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14 de outubro de 2016, 18h06

“A moda está passando informações periódicas de apoio à cultura racista”, diz pesquisadora

Joice Berth, arquiteta, urbanista e pesquisadora de gênero e raça fala sobre caso da estampa marca Maria Filó, que provocou reações do movimento negro.

Joice Berth, arquiteta, urbanista e pesquisadora de gênero e raça fala sobre caso da estampa racista da marca Maria Filó, que provocou reações do movimento negro e de internautas nas redes sociais

Por Matheus Moreira

Ainda que em transformação, o mundo da moda apresenta falhas graves ao prever estereótipos e endeusar padrões de beleza e corpos difíceis de se alcançar. A última “novidade” partiu da coleção recente da marca Maria Filó, que traz entre suas peças uma blusa com estampa de escravas servindo senhoras brancas.

Não demorou muito para que o assunto viralizasse nas redes sociais e para que a marca emitisse um comunicado, ainda que breve, tentando se explicar. Erro por erro, essa não é a primeira vez que o racismo internalizado age na contramão da pretensa “homenagem”.

Ao ser acusada de racismo no facebook, a marca respondeu afirmando não ter havido intenção de ofender e que a peça tinha como inspiração um quadro de Jean-Baptiste Debret, uma forma de homenagem.

A arquiteta e urbanista, pesquisadora de questões de gênero e raciais, Joice Berth, comenta a onda de críticas que a marca Maria Filó recebeu nas redes sociais, e explica: “Essa foi uma reação instantânea né? Quando vemos uma estampa daquela, ficamos muito chocados, porque para a gente dói o suficiente para fazer perder a razão. Compreendo a comoção do pessoal na rede, mas temos que aprofundar o debate, porque senão fica uma coisa raivosa, fica uma reação que não vai gerar a discussão que precisa”.

Em entrevista para a Fórum, Berth falou sobre o caso, sobre moda e a falsa sensação de empoderamento que o setor produz.

Fórum – O que mais me preocupa com notícias como essa é a relação possível entre a moda e a falsa sensação de empoderamento. Você diria que há real empoderamento ou algo mais próximo de uma maneira de se adaptar ao mercado e vender uma imagem mascarada, utilizando pessoas negras como token?

Joice Berth – Eu sempre gostei muito de moda e considero moda arte. Para mim arte é comunicação, através dela se comunica diversas mensagens. A moda tal qual se estabelece hoje na nossa sociedade, a mensagem que ela passa é sempre problemática, porque ela deixou de ser um instrumento de comunicação e se tornou um instrumento que segue com uma lógica de hierarquização das pessoas. Muitas vezes você vai a determinados ambientes, como em um fórum trabalhista onde as pessoas não podem entrar de chinelo. Pessoas que muitas vezes não têm muitos recursos e vão ao fórum com roupas mais informais.

A moda acaba sendo usada como hierarquização de pessoas. Por isso, nesse sentido, não há um empoderamento real quando o assunto é moda. É o que vai vender mais e vai vender mais caro.

Mas acho que há empoderamento através da moda quando você pensa em maneiras mais criativas de se vestir e transforma isso na sua bandeira. Eu até acho que pode sim ser um instrumento de empoderamento, mas desde que possamos romper com a lógica capitalista que faz de pessoas que se vestem “melhor” melhores que outras que se vestem “pior”. E nós sabemos que quem “se veste melhor” é rico, e quem é rico, também sabemos, é, em sua esmagadora maioria, branco.

Fórum – Essa não é a primeira que vez que esse tipo de situação acontece com marcas de roupas, né? Nós tivemos alguns casos bem polêmicos envolvendo uma marca e loja do Luciano Huck… Você acredita que essas ações acabam trabalhando na contramão da “homenagem” ao que seria uma cultura negra ou africana estereotipada?

 Joice Berth – Eu costumo dizer que o racismo no Brasil tem uma cara muito sofisticada e diferenciada. Nada é explícito, escancarado. Inclusive, na base da mensagem subliminar. A pessoa branca, às vezes, sente uma necessidade muito grande de dizer que ela não é racista, e essa necessidade não acompanha, necessariamente, sua postura e estilo de vida. Então, ela vai querer passar essa mensagem de não-racista por meio da homenagem.

Mas se a vida dela gira em torno das diversas formas de estabelecer racismo, isso vai transparecer quando ela for prestar a tal homenagem.

Como não existe a disponibilidade para aprender, a pessoa fica ali, utilizando esses artifícios de homenagem e exaltação da cultura negra, e aí tropeça nas cosias que estamos dizendo e que não são ouvidas. Como aconteceu com a marca Maria Filó, uma marca reconhecida, famosa e elitizada. É justamente na elite que há uma dificuldade muito maior de se tratar de questões raciais e da mensagem em uma estampa.

É uma homenagem que não considera o homenageado como elemento principal. Aí não tem como ser apropriado.

Fórum – Tem algo que gostaria de comentar ou de dizer, algo que eu tenha deixado de perguntar?

Joice Berth – Essa questão da estampa também me deixou bastante chocada, mas acho que a questão é moda, é informação, comunicação. Ao longo da história, a moda sempre esteve acompanhando movimentos políticos, como o punk, por exemplo.

Parece ser uma coisa muito boba e fútil, mas não é. É uma informação que está sendo passada ali, e essa informação é de que tanto faz o que aconteceu na história. Para mim é muito óbvia a informação passada ali: nas passarelas não se tem negras. No Brasil, conheço apenas um estilista negro, o Isaac Silva, e não conheço mais nenhum.

A moda está passando informações periódicas de apoio a cultura racista. Isso não é inocência ou um descuido. Quem trabalha com moda sabe que isso é informação e que deve ser pensado.

A negritude, com toda sua história e intelectualidade, está sendo deixada de lado pelas pessoas brancas, porque a moda não evoluirá seguindo esse caminho. Há muito que ser revisto.

Foto: reprodução do Facebook de Tamara Isaac


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