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23 de abril de 2012, 03h59

115 anos de Pixinguinha (23/04/1897-07/02/1973)

Pixinga e Louis Armstrong

Seria insultante dizer que Pixinguinha foi um dos maiores músicos do Brasil. É mais ou menos como dizer que Drummond foi um dos melhores poetas de Itabira ou que Pelé foi um dos grandes pontas-de-lança do Santos. Pixinguinha é a nossa grande contribuição ao eterno, o maior brasileiro de todos os tempos, e um dos artistas mais refinados da história da humanidade. Se você não ouve regularmente pelo menos 50 composições de Pixinguinha, me desculpe, você está desperdiçando sua existência neste planeta com coisas triviais, irrelevantes, desimportantes. Pixinga sintetiza todas as tradições musicais imagináveis, europeias e americanas, brasileiras e africanas, numa obra singular que diz mais sobre o que foi o século XX no Brasil do que a coleção completa de todos os jornais e revistas publicados no período. Associado à maestria no choro, gênero com cuja história ele chega a se confundir, Pixinguinha, além de incontáveis choros, compôs de tudo: marcha, polca, tango brasileiro, maxixe, frevo, xote, valsa, coco, embolada, mazurca, rumba, lundu, quadrilha e sambas de todos os tipos. Era igualmente genial como compositor, arranjador, flautista, saxofonista e até cantor.

Alfredo da Rocha Viana Filho uma vez explicou a origem do apelido: Meu apelido não era Pixinguinha, era Pinzindim. Pin-zin-dim. Minha avó, que era africana e morreu com 95 anos de idade, é que me chamava assim. Depois, Almirante descobriu que Pinzindim é uma palavra de um dialeto africano, que quer dizer menino bom. Almirante é que me disse. Já o apelido de Pixinguinha surgiu depois que eu tive bexiga, numa epidemia. Então, uns me chamavam de Bexinguinha, Bixinguinha, foi uma complicação de apelidos. Até hoje, não sei por que fiquei como Pixinguinha (Sérgio Cabral, Pixinguinha: Vida e Obra, Rio, Lumiar, 1997, p.38). Depois, Mestre Nei Lopes descobriria que em xironga, língua de Moçambique, psi-di quer dizer comilão ou glutão, o que Sérgio Cabral considera origem plausível, já que na infância Pixinga também havia sido conhecido como Carne Assada.

O primeiro grupo musical de que participa Pixinguinha é filho do grande sucesso da música nordestina no carnaval de 1914, à raiz da embolada “Caboca de Caxangá”, de João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense. João Pernambuco dividia casa com Donga e outros músicos. Expulsos de lá pelo barulho que faziam, se instalaram num barracão na Rua do Riachuelo, de onde sairia o Grupo do Caxangá, do qual já faria parte Pixinga, com o apelido de Chico Dunga. Em 1915 já é possível encontrar referências, no Jornal do Brasil, ao “afamado Peixiquinha”. Em 1917, Pixinga já lançava dois de seus clássicos mais conhecidos, “Rosa”, valsa gravada inicialmente sem letra, e “Sofres porque queres”, choro de extrema complexidade, que você confere aqui em gravação de 1946:

Aqueles eram os anos em que Pixinga tocava na orquestra da sala de projeção do Cinema Palais, na Avenida Rio Branco, fazendo mais sucesso que os filmes. Em 1919, com formação ligeiramente modificada, o grupo receberia o nome que faria história: Os Oito Batutas.

O jornalismo, como sempre, não entendeu nada. Protestos veementes encheram as páginas dos jornais, já que além de se vestirem em trajes sertanejos, os Oito Batutas incluíam quatro negros: Pixinguinha (flauta), Donga (violão), China (violão e voz) e Nélson Alves (cavaquinho), além dos brancos Zezé (bandolim e ganzá), Jacob Palmieri (bandola e reco-reco) e Raul Palmieri (violão). Parte dessa galera é capturada em vídeo e som na celebração do quarto centenário da cidade de São Paulo, em 1954, num curta de Ricardo Dias e Thomas Farkas. Vale a pena saltar os primeiros minutos e ver a festa que fazem no palco:

Seria ainda em 1919 que Pixinga comporia aquela que talvez ainda seja a canção mais ilustre feita sobre um jogo de futebol, o “1 x 0” que comemora a vitória do Brasil sobre o Uruguai na final do Sul-Americano, nas Laranjeiras, atravessando toda a escala em andamento alucinante, como uma equipe trocando passes em alta velocidade. Aqui vai, também em gravação de 1946:

Na virada da década de vinte, os Oito Batutas excursionariam pelo Brasil e pelo exterior, com antológicas passagens por Paris e Buenos Aires. No embarque, mais uma saraivada de insultos racistas do jornalismo, que não aceitava que um grupo de negros fosse “representar o Brasil” na França. Depois do êxito, Pixinga lhes responderia com classe: Modéstia à parte, fique sabendo que triunfamos. É bom que se saiba que, quando daqui saímos, animados por uns, ridicularizados por outros, não tínhamos a estulta pretensão de representar no estrangeiro a arte musical brasileira. O que iríamos apresentar em Paris, e o fizemos com decência, graças a Deus, era apenas uma das feições da nossa música, mas daquela essencialmente popular, característica. Para os que animavam, ficaram em nossos corações o reconhecimento e a saudade. Dos outros, preferimos amargar os apodos a discutir. Tocamos para a frente (Cabral, op. cit, p. 80).

Na virada da década de 30, Pixinga se consolidaria como um dos maiores arranjadores da história da música popular, organizando orquestras e dividindo trabalhos com o maestro Radamés Gnattali. Paulo Silva, professor de harmonia da Escola Nacional de Música, reagia estatelado: Eu não sei até agora como é que Pixinguinha faz essas instrumentações, porque a regra proíbe tecnicamente certos recursos inadmissíveis nos compassos. Eu jamais conseguirei colocar essas formas dentro do compasso como coloca Pixinguinha. Na década de 40, Pixinguinha trocaria a flauta pelo saxofone, e também nesse instrumento criaria um estilo próprio. Até a morte, em 1973, ele alternaria vitórias enormes e momentos muito difíceis, parte deles narrados neste documentário do SESC:

Para a garotada que está se iniciando na infinita arte de Pixinguinha, este blog sugere a coletânea Raízes do Samba (baixável aqui), que contém gravações de todas as fases do gênio, e o LP original Som Pixinguinha (baixe aqui), produzido por Hermínio Bello de Carvalho em 1971, e que eu, pessoalmente, considero o melhor disco da história da música. Ignoro se a monumental caixa de 13 Cds lançada pela Biscoito Fino sob o título Memórias Musicais ainda está disponível para compra mas, se estiver, ela vale o dinheiro que for. Dois Cds inteiros são dedicados a Pixinga.

Evoé, Pixinguinha!


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