#Fórumcast, o podcast da Fórum
04 de janeiro de 2012, 11h32

2012: ano dos Talibã

Obama terá de usar todo seu charme sobre os colegas da OTAN, para que não o deixem encurralado no Afeganistão. Para isso, terá de convencê-los de que os está liderando rumo à saída daquele túnel escuro.

Obama terá de usar todo seu charme sobre os colegas da OTAN, para que não o deixem encurralado no Afeganistão. Para isso, terá de convencê-los de que os está liderando rumo à saída daquele túnel escuro.

Por M K Bhadrakumar, Asia Times Online

Enter the year of the Taliban

Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

Digam os chineses o que disserem sobre 2012 ser ano do dragão, será, mesmo, o ano dos Talibã, no que tenha a ver com os EUA.

O Ano Novo começou com excitante “vazamento” “vazado” por altos funcionários dos EUA em Washington, segundo o qual o governo Barack Obama estaria analisando a possibilidade de entregar à custódia dos afegãos um alto comandante Talibã – Mulá Mohammed Fazl, mantido prisioneiro há nove anos na prisão norte-americana na baía de Guantánamo, Cuba.

Os funcionários disseram que Fazl pode ser libertado (ou transferido para o Qatar), para atender a pedido já antigo de Kabul e como medida para “construir confiança”, que mostraria aos Talibã que os EUA estariam seriamente interessados em “engajá-los”.

De fato, o governo Obama mal consegue esperar para “engajá-los”. Só restam quatro meses antes da reunião da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em Chicago, evento previsto para marcar a liderança de Obama sobre a Aliança ocidental – e mostrar que Obama lidera no front – integrado, o evento, à campanha eleitoral presidencial nos EUA, de resultado, até agora, imprevisível. Supõe-se que o encontro consiga dirigir a atenção do mundo para a situação no Afeganistão.

Com os europeus tomados de profunda angústia existencial, dada a grave crise econômica, Obama terá de usar todo seu charme sobre os colegas da OTAN, para que não o deixem encurralado no Afeganistão. Para isso, terá de convencê-los de que os está liderando rumo à saída daquele túnel escuro. O encontro de Chicago de modo algum pode fracassar como fracassaram os dois eventos preparatórios – em Istambul, dia 2/11; e a Conferência Bonn II, dia 2/12.

Mas a coisa, na região em torno do Afeganistão, está cada dia mais feia. Moscou acertou direto devastador no plexo do jogo traçado pelos EUA e pelo secretário-geral da OTAN Anders Fogh Rasmussen, que haviam idealizado, em termos táticos, fazer da Ásia Central um quintal para operações no Afeganistão, no caso de as relações EUA-Paquistão deteriorarem de vez; e, em termos estratégicos, fazer da Região uma plataforma de lançamento do grande jogo rumo à Rússia, China e Irã.

Num importante movimento no jogo geopolítico, a reunião da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) [ing. Collective Security Treaty Organization (CSTO)] em Moscou, dia 20/12, decidiu que, para que se instalem bases militares estrangeiras no território da OTSC, passa a ser indispensável a aprovação por todos os estados-membros da Aliança liderada por Moscou (Armênia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão). O presidente Nurusultan Nazarbayev do Cazaquistão anunciou, em tom sério:

“O mais importante resultado de nossa reunião foi um acordo firmado sobre a coordenação das instalações de infraestrutura militar de estados não membros da OTSC em território de estados membros da OTSC. A partir de agora, para que um terceiro país instale base militar em território de estados-membros da OTSC, terá de obter aprovação oficial de todos os estados membros da OTSC. Parece-me que temos aí sinal claro da unidade da Organização e da absoluta lealdade de todos os membros às relações aliadas”.

A última frase pinga de ironia, porque o governo Obama acaba de anunciar que oferecerá assistência militar ao Uzbequistão, reviravolta política que não esconde a tentativa de capturar aquele país chave na Ásia Central, para minar a unidade da OTSC. Para grande frustração de Washington, o presidente Islam Karimov do Uzbequistão não apenas esteve presente à reunião da OTSC em Moscou, como discursou e expôs com clareza seu apoio à decisão da Aliança de Moscou.

Com isso, Moscou começa a sugerir, na direção de Washington, que o monopólio dos EUA na resolução dos conflitos no Afeganistão tem de acabar.

Os EUA podem, se quiserem, tentar reconquistar as simpatias do Paquistão, para convencer Islamabad a reabrir as rotas de trânsito que permanecem fechadas já há um mês; podem também, se preferirem, voltar a usar a Rede Norte de Abastecimento, como rota de retirada de soldados, equipamentos e armas da OTAN, quando a retirada ganhar urgência, ao longo de 2012.

A decisão da OTSC pende como espada de Dâmocles sobre as bases militares norte-americanas em Manas, próxima de Bishkek, capital do Quirguistão – e centro radial estratégico para o transporte aéreo.

Não há até aqui qualquer sinal de que Rússia e Paquistão tenham começado a trabalhar juntos, mas na declaração em que apresentou as prioridades da política externa russa para 2012, o ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov, sim, reservou situação à parte, para o Paquistão.

Mas, seguindo o voo do corvo…

Nesse quadro, a possível libertação de Fazl deve ser vista como jogada esperta, com a qual Washington tenta fazer explodir toda aquela crescente unidade regional em torno do Afeganistão. O plano do governo Obama é soltar uma raposa, dentro do galinheiro.

Fazl é dos mais experientes comandantes Talibã, esteve ao lado de Mullah Omar praticamente desde o primeiro dia e tem homens seus nas posições chaves do exército dos Talibã. É um dos favoritos de Mullah Omar e dos serviços secretos do Paquistão [orig. Inter-Services Intelligence (ISI)], e sua “volta ao lar” encheria todos esses de satisfação.

Mas, por outro lado, Fazl é também responsável pelo massacre de milhares de xiitas hazaras nos anos 1998-2001; e há fortes indícios de que seja também responsável pela execução de oito diplomatas iranianos em Mazer-i-Sharif, no norte do Afeganistão.

Fazl provoca reações viscerais de ódio entre os iranianos e pode facilmente gerar mal-entendidos nas relações Paquistão-Irã (que têm melhorado nos últimos anos) o que geraria grave dilema para Islamabad, nas relações com Mullah Omar.

Fazl também é personalidade conhecida na Ásia Central e dos russos, porque atuava como homem dos Talibã nos contatos com a al-Qaeda e seus grupos afiliados na região, como o Movimento Islâmico do Uzbequistão [orig. Islamic Movement of Uzbekistan (IMU)] e os rebeldes chechenos. Fazl comandou também a região estratégica de Kunduz, na fronteira do “soft underbelly” da Ásia Central, onde mantinha sua base com o chefe Juma Namangani, do Movimento Islâmico do Uzbequistão, ao tempo da intervenção norte-americana, em outubro de 2011.

Fazl é homem da era “pré-Haqqani”. A rede Haqqani – elemento chave da guerrilha comandada pelos Talibã a partir das áreas tribais do Paquistão – aceitará a autoridade de Fazl, decorrência de seus muitos serviços prestados, e abrirá mão da própria autoridade hoje, cedendo o comando a ele? O Paquistão talvez se veja forçado a definir prioridades entre seus “ativos estratégicos”. Nesse quadro, todos se movimentam sobre terreno minado.

E entra em cena o Qatar, que a cada dia mais emerge como o mais próximo aliado dos EUA no Oriente Médio, comparável, só, a Israel. O governo Obama está impressionado pela habilidade que o Qatar demonstrou em teatros tão diversos como Líbia, Egito e Síria, nos contatos com a Fraternidade Muçulmana e outros grupos islamistas aparentemente intratáveis, e com o quanto o Qatar ajudou os EUA a empurrar-se para “o lado certo da história” no Oriente Médio.

O governo Obama está otimista ante a possibilidade de entregar Fazl aos cuidados do Qatar, e espera vê-lo reciclado como político islâmico para tempos democráticos.

Fazl tem as credenciais necessárias para trazer para bordo o Mullah Omar e iniciar conversações formais de paz. Fazl tem credibilidade aos olhos das milícias Talibã e elas se inclinariam na direção de estimular uma reencarnação de Fazl. Seus laços com forças islamistas no Paquistão e com o ISI seriam úteis canais de comunicação com Islamabad, que seria pressionada a cooperar em conversações de paz lideradas pelos EUA, ou, no mínimo, a não boicotá-las.

De fato, Fazl é o antídoto perfeito contra a influência do Irã no Afeganistão. Se o Qatar acertar-se com Fazl, ele passará a ser o parceiro certo para Washington no grande jogo, se a Primavera Árabe aparecer pela Ásia Central, com perspectivas de mudança de regime e o surgimento de “democracias islâmicas” nas estepes. É razoável esperar que Fazl consiga persuadir os Talibã a não fazer muito alarido contra os planos dos EUA de estabelecer bases militares no Afeganistão.

Mas… o plano funcionará? O Paquistão parece já ter usado o primeiro tiro dos fogos de artifício do Ano Novo para demolir o plano dos EUA, quando o porta-voz do ministro das Relações Exteriores, Abdul Basit, disse em Islamabad na 2ª-feira:

“É impossível qualquer segurança e estabilidade estáveis no Afeganistão sem o Irã. Para estabelecer segurança e revigorar o Afeganistão, é indispensável dar a devida atenção ao Irã e confiar no Irã, porque é impossível investir em qualquer tendência de paz e estabelecer segurança e estabilidade é impossível sem a parceria com o Irã”.

Basit falava ao som ainda dos ecos do disparo do míssil cruzador iraniano que leva o feroz nome de Qader (Potência, “o Todo Poderoso”) disparado de local secreto, e que demonstra, acima de qualquer dúvida, que Teerã pode, se quiser, bloquear o estratégico Estreito de Ormuz.

Diplomata consumado, Basit com certeza sabe que Doha, capital do Qatar, está a apenas 547 km de distância, seguindo o voo do corvo, a partir do Estreito de Ormuz. Em Doha, Fazl não estaria em segurança.

*MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala. 


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum