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31 de agosto de 2016, 14h42

Murilo Cleto: A dívida de Temer

O que quer a classe política, finalmente divorciada hoje do seu mais novo sócio, o PT, é muito simples: “estancar a sangria”, como disse Romero Jucá. Ou, no português mais claro, escapar da cadeia. Advogados de atingidos pela Lava-Jato já discutem uma proposta de separação mais clara de caixa dois e propina para fins retroativos e que pode salvar a pele de muita gente

Por Murilo Cleto

Todo governo nasce com uma dívida. Além das empreiteiras que financiaram suas campanhas e de parte do Congresso Nacional que lhes davam alguma sustentação política, os principais credores dos governos petistas continuavam sendo os milhões – foram 54 na última eleição – de brasileiros que apostaram num projeto de país.

Em linhas gerais, esse projeto previa a ampliação do acesso a serviços públicos de qualidade, a valorização do salário mínimo, o protagonismo do país nas relações internacionais e a redução das desigualdades, nas suas mais diferentes formas. É possível discutir se o PT realmente cumpriu esse papel enquanto governo, mas não se pode duvidar que foi nisso em que os seus eleitores apostaram. E era isso que garantia alguns poucos avanços nestas direções.

A dívida de Temer é de outra natureza. Dos 5 credores que o alçaram à condição de presidente, nenhum deles representa nada disso. E todos eles estão chegando com o seu boleto no Planalto. O que quer a classe política, finalmente divorciada hoje do seu mais novo sócio, o PT, é muito simples: “estancar a sangria”, como disse Romero Jucá. Ou, no português mais claro, escapar da cadeia. Advogados de atingidos pela Lava-Jato já discutem uma proposta de separação mais clara de caixa dois e propina para fins retroativos e que pode salvar a pele de muita gente. Só uma reação forte do Ministério Público não é o suficiente para barrar os avanços de uma anistia deste porte. Isso tudo, claro, sem nem precisar mencionar a farta distribuição de cargos pelo executivo federal para os novos partidos da base.

O poder judiciário, segundo credor desta dívida, já começou a cobrar. Na verdade, nem precisou. O medo de qualquer intervenção forçou Temer a se adiantar e a conceder um aumento estratosférico tão logo nasceu a interinidade. Daqui a pouco vem o reajuste dos ministros do Supremo. E olha que o que derrubou Dilma, em tese, foi a irresponsabilidade fiscal.

A imprensa também já ganhou bastante. Temer tirou todo patrocínio de blogs e jogou para a grande mídia. Afinal grátis não seria a cobertura de manifestações pró-impeachment, até mesmo as minguadas. Domingo de manifestação podia não ter ninguém na rua, mas estava lá a Globo News “analisando” a impopularidade de Dilma e o quão fortes e espontâneas eram as vozes das ruas.

Como a crise é também uma forma de governo, a situação fiscal do país e os altos índices de desemprego são a condição perfeita e necessária para que Temer pague a sua dívida com a oligarquia financeira nacional, apoiando medidas de arrocho e precarização do trabalho. Não faz tempo o presidente da Fiesp mandou sumir com o pato, símbolo dos altos impostos como resultado da corrupção, que decorava até esses dias a paisagem da Avenida Paulista. Afinal não faz mais sentido agora, ele justificou.

Por fim, de alguma forma Temer vai precisar acomodar a nova geração de conservadores de toda espécie no Brasil. Me refiro a evangélicos fundamentalistas e reacionários neomacartistas que passeiam por aí pedindo intervenção militar. Ex-arenistas, por exemplo, votaram em peso pelo impeachment. A gente riu quando o novo ministro da Educação recebeu Alexandre Frota no gabinete, mas a visita é sintomática. Ele só foi porque se sentiu em casa.

A rigor, essa dívida é impagável. Mas algo dela precisa ser pago. Porque o recado de todos os credores é muito claro: se não pagar, derruba. Se derrubar no ano que vem, melhor ainda. E o Congresso coloca quem quiser no lugar. Porque não é de crime de responsabilidade que se trata o impeachment, mas da perda de apoio político. Ela, por sua vez, alimentada por cada um destes credores.

Não foi por acaso que Temer disseminou o seu descompromisso com as urnas desde o começo da interinidade. E as razões para isso são mais ou menos óbvias: para implementar uma agenda que não resistiria a 5 minutos de eleições, Temer, ele mesmo a personificação do político profissional, tem estrategicamente explorado a crescente rejeição dos brasileiros à política institucional. E se faz de apolítico renunciando a uma mais do que improvável possibilidade de eleição em 2018. Ao Fantástico, disse que daria como “missão cumprida” a sua passagem pelo Planalto caso tire o país da recessão econômica.

O resultado, então, não é outro senão esse: agora que não é mais interino, Temer vai pagar essa dívida atropelando o que se construiu até aqui de direitos sociais. Sem dó. Porque vai fazer de conta que era preciso. E porque a dívida com as urnas ele não tem. Parabéns aos envolvidos.


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