Seja #sóciofórum. Clique aqui e saiba como
20 de janeiro de 2012, 06h30

A Sony administra os sonhos de Martin Luter King

Milhões de pessoas veem absolutamente limitado o seu acesso a um elemento tão inquestionável do patrimônio histórico internacional e o uso do grande discurso das liberdades fica restrito àqueles que possam permitir-se pagar por ele.

Milhões de pessoas veem absolutamente limitado o seu acesso a um elemento tão inquestionável do patrimônio histórico internacional e o uso do grande discurso das liberdades fica restrito àqueles que possam permitir-se pagar por ele.

Por Juan Luis Sánchez (Tradução de Idelber Avelar)

Tente procurá-lo no Google e você custará a encontrá-lo. Tente pedi-lo a museus, centros de pesquisa política ou escolas de pensamento americanas e eles lhe dirão que não, que não está online em nenhum lugar mas que, em todo caso, você pode comprá-lo por US$ 10 na loja. E se você comprar o DVD e fizer o upload à Internet para que outros o possam ver, a sua conta de usuário pode ser suspensa.

O discurso “I have a dream”, de Martin Luther King, um dos mais importantes da história dos direitos civis, tem direitos autorais e cães de guarda dispostos a protegê-lo com zelo: a discográfica EMI chegou a um acordo em 2009 com os herdeiros de King para encarregar-se de que ninguém use esse material sem passar pela caixa registradora. Em novembro de 2011, parte da discográfica foi comprada por outra gigante, a Sony Music Enterteinment (SME), que assumiu o trabalho, por exemplo, de retirar da Internet os fragmentos do discurso que vários usuários haviam subido, sem intenção de lucro. Como este: veja o que acontece se você apertar o play.

A rede se move mais rápido que a estrutura que a persegue – e que agora tenta rearmar-se com iniciativas legais como SOPA ou PIPA – e há várias cópias do vídeo que sobrevivem no YouTube, à espera de que chegue a suspensão. Este vídeo funciona, no momento em que estamos escrevendo isto:

A potência histórica do discurso de Martin Luther King em 1968 ante centenas de milhares de pessoas nas escadarias do monumento a Lincoln, em Washington, DC, vai muito além do texto; é um discurso áudio-visual. Uma pessoa que não saiba muito inglês ou não seja um conhecedor da história política americana provavelmente não reconheceria o discurso ao lê-lo–exceto, talvez, quando chegue à parte do “I have a dream …” – e, no entanto, apenas com o tom de voz bíblico de King, com as imagens da área da lagoa abarrotada, muita gente saberia reconhecer do que se trata. Porque o discurso de Martin Luther King é um ícone político e áudio-visual em todo o mundo. E, claro, isso é rentável.

Quando King morreu, seus descendentes começaram a gestionar a herança daquele e de outros discursos, sobre os quais terão direitos até 2038, setenta anos de depois da morte do líder afro-americano. Eles processaram, por exemplo, a rede americana de televisão CBS, por usar em 1999 as imagens daquele dia num documentário sem lhes pagar nada. Depois enfrentaram o jornal USA Today por publicar o discurso na íntegra em 1994.

Entretanto, a família King, através da EMI-Sony, autorizou outros usos do discurso do pai das liberdades civis dos negros dos Estados Unidos: para um comercial da Alcatel, por exemplo. Fazendo caixa com isso, é claro.

De forma que projetar, subir à Internet, remixar ou fazer qualquer uso do discurso de King, no formato que seja, é ilegal, exceto se caminhamos dentro das fronteiras da versão americana do “direito à citação” ou se chegamos a um acordo com os herdeiros. Desta forma, milhões de pessoas veem absolutamente limitado o seu acesso a um elemento tão inquestionável do patrimônio histórico internacional e o uso do grande discurso das liberdades fica restrito àqueles que possam permitir-se pagar por ele.

Original em espanhol aqui.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum