Rudá Ricci

08 de março de 2020, 11h09

8 de março: o feminino e o feminismo Wicca

Na coluna de Rudá Ricci: "Esta é minha contribuição a este 8 de março: relembrar práticas sociais femininas que nos fazem refletir sobre outras maneiras possíveis de viver e de nos relacionar para além da objetividade agressiva masculina"

Foto: Arquivo/EBC

Anteontem, Cláudia recordou que participei de uma banca inusitada, no Paraná, alguns anos atrás. A tese era de uma amiga que pesquisou mulheres bem-sucedidas no mundo empresarial e que eram absolutamente livres sexualmente. Todas Wiccas. Fiquei impressionado.

Hoje, resolvi – sob efeito desta recordação – escrever sobre as wiccas como uma maneira de refletir de um ângulo diferente sobre o 8 de março (um dia de luta, no nosso caso, contra Bolsonaro e os histéricos de extrema-direita).

Embora exista uma corrente monoteísta, a maioria é duoteísta ou politeísta. As Brumas de Avalon trouxeram esta lógica celta para a literatura de massas.

Vou dar uma ou outra informação sobre esta religião pagã, considerada por muitos como a mais antiga da humanidade (por outras, como fortemente influenciada por seitas pré-cristãs).

Originalmente, a palavra wiccian do inglês antigo, se referia aos feiticeiros e wicce às feiticeiras. Estima-se que esta religião congregue, hoje, mais de 800 mil adeptos, com uma curiosidade: 1.434 pilotos da Força Aérea dos Estados Unidos se identificam como wiccanos. No Brasil, estima-se que esta comunidade congregue 50 mil pessoas.

As wiccas celebram os ciclos da vida e integram as dimensões feminina e masculina. As celebrações mais conhecidas são os sabás, festas que ocorrem oito vezes ao ano. Mas, há outros rituais. Os sabás são conhecidos como assembleias de bruxos e bruxas, realizadas aos sábados. A bruxaria, contudo, envolve outras práticas para além das práticas Wiccanas. Segundo Michel Valim, os Sabás que “marcam os solstícios e equinócios são conhecidos como Sabás Menores e os que acontecem entre uma estação e outra são conhecidos como Sabás Maiores, são eles: Samhain, Imbolc, Beltane e Lammas/Lughnasadh. Eles eram antigos festivais de plantio e colheita celebrados pelos povos celtas da Irlanda e Grã-Bretanha. Os Sabás celebram o ciclo do sol, o Deus, onde mitologicamente ele nasce da Deusa, torna-se amante Dela, fecunda Ela, morre e renasce novamente Dela. Esse conjunto de festivais é conhecido como A Roda do Ano. Os Esbás são os rituais feitos nas fases das Luas (nova, crescente, cheia, minguante e negra) ou apenas da Lua cheia. São ritos de conexão com a Deusa e suas marés cósmicas e ritos onde trabalhamos feitiços para renovação, crescimento, plenitude, purificação e banimento e autoconhecimento.”

As Wiccas praticam wiccanig, onde se pede aos deuses que protejam o nascimento de uma criança. Seus cultos relacionam-se com os ciclos de fertilidade da terra que celebram uma Grande Mãe. A Deusa tem mais importância em virtude da vida ser gerada pelo feminino, como vimos na explicação de Valim. Não por outro motivo que as wiccas cultuam práticas sociais que confrontaram o poder masculino e normas que cerceavam a liberdade feminina de tal maneira que foram punidas com a morte, queimadas em fogueiras ou enforcadas.

O que parece mais interessante é que seus cultos forjam uma moralidade liberal, típica das estruturas matriarcais. A Deusa Mãe (Virgem Eterna e a Feiticeira Primordial) relaciona-se ao amor pela vida e à regeneração e ao renascimento das almas dos mortos. Para a maioria dos Wiccanos, o Deus e Deusa são vistos como polaridades complementares no universo, existindo um equilíbrio entre um e outro, e desta forma têm sido comparados com o conceito de yin e yang, encontrado no Taoísmo, equilíbrio não promovido em religiões cujo ideário é patriarcal. Em várias vertentes Wicca, todos os deuses são considerados um deus, e todas as deusas são uma deusa”, de tal maneira que se unificam – numa importante tolerância religiosa – Eostre, Kali, e Virgem Maria como manifestações de uma Deusa Suprema.

Um “pit stop” para um registro sobre a estrutura matriarcal analisada pela antropologia.

Malinowski, antropólogo polaco, se surpreendeu com esta estrutura quando de sua famosa pesquisa realizada nas Ilhas Trobriand, no início do século XX. O antropólogo polaco percebeu que nestas ilhas, seus residentes não apresentavam complexos sexuais agudos. Percebe uma “livre sexualidade” incluindo a homossexualidade. A origem desta liberdade, relata estupefato, se dá em função da estrutura matriarcal da família. Não existe a figura do pai repressor, justamente porque o pai biológico não é considerado efetivamente o pai da criança. O pai é o irmão da mãe, o principal provedor da sua família. O tio materno é a figura a quem o menino recorre justamente porque se trata, observou Malinowksi, de família matrilinear. A mãe, assim, pode ter vários namorados e seus filhos terão sempre seu irmão como protetor e provedor.

Retornemos às Wiccas.

Existem diversas linhagens Wiccanas, como a gardneriana (de Gerald Gardner), a alexandrina (de Alex Sanders) ou a cochraniana (de Robert Cochrane). A gardneriana é a mais difundida e afirma recuperar a antiga tradição religiosa da bruxaria com raízes pré-cristãs.

No livro Brumas de Avalon, a criação das nações, o uso da força no comando do mundo e o foco na concentração do poder como sucesso político são apresentadas como fruto da destruição das religiões politeístas e da crença no equilíbrio entre o feminino e o masculino.

O que é inovador – e, acredito, seja resultado de uma lógica feminina da experiência Wicca – é o código moral em que “sem ninguém prejudicar faz o que tu quiseres”. Uma articulação da liberdade e generosidade.

Generosidade tão marcante que as wiccas creem que qualquer ação malévola ou benéfica retornará ao autor três vezes mais forte.

Pode ser uma crença ingênua de minha parte, mas aqui parece existir a chave de uma possível política ou organização social feminina. Não uma mera negação do masculino ou um oposto – de tal maneira que sempre estaria vinculada e projetando o masculino como fonte de sua elaboração -, mas como algo distinto, diferente, uma outra lógica social.

De qualquer maneira, esta é minha contribuição a este 8 de março: relembrar práticas sociais femininas que nos fazem refletir sobre outras maneiras possíveis de viver e de nos relacionar para além da objetividade agressiva masculina.


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