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24 de agosto de 2017, 10h29

Abordagem policial nos Jardins tem que ser diferente da periferia, diz novo comandante da PM de SP

“Se eu coloco um policial da periferia para lidar, falar com a mesma forma, com a mesma linguagem que uma pessoa da periferia fala aqui no Jardins, ele pode estar sendo grosseiro com uma pessoa do Jardins que está ali, andando” disse o novo comandante da Rota, reforçando a distinção de tratamento de acordo com a classe social 

Por Ivan Longo 

Dois estudos recentes sobre violência revelaram dados estarrecedores. O Atlas da Violência 2017 mostrou que os negros são as maiores vítimas de homicídio no Brasil, muitos deles causados por policiais. A cada 100 pessoas assassinadas no país, 71 uma são negras, aponta a pesquisa. Um outro estudo, este realizado pela própria secretaria de Segurança Pública de São Paulo, mostra que o número de pessoas mortas pela polícia do estado no primeiro semestre de 2017 é o maior em 14 anos.

É neste cenário que o novo comandante da Rota – tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo – vem a público defender que a PM atue de maneira diferente em um bairro nobre como os Jardins da que atua nas periferias. No estado em que a polícia mais mata do Brasil e que a maior parte dessas vítimas são jovens negros periféricos, o principal perfil da vítima de homicídio no país, o comandante da polícia militar reforça a distinção de tratamento de acordo com a classe social.

“É uma outra realidade. São pessoas diferentes que transitam por lá. A forma dele abordar tem que ser diferente. Se ele [policial] for abordar uma pessoa [na periferia], da mesma forma que ele for abordar uma pessoa aqui nos Jardins [região nobre de São Paulo], ele vai ter dificuldade. Ele não vai ser respeitado”, afirmou, em entrevista ao UOL, o comandante Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo.

A fala de Araújo só reforça a maneira como a polícia já atua mas, mais do que isso, revela o motivo pelo qual tantos jovens de periferia são abordados, detidos e muitas vezes mortos por portarem pequenas quantias de droga – quando estão -, enquanto muitos traficantes de universidade que moram em bairros nobres continuam atuando às vistas grossas.

O exemplo da diferença de tratamento entre Rafael Braga, jovem negro de periferia que está detido há mais de um ano em uma decisão baseada apenas em depoimentos de policiais, e Breno Fernando Solon Borges, filho de desembargadora, detido portando mais de 100 quilos de maconha e munição pesada mas transferido para uma clínica com um habeas corpus, ilustra muito bem esse tipo de visão.

“Se eu coloco um policial da periferia para lidar, falar com a mesma forma, com a mesma linguagem que uma pessoa da periferia fala aqui no Jardins, ele pode estar sendo grosseiro com uma pessoa do Jardins que está ali, andando”, completou, na mesma entrevista, o comandante.

 

 


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