terça-feira, 22 set 2020
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Machismo: promotor grita com jornalista argentina para forçá-la a defender porte de armas

O caso aconteceu na manhã desta quinta-feira (6), em um programa do canal de notícias argentino C5N. A jornalista Lucila Trujillo e seu colega Julián Guarino entrevistavam o promotor Santiago Terán, representante do Ministério Público da província de Neuquén, no Sul da Argentina, defensor de uma proposta de liberar o porte de armas para as mulheres da região, com o argumento de que isso as protegeria de possíveis casos de estupro e violência doméstica.

O momento mais tenso ocorreu quando o promotor colocou a jornalista em uma situação hipotética para argumentar a favor de sua proposta. Ele perguntou se ela era casada e após a resposta afirmativa, indagou se ela usaria uma arma caso estivesse sendo atacada pelo seu marido.

Lucila começou sua resposta mostrando que mostraria que o tema é mais complexo que aquela questão simplista apresentada pelo promotor, o que fez com que este ficasse furioso e perdesse as estribeiras. Terán a interrompeu com gritos, exigindo que a jornalista respondesse segundo os seus parâmetros: “a questão aqui é simples, tem que escolher entre a sua vida e a vida dele! Ou mata ou vai ao cemitério! É ou sim ou não!”, disse ele, em tom de voz claramente elevado.

Em seguida, o promotor seguiu com a clara cena de acosso moral contra a jornalista em pleno sinal ao vivo, e ainda aos gritos, e se colocando no papel de vítima. “Seja honesta consigo mesma! Você me pressiona de uma maneira muito fora de lugar, mas contra mim você não vai se meter a machinha”.

Quando o promotor finalmente deixou que ela respondesse, a jornalista disse que “a mulher não precisa carregar uma arma. Eu não sou a favor de carregar armas. Você, como representante da Justiça, a última coisa que poderia fazer diante de uma mulher violentada é perguntar isso. Porque, dessa forma, o que você está fazendo é passar à mulher responsabilidade de lutar para se defender, lutar ela mesma pela sua vida, e não que é a dever da sociedade e da Justiça proteger essa mulher”.

Finalmente, Lucila encerra a discussão exigindo respeito ao seu entrevistado. “Você está me tratando como uma menina e não como uma mulher que apresenta um noticiário, o que é lamentável. Espero que você jamais esteja em um tribunal diante de uma mulher falando da forma como vocês está falando comigo, de uma forma 100% machista”.

Horas depois, Lucila Trujillo se referiu ao caso em sua conta de Twitter. “Se estando diante das câmeras fiquei com medo e tremi pelo tratamento do promotor Terán, não consigo nem imaginar como uma vítima se sentirá, pedindo ajuda, sentada à sua frente e sozinha. Esta justiça machista e patriarcal também vai acabar. Obrigada por todas as mensagens (de apoio)”.

Victor Farinelli
Victor Farinelli
Jornalista formado pela Universidade Católica de Santos, há 15 anos é correspondente na Argentina (2004 e 2005) e no Chile (desde 2006).