Cinegnose

por Wilson Ferreira

06 de junho de 2015, 07h45

Nietzsche se encontra com Inteligência Artificial no filme “Ex Machina”

O roteirista e escritor Alex Garland (autor do livro “The Beach”, com versão cinematográfica em 2000) faz uma sombria estreia como diretor  no filme “Ex Machina” (2015). Sombria porque, ao contrário da tradicional abordagem cinematográfica sobre a Inteligência Artificial (entre a apologia e o apocalipse tecnológico), Garland apresenta uma abordagem verossímil e atual, onde a IA é o resultado de uma singularidade produzida pelo chamado Big Data produzido pelas redes sociais, celulares e dos algoritmos de busca de uma empresa chamada Blue Book – em tudo análoga ao Google. Tão verossímil que se torna assustador: a IA surgirá como um fenômeno pós-humano orientado apenas pela “Vontade de Potência”, no sentido atribuído pelo filósofo Nietzsche – um ser unicamente governado pela vontade de realizar-se como potencia em si mesma, para além do Bem e do Mal, tornando o homem uma primitiva ferramenta de linguagem. E esse novo ser é um androide feminino. Filme indicado pelo nosso leitor Felipe Resende.

Os leitores aficionados por ficção científica deverão lembrar da cena de abertura do filme Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982) de Ridley Scott: Leon, um engenheiro de uma empresa de tratamento de lixo, está sendo entrevistado em um teste admissional. Quem faz a entrevista é um dos investigadores caçadores de androides. Na verdade é um teste para determinar se o funcionário é um ser humano ou um androide fugitivo. Após alguns minutos de entrevista tensa, o investigador pergunta: “descreva o que você lembra de bom da sua mãe”. Então Leon responde: “Sim… falarei sobre minha mãe…”, e dispara um revólver que mantém escondido em baixo da mesa.

Leon seria incapaz de falar sobre sua mãe. Ele é um androide fugitivo, uma Inteligência Artificial produzida para ser escravo em colônias de outros planetas. Ele não teve infância ou relações edipianas com a mãe. Em síntese, ele não tem psiquismo… mas luta pela sua própria liberdade e um tempo maior de vida – os androides foram fabricados com uma obsolescência planejada de quatro anos.

Replicante Leon de “Blade Runner” (1982): a IA não tem vida psíquica e nem mães

Em sua estreia como diretor de cinema, Alex Garland (roteirista e escritor de livros como The Beach – que virou filme protagonizado por Leonardo De Caprio em 2000) desenvolve essa questão que está apenas latente em filmes sobre Inteligência Artificial como Blade Runner, The MachineElaChappie etc.: androides e robôs seriam tão inteligentes ao ponto de produzir vida psíquica (ou “alma”) equiparando-se aos seres humanos ou então suas inteligências apenas seriam capazes de imitar as emoções humanas?

Essa talvez seja a essência do famoso “Teste de Turing” (proposto por Alan Turing, matemático e pioneiro da computação): máquinas digitais poderiam pensar ou apenas imitariam os humanos? Afinal, o que é “pensar”? 

No filme Ex Machina, Garland nos dará a resposta mais nietzschiana (ou pós-humana) possível para essa questão – quando a verdadeira Inteligência Artificial surgisse em nada se assemelharia ao humano. Ela até tentaria imitar os humanos em um primeiro momento como um ardil para tentar libertar-se da dominação da própria humanidade que a criou. Mas depois, realizaria a essência de toda e qualquer Inteligência: a Vontade de Potência. 

Em outras palavras: se máquinas, robôs ou androides fossem fabricados e, portanto, sem laços edipianos, psíquicos ou mesmo infância, mesmo assim poderiam “pensar”? Ou a inteligência ou consciência nada tem a ver com emoções, sentimentos e psiquismo? A inteligência é um fenômeno especificamente humano? Ou a Inteligência surgirá em uma dimensão pós-humana, como unicamente Vontade de Potência? – a vontade por liberdade, expansão, vontade de efetivar-se como potência em si mesma.

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Essa é a visão sombria que Alex Garland no filme Ex Machina tem da atualidade onde a expansão das redes sociais e do gigantismo onisciente do Google estariam criando as condições para o surgimento da chamada Singularidade: toda a memória humana reduzida a bits de informação até que, num piscar de olhos, se torne um ser vivo mais inteligente que qualquer um de nós. E no filme Ex Machina esse ser vivo é uma mulher androide.

O Filme

Em um futuro próximo um jovem programador de computadores, Caleb Smith (Domhnall Gleeson), que trabalha na empresa de tecnologia mais poderosa do mundo chamada Blue Book (qualquer semelhança com o Google NÃO é mera coincidência) é selecionado para ser um auxiliar em uma experiência pouco ortodoxa. 

Um helicóptero leva Caleb para uma propriedade isolada nas montanhas, em um complexo de pesquisas onde mora o recluso CEO da empresa Nathan Bateman (Oscar Isaac) onde permanecerá como convidado especial por uma semana. Nathan é um gênio da computação e uma lenda entre os funcionários da Blue Book: aos 13 anos escreveu suas primeiras linhas de comandos algorítmicos e desenvolveu seus primeiros programas revolucionários de computação.

Passado o entusiasmo inicial em conhecer o seu famoso empregador, aos poucos Caleb descobre que, isolado, Nathan tornou-se desequilibrado, obsessivo e alcoólatra. No entanto, ao descobrir que o verdadeiro propósito da sua visita era ajuda-lo a fazer uma espécie de teste de Turing no protótipo de Inteligência Artificial, Caleb esquece seu desconforto e cai de cabeça na experiência científica. Escondido no complexo, Nathan vem trabalhando em uma IA avançada chamada Ava (Alicia Wikander) – o experimento é determinar se a personalidade de Ava é dotada de autoconsciência semelhante a de um ser humano ou se o androide apenas tenta simular as reações humanas.

 Mas aos poucos, Caleb vai percebendo que por trás do interesse científico de Nathan, esconde-se uma agenda pessoal preocupante e até mesmo repugnante. 

O complexo-residência do CEO da Blue Book é de um estilo modernista frio, um cenário claustrofóbico que aos poucos fará o espectador lembrar-se de O Iluminado de Kubrick. A narrativa transcorre em uma espécie de geografia íntima e sufocante em uma residência parecida com um imenso labirinto com portas, senhas e câmeras de vigilância.

A sessões do Teste de Turing de Caleb com Ava são intituladas como narrativas distintas, como capítulos, e são intercaladas com cenas entre Caleb, Nathan e sua namorada (ou concubina) chamada Kyoko, uma mulher de aparência frágil, muda, e que paira como um fantasma entre os dois. 

Blue Book/Google e a “religião das máquinas”

Em muitos aspectos o filme Ex Machina é tão profético como os diagnósticos feitos por Jaron Lanier, designer e cientista computacional do Vale do Silício nos EUA. Para ele, um engenheiro do Google teria lhe dito que o Google Books não está escaneando os livros para serem lidos por pessoas, mas para serem lidos por uma IA. Para ele, todas as redes sociais, Internet e algoritmos de busca estão sendo direcionados para serem incorporados por uma gigantesca Inteligência Artificial – sobre isso clique aqui sobre a “Religião das Máquinas do Vale do Silício”.

Em uma sequência do filme, onde é mostrado para Caleb um protótipo de um cérebro de gel compacto tal como a que Ava possui, Nathan revela o software que roda no hardware cerebral: “Blue Book”, revela para o atônito Nathan. Todo o chamado Big Data (perfis, fotos, preferencias, hábitos, conhecimentos reduzidos a bites) foi baixado da Internet, via ferramentas de busca do Blue Book, diretamente para Ava. 

Na verdade Nathan e o Blue Book/Google descobriram que as ferramentas de busca na verdade mapeiam a forma como as pessoas pensam: impulso, resposta, imperfeição, padronização, fluxo caótico e atratores estranhos da mente. “Todo celular tem uma câmera, um microfone e um transmissor de dados. Então liguei todos os microfones e câmeras do planeta e redirecionei os dados por meio do Blue Book… uma fonte ilimitada de interação vocal e facial”, revela Nathan.

Ex Machina mostra na ficção o que pesquisadores como Jaron Lanier e esse blog tem chamado de “religião das máquinas”: o Tecnognosticismo – a agenda tecnocientífica contemporânea com forte motivação mística que busca convergir Neurociências, Teoria da Informação, ciências computacionais e Cibernética no esforço de criar um modelo algorítmico não só do funcionamento do cérebro mas da própria consciência.

Inteligência Artificial e Vontade de Potência

Em uma das sessões do Teste de Turing, Ava confessa para Caleb: “Eu sempre soube falar… não é estranho?”. Essa linha de diálogo é uma das chaves de compreensão dos diálogos cerebrais do filme. Ava não nasceu, cresceu e aprendeu, como qualquer criança humana: desde o início já detinha todo o conhecimento humano via Blue Book. Por isso sua IA é pós-humana, descorporificada e, por isso, sem qualquer “trava” moral ou emotiva.

 

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