de trabalho. “Além disso ela era responsável pelo nosso almoxarifado, manutenção das viaturas e sempre se destacou pela competência em todas as funções que já exerceu. Ela sempre esteve a frente de todos os projetos e ações sociais desenvolvidas pela 28ª CIPM”, diz.

“Muito mais que uma PM Bolsonarista que posava com armas. Tal título de forma alguma define a o ser humano que ela foi e as vidas que ela transformou”, destaca.

Luisa Fragão
Luisa Fragão
Jornalista.