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05 de setembro de 2013, 14h12

Abelhas selvagens, solução de renda na Amazônia

A criação de abelhas sem ferrão preserva a floresta e aumenta a produtividade das propriedades voltadas à agroecologia na região

A criação de abelhas sem ferrão preserva a floresta e aumenta a produtividade das propriedades voltadas à agroecologia na região

Por Felipe Rousselet

Esta matéria faz parte da edição 123 da revista Fórum.
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Ivanildo Lima Alves dos Santos é o proprietário do Sítio Coqueiro Verde, localizado no município de Iranduba, na região metropolitana de Manaus. Para manter a propriedade de 3 hectares e garantir o sustento de suas três filhas e da esposa, o produtor rural de 42 anos cultiva diversas culturas, entre elas a criação de aves e as plantações de abacaxi, açaí e do coco, sua principal fonte de renda.

Para complementar seus rendimentos, Ivanildo aplicou no seu sítio uma tecnologia social, certificada pela Fundação Banco do Brasil (FBB) e apoiada pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), para a produção de mel com a criação de colmeias de abelhas nativas da Amazônia, da família das Meliponíneas, popularmente chamadas de abelhas sem ferrão, ou abelhas selvagens.

O início da história de seu Ivanildo com a meliponicultura aconteceu em 2007, de uma forma inusitada. O produtor rural comprou uma roçadeira de um colega, porém o equipamento “não prestava”. Foi então que, para não ficar no prejuízo, Seu Ivanildo aceitou como compensação duas caixas com enxames de abelhas Meliponíneas. Hoje, com auxílio do Inpa, o agricultor já conta com 84 caixas.

Devido ao fato de essas abelhas não possuírem ferrão, a sua criação e extração do seu mel é uma atividade que, em grande parte dos casos, envolve toda a família do produtor rural, incluindo também pessoas idosas. “O mel e o pólen das abelhas complementam minha renda familiar. É um trabalho seguro, simples e que ajuda na manutenção da propriedade”, diz o agricultor, que, diferente do proprietário anterior da área, aprendeu que é preciso diversificar sua produção para garantir o sustento da família com a agricultura familiar.

Uma das vantagens da meliponicultura para os produtores rurais da Amazônia, como o seu Ivanildo, é o fato de as abelhas sem ferrão auxiliarem também na produção de outras culturas, uma vez que polinizam o terreno onde estão instaladas as colmeias.

“As abelhas sem ferrão são originárias do Brasil, e a maior concentração de espécies está na Amazônia. O Inpa desenvolve esse trabalho de pesquisa e apoio à meliponicultura em toda a Amazônia. A intenção é integrar a parte da produção de mel com a parte agroflorestal. A meliponicultura fornece mel e pólen para a comunidade, colaborando com a diminuição da desnutrição, que é muito grande na região, e o excedente é comercializado. Porém, como a abelha também poliniza o terreno, o produtor ganha quantidade e qualidade nos frutos produzidos,  que são tanto para o seu consumo quanto para comercialização. “Por outro lado, o cultivo de árvores frutíferas é essencial para a boa produção do mel”, explica Hélio Villas Boas, pesquisador do Inpa.

Caixas utilizadas na meliponicultura
Ascom / Fundação Banco do Brasil

Outra vantagem da meliponicultura é a obtenção de um mel com maior valor de mercado. Embora a capacidade de produção das abelhas selvagens seja aproximadamente 90% menor que a alcançada na apicultura tradicional, o mel obtido das abelhas sem ferrão possui valor nutricional superior, o que eleva  significativamente o seu preço.

“Enquanto o mel convencional é vendido por R$ 3 o litro, o mel das abelhas selvagens chega a ser comercializado entre R$ 40 e R$ 50. Isso para o produtor, não no supermercado. Aqui em Manaus, em São Paulo ou em Brasília tivemos produtores que conseguiram vender por até R$ 200 o litro”, relata Francisco Gilberto Feitosa Maia, gerente de Desenvolvimento Regional Sustentável da Superintendência de Negócios, Varejo e Governo do Banco do Brasil.

Além da produção do mel e do pólen, o meliponicultor pode diversificar ainda mais as suas atividades com a reprodução e venda de colmeias para outros produtores rurais. Com o uso da técnica adequada, uma nova colmeia pode ser constituída em três meses e chega a ser vendida por até R$ 250.

De acordo com Villas Boas, a criação das abelhas selvagens ainda colabora com a preservação da floresta amazônica e com o equilíbrio do seu ecossistema. Antes de a tecnologia social ser difundida entre os produtores rurais, eles buscavam o mel no seu ambiente natural, em áreas de floresta. Para isso, muitas vezes derrubavam uma árvore centenária para acessar a colmeia, mas diferentemente das abelhas africanizadas e europeias, quando uma colmeia é destruída, as abelhas selvagens não tornam a criar uma nova e morrem. Dessa forma, a coleta do mel no ambiente natural prejudica a polinização da floresta e contribui para o desaparecimento de espécies de abelhas selvagens. Hoje, 20% das espécies de abelhas sem ferrão correm risco de extinção na Amazônia.

Durante a florada, que vai de julho a novembro, uma colmeia pode produzir até 7,5 litros de mel. No restante do ano, os meliponicultores não recolhem o mel produzido nas colmeias, assim não prejudicam o desenvolvimento das abelhas e a sua reprodução, o que garante uma boa produção na época adequada para a coleta. Villas Boas esclarece que o investimento feito pelos produtores rurais na produção de mel por abelhas sem ferrão tem retorno em até dois anos.

Segundo o gerente de Desenvolvimento Regional Sustentável do Banco do Brasil, uma das maiores dificuldades para a produção e a comercialização do mel produzido pelas abelhas nativas da Amazônia é a falta de uma legislação que regule e crie parâmetros para o setor. “Um dos grandes problemas da meliponicultura no Brasil é a legislação. Existe legislação para a Apis, que é uma abelha importada, europeia, e não tem para as abelhas sem ferrão, nativas. Então, existe uma luta muito grande, em todo o Brasil, para que seja criada essa legislação. Como pasteurizar e colocar esse mel com segurança no mercado. Porque pode existir contaminação, já que produtores fazem o processo de muitos jeitos diferentes. Essa regulamentação depende principalmente do Mapa [Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento] e do Congresso”, esclarece Feitosa.

Mesmo com a dificuldade de trabalhar em um mercado ainda não totalmente regulamentado, os criadores de abelhas selvagens da Amazônia se articularam e criaram, em 2000, a Associação dos Apicultores e Meliponicultores do Amazonas, que já conta com 80 associados. Conforme o presidente da entidade, Sérgio Carvalho de Souza, alguns poucos produtores já conseguem enxergar a produção desse mel como a sua principal atividade. Porém, ele afirma que a Associação defende que a meliponicultura seja encarada sempre como uma atividade complementar. “A gente tenta focar que a meliponicultura não é a atividade número 1 de qualquer produtor, é uma atividade complementar. A atividade principal é a sua produção normal e o mel é um complemento, assim como a venda de colmeias”.

O jornalista viajou ao Amazonas a convite da Fundação Banco do Brasil (FBB).

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