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08 de fevereiro de 2012, 19h13

A futilidade do golpe

Um presidente violentamente seqüestrado a poucas horas da madrugada por militares encapuzados, seguindo ao pé da letra o indicado pelo Manual de Operações da CIA e da Escola das Américas para os esquadrões da morte; uma carta de renúncia apócrifa que se deu a conhecer com o propósito de enganar e desmobilizar a população e que foi de imediato retransmitida a todo o mundo pela CNN sem que antes se confirmasse a veracidade da notícia; a reação do povo que, consciente, sai às ruas para deter os tanques e veículos do Exército à mão limpa e exigir o retorno de Zelaya à presidência; o corte de energia elétrica para impedir o funcionamento das rádios e da televisão e semear confusão e desânimo.

Como na Venezuela, nem bem encarceraram Hugo Chávez os golpistas instalaram um novo presidente: Pedro Francisco Carmona, a quem a inventividade popular batizou de ‘o efêmero’. Quem desempenha seu papel em Honduras é o presidente do Congresso Unicameral deste país, Roberto Micheletti, que jurou neste domingo como mandatário provisório e que somente um milagre o impediria de ter a mesma sorte de seu predecessor venezuelano.

O ocorrido em Honduras põe de manifesto a resistência que provoca nas estruturas tradicionais de poder qualquer tentativa de aprofundar a vida democrática. Bastou que o presidente Zelaya decidisse chamar uma consulta popular – apoiada com as assinaturas de mais de 400 mil cidadãos – sobre uma futura convocatória a uma Assembléia Constitucional para que os distintos dispositivos institucionais do Estado se mobilizassem para impedi-lo, desmentindo desse modo seu suposto caráter democrático: o Congresso ordenou a destituição do presidente e uma decisão da Corte Suprema validou o golpe de Estado. Foi nada menos que esse tribunal que emitiu a ordem de seqüestro e expulsão do país do presidente Zelaya, adotando a conduta sediciosa do decorrer da semana por parte das Forças Armadas.

Zelaya não renunciou e nem solicitou asilo político na Costa Rica. Foi seqüestrado e expatriado, e o povo saiu às ruas para defender seu governo. As declarações que conseguem sair de Honduras são claríssimas nesse sentido, especialmente a do líder mundial da Via Campesina, Rafael Alegria. Os governos da região repudiaram o golpismo e no mesmo sentido se manifestou Barack Obama ao dizer que Zelaya "é o único presidente de Honduras que reconheço e quero deixar bem claro". A OEA se expressou nos mesmos termos e na Argentina a presidente Cristina Kirchner declarou que "vamos impulsionar uma reunião da Unasul, ainda que Honduras não faça parte desse organismo, e vamos exigir à OEA o respeito a institucionalidade e a reposição de Zelaya, além de garantias à sua vida, sua integridade física e de sua família, porque isso é fundamental, por ser um ato de respeito à democracia e a todos os cidadãos".

A brutalidade de toda a operação leva a marca indelével da CIA e da Escola das Américas: desde o seqüestro do presidente, enviado de pijamas a Costa Rica, e o insólito seqüestro e espancamento contra três embaixadores de países amigos: Nicarágua, Cuba e Venezuela, que tinham se dirigido à residência da ministra das relações exteriores de Honduras, Patrícia Rodas, para lhe expressar a solidariedade de seus países, passando pela ostentosa demonstração de força dada pelos militares nas principais cidades do país com o claro propósito de aterrorizar a população. Na última hora da tarde impuseram o toque de recolher e existe uma estrita censura de imprensa, pese que não se conheça declaração alguma da Sociedade Interamericana de Imprensa (sempre tão atenta às situações de alguns meios na Venezuela, Bolívia e Equador) condenando este atentado contra a liberdade de imprensa.

Não é demais recordar que as forças armadas de Honduras foram completamente reestruturadas e ‘reeducadas’ durante os anos 80, quando o embaixador dos EUA em Honduras era nada menos que John Negroponte, cuja carreira ‘diplomática’ o levou a cobrir destinos como Vietnã, Honduras, México, Iraque para, posteriormente, assumir o comando do super-organismo de inteligência chamado Conselho Nacional de Inteligência de seu país. De Tegucigalpa monitorou pessoalmente as operações terroristas realizadas contra o governo Sandinista e promoveu a criação do esquadrão da morte mais conhecido como Batalhão 316, que seqüestrou, torturou e assassinou centenas de pessoas dentro de Honduras enquanto seus informes a Washington negavam que ocorressem violações dos direitos humanos neste país.

Em dado momento, o senador estadunidense John Kerry demonstrou que o Departamento de Estado pagara 800 mil dólares a quatro companhias de aviões de carga pertencentes a grandes narcotraficantes colombianos para que transportassem armas aos grupos que Negroponte organizava e apoiava em Honduras. Os pilotos testemunharam sob juramento, confirmando as declarações de Kerry. A própria imprensa estadunidense informou que Negroponte esteve ligado ao tráfico de armas e drogas entre 1981 e 1985, com o objetivo de armar os esquadrões da morte, mas nada interrompeu sua carreira.

Essas forças armadas são as que depuseram Zelaya. Mas a correlação de forças no plano interno e internacional é tão desfavorável que a derrota dos golpistas é só questão de (muito pouco) tempo.

Atílio Boron é doutor em Ciência Política pela Universidade de Harvard e professor titular de Teoria Política na UBA (Universidade de Buenos Aires). É autor do livro "Império e Imperialismo. Uma leitura crítica de Michael Hardt e Antonio Negri", publicado pela editora CLACSO em 2002.
Website: http://www.atilioboron.com
Trazido por Gabriel Brito, jornalista para Correio da Cidadania.


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