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08 de fevereiro de 2019, 19h42

Novas deputadas ocupam espaços e defendem liberdade de vestir

Na sua primeira semana de legislatura federal, elas relataram à Fórum experiências parecidas: em um momento ser confundida com uma assessora, em outro um pedido para mostrar o broche de parlamentar

Primeira reunião da bancada feminina da Câmara (Foto: Mídia Ninja)

Em um ambiente dominado pela monotonia dos ternos escuros, a bancada feminina do PSOL chegou destoando com roupas e acessórios coloridos. O partido elegeu, em 2018, quatro deputadas com idades entre 29 e 35 anos para seu primeiro mandato na Câmara dos Deputados. Na sua primeira semana de legislatura federal, elas relataram à Fórum experiências parecidas: em um momento ser confundida com uma assessora, em outro um pedido para mostrar o broche de parlamentar.

Quando se analisa o perfil dos ocupantes da Câmara, os relatos das parlamentares ganham mais significado. Apesar de a bancada feminina da Câmara ter crescido 51% em relação à última legislatura – de 51 parlamentares eleitas em 2014 passou para 77 em 2018, elas ainda são minoria. Dos 513 deputados, 436 (84%) são homens, 385 (75%) são brancos e 278 (54%), têm entre 41 e 60 anos. As ex-vereadoras Talíria Petrone (RJ), 33 anos; Fernanda Melchionna (RS), 35; Sâmia Bomfim (SP), 29 anos e Áurea Carolina (MG), 35 anos, são pontos fora da curva.

A despeito do estranhamento causado pelos seus estilos pessoais, nenhuma pretende abrir mão de se vestir como gosta e se sente confortável. Na última semana, uma mulher parlamentar sofreu ataques machistas por fazer o mesmo. A deputada estadual Paulinha (PDT-SC) foi ofendida em suas redes sociais por usar um macacão vermelho decotado ao ser empossada na Assembleia Legislativa do estado.

“Existe todo um controle e uma expectativa em relação às mulheres na política. Quando as mulheres acessam esses espaços, vem toda essa característica machista”, afirma Áurea Carolina, a mulher mais votada para deputada federal em Minas Gerais, ao comentar o caso.

Ela diz não ter sofrido assédio ou ofensa na Câmara dos Deputados, até o momento. Mas não ser vista como parlamentar é uma constante. “Eu vejo que quando não estou portando o bóton ou quando não está tão visível, eu não sou percebida como deputada. Uso roupas coloridas, que não são percebidas como formais. Sou uma mulher negra, tenho o cabelo crespo e muitos servidores não me conhecem. Mas há também uma leitura: que cara tem um deputado?”

‘Sempre com as mulheres’

Foto: Reprodução-Facebook

A paulista Sâmia Bomfim, caçula da nova bancada, também passou por episódios de não ser identificada como deputada. “Mesmo com broche, eles me questionam. Não chegaram a barrar. Eles dizem ‘aqui não pode, é só para parlamentar’. Em São Paulo tinha menos, acho que tem a ver com ser um espaço menor”, comenta.  Sâmia observa que “é interessante que isso sempre acontece com as mulheres”. “Questionam a competência, se elas são adequadas para estar onde estão”, comenta.

A parlamentar de São Paulo gosta de usar blusinhas com mensagens políticas e vestidos. Os sapatos, sempre baixos. “Não consigo usar salto, até porque nosso gabinete é longe do Plenário. Também gosto de mochila em vez de bolsa social, para não carregar nada na mão”, conta.

Assédio

Para Talíria Petrone, o estranhamento em relação a ela e às colegas ocorre porque o Congresso é um microcosmo, que reflete o que ocorre em escala maior na sociedade. “Esse espaço reproduz aquilo que ocorre fora daqui. O patriarcado está presente aqui de forma gritante”, avalia.

Além de algumas vezes não ser identificada como deputada, ela diz que houve alguns episódios de assédio. “Você passar em um corredor e dizerem ‘vai passar porque é mulher’. Vou passar porque sou deputada!”, indigna-se ela.

Protesto

Foto: Divulgação/PSOL

A gaúcha Fernanda Melchionna chega à Câmara dos Deputados com história para contar no quesito vestimenta. Ela ficou famosa em 2009, quando era vereadora em Porto Alegre, ao subir à tribuna vestindo terno e gravata e protestar contra a tentativa de um vereador de inserir no regimento interno a exigência de que mulheres usassem traje social.

“Isso é assunto dos que não têm preocupações com a cidade de Porto Alegre, que não acompanham a política, de fato, e não usam seu mandato para resolver os problemas do povo. Para tranquilizar alguns vereadores, aqui está a gravata”, discursou, na época. Com a repercussão, o vereador recuou.

“Na época, usava muito blusas com mensagens políticas, calça jeans e tênis. Hoje, uso mais vestidos. Mas não é porque sou deputada federal. É porque isso foi em 2009, meu estilo mudou. Só o que eu vi [na Câmara dos Deputados] é que muita gente não sabe que eu sou deputada. Sei que aconteceu a mesma coisa com a Sâmia, Talíria. Com a Sâmia, chegaram a dizer que não podia entrar”, comenta a deputada, que se solidarizou com a deputada Paulinha. “Nem investigaram o que ela é, o que ela propõe”, lamenta.

Para Fernanda, ela e as colegas, todas alçadas de vereadoras a deputadas federais, foram eleitas graças ao que chamou de “primavera feminista”, a reação contra a candidatura machista de Jair Bolsonaro. “Tinha a nossa luta e cada uma tinha sua história, claro. Tivemos uma enorme derrota [com a eleição de Bolsonaro], mas também uma vitória”, afirma.

Regras

Segundo a assessoria de comunicação da Câmara dos Deputados, a regra da Casa em relação à vestimenta é o uso de traje passeio completo no Plenário e nas comissões, ou seja, terno e gravata. Nos períodos de recesso ou dias em que não se realizarem sessões, é permitido traje esporte.

Não há código de vestimenta para as mulheres. Em 2015, a então deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ) tentou aprovar norma com regras para as parlamentares e servidoras, que incluía proibição de decote e saia abaixo do joelho. Após rebelião das servidoras, a proposta não foi adiante.

 


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