segunda-feira, 21 set 2020
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A longa crise da esquerda europeia

Dos 15 países europeus com governos de esquerda em 1992, hoje restam apenas cinco, dos quais Portugal, Espanha e Grécia estão em graves dificuldades econômicas e sociais. É difícil entender uma crise que vem de longe para quem tem menos de 50 anos. Sua solução não parece rápida

Por Roberto Sávio

A vitória da direita no Chile em janeiro propiciou reflexões sobre a crise da esquerda. Dos 15 países europeus com governos de esquerda em 1992, hoje restam apenas cinco, dos quais Portugal, Espanha e Grécia estão em graves dificuldades econômicas e sociais. É difícil entender uma crise que vem de longe para quem tem menos de 50 anos. Sua solução não parece rápida.

É preciso recordar que desde o fim da Segunda Guerra Mundial e a criação das Nações Unidas foi implementado um extraordinário processo de modernização política baseado em conteúdos constitucionais: justiça social e participação democrática. A expansão econômica foi acompanhada por um grande processo de reformas como a agrária, dos direitos trabalhistas, de proteção da saúde e do emprego.

Em nível mundial, a Assembleia Geral da ONU adotou, nos anos 70, uma declaração sobre a Nova Ordem Econômica Internacional que postulava uma “justiça social mundial” e reconhecia ao Terceiro Mundo o direito de aumentar sua participação na economia do planeta. Nessa época, os valores do desenvolvimento humano eram a base do debate político. Assim, foi realizada uma cúpula de 22 chefes de Estado, o diálogo Norte-Sul, que teve uma primeira reunião em Paris e outra em Cancun em 1980, da qual participou um recém-eleito Ronald Reagan, pouco interessado na justiça internacional e muito no comércio.

Reagan difundiu a frase “trade not aid”: comércio, não ajuda. E, com Reagan e seus aliados, como a britânica Margaret Thatcher, começa a mudar o curso da história. Na década de 80, foi criada a Organização Mundial do Comércio à margem das Nações Unidas, contra a qual foi declarada uma guerra de deslegitimização como fonte de decisões internacionais.

Procedeu-se à liquidação da Nova Ordem Informativa e a Nova Ordem Econômica foi substituída pelo chamado Consenso de Washington, que impôs o pensamento único neoliberal como base das relações econômicas internacionais. Paralelamente, Reagan e Thatcher acometiam a deliberada destruição do poder sindical, inaugurando o ciclo de liquidação social que ainda continua.

Em 1989, desmorona o Muro de Berlim e afirma-se que os vencedores não derrotaram um inimigo, a União Soviética, mas tudo o que era contra o capitalismo. O neoliberal Francis Fukuyama afirmou que estávamos diante do fim da história, pois a partir de então existiria apenas o capitalismo, em crescimento nefasto contínuo e sem nefastos controles.

Depois da morte do comunismo, foi declarada a morte das ideologias. O pensamento único arrasou a opinião diferente. O mercado era o melhor regulador da economia, da sociedade e da cultura. Diante deste grande embuste, a esquerda – particularmente na Europa – buscou ser o menos estridente e anti-histórica possível, mimetizando-se nos estilos e na imaginação coletiva do momento. Em termos gerais, dividiu-se em dois grupos: as “viúvas” e as “virgens”.

As viúvas da esquerda, exceto nos países ex-socialistas, se afastaram da política. As virgens passaram a cantar o fim das ideologias e a adotar o pragmatismo. “É preciso ser pragmático”, era o lema dos anos 90. Da linguagem política saíram muitas palavras (códigos de comunicação), que não ajudavam as virgens: justiça social, solidariedade, transparência, participação, redistribuição, imposição progressiva, etc.

Porém, o pragmatismo tem um problema: sem um contexto conceitual no qual operar, transforma-se em um mecanismo onde se faz apenas o possível, e, portanto, o que é útil. E já não é pragmatismo, mas utilitarismo. A política se concentra, então, nos fatos administrativos, sem uma visão final da sociedade e sem uma escala de valores. É uma esquerda sem identidade, que vive em polêmica com a direita sobre questões pessoais e administrativas.

Paralelamente a esta mudança política, houve uma mudança mais determinante na economia. Com a abolição de controles sobre os bancos, decretada por Bill Clinton em 1989, e durante a embriaguês neoliberal da administração Bush, quando foram inventados instrumentos financeiros de alto risco sem precedentes, a economia real de bens e serviços ficou sem força diante do setor financeiro, que cresceu mais de 20 vezes em relação à economia real.

A relação entre política e economia mudou drasticamente. O mundo da produção já não era a referência principal. E, diante de umas finanças totalmente globalizadas e sem regras, o espaço nacional, suas leis e suas instituições, começaram a perder consistência. No debate contemporâneo, os velhos termos são capturados para serem usados em uma nova guerra fria. Barack Obama, para os republicanos, é um socialista. Os opositores, para Silvio Berlusconi, são comunistas. E a esquerda?

A esquerda se encontra sem códigos de comunicação para se identificar com as pessoas. Não pode falar de justiça social, de solidariedade, de igualdade ou de redistribuição sem ser acusada de nostalgia comunista. Na Itália, chegou-se ao extremo de o Ministério do Trabalho já não ser chamado por seu nome, mas como Ministério do Welfare, ou seja, do bem-estar, sem que a esquerda diga nada, para não parecer muito esquerda.

A lista de concessões feitas em cada país europeu encheria um volume. Nos Estados Unidos, diante do excepcional fenômeno de um jovem negro eleito presidente por votação maciça, assiste-se ao fato de junto com ele assumir o poder a velha equipe econômica corresponsável pela crise. Deste modo, é bloqueada a possibilidade de reformar um sistema financeiro em quebra, que já deixou cem milhões de novos pobres, e que provavelmente voltará a entrar em um colapso mais grave num prazo não tão distante, se não for reformado.

Disse o prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz que os vencedores do Muro de Berlim são os perdedores de hoje, com o colapso do outro muro, o de Wall Street. Como faz um jovem europeu, que não viveu todo esse processo, para entender o paradoxo de Stigliz e crer que uma esquerda sem identidade possa ser o caminho para uma sociedade diferente da atual?

* Roberto Sávio é fundador e presidente emérito da agência de notícias Inter Press Service (IPS).

Por IPS/Envolverde.

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