Aborto e machismo no mercado de trabalho

Por Jarid Arraes Nas últimas semanas, a grande mídia passou a dar uma atenção até então inédita para casos em que mulheres morreram devido a um aborto clandestino. Os principais destaques foram Jandira Magdalena dos Santos e Elisângela Barbosa, que, totalmente desamparadas, juntaram dinheiro para recorrer a clínicas clandestinas e acabaram mortas. O que pouco […]

Por Jarid Arraes

Nas últimas semanas, a grande mídia passou a dar uma atenção até então inédita para casos em que mulheres morreram devido a um aborto clandestino. Os principais destaques foram Jandira Magdalena dos Santos e Elisângela Barbosa, que, totalmente desamparadas, juntaram dinheiro para recorrer a clínicas clandestinas e acabaram mortas. O que pouco se discute, no entanto, é uma das motivações que levaram essas mulheres ao aborto clandestino: o medo de não serem ou não permanecerem empregadas.

Segundo sua própria mãe, Jandira recorreu ao aborto por medo de perder seu emprego. Já Elisângela, que era mãe de três filhos, decidiu pelo aborto porque perderia oportunidades de emprego caso se mantivesse grávida. Em ambos os casos, a tragédia do aborto clandestino revela mais uma face da realidade feminina no Brasil, que é a estigmatização da profissional grávida e a falta de oportunidades oferecidas a trabalhadoras que engravidam.

Embora as leis trabalhistas prevejam direitos às gestantes, a cultura machista do Brasil pisa constantemente em cima dessas garantias legais. É por isso que muitas mulheres, assim como Jandira e Elisângela, temem por suas carreiras e empregos quando engravidam. A verdade é que o machismo se esconde facilmente por trás desse quadro, especialmente em uma cultura de exploração, que usa ameaças e chantagens contra funcionárias – muitas das quais acabam não buscando seus direitos por medo de serem “queimadas” no mercado de trabalho.

Essa realidade pode ser relatada por milhares de mulheres em todo o país, mas infelizmente pouco tem sido feito para acabar com o machismo nas empresas e instituições onde essas mulheres trabalham. E a hipocrisia reina absoluta: a gravidez é imposta às mulheres, que são carimbadas como quase psicopatas por não desejarem a maternidade, mas a sociedade não oferece qualquer suporte real para as gestantes; pelo contrário, as mulheres são reduzidas à função materna e descartadas para outras funções, tal como a função profissional. Se a população valoriza tanto a gravidez, por que não possibilita que mulheres grávidas tenham seus direitos trabalhistas garantidos?

Esse debate, que já é levantado por movimentos feministas em todo o mundo, destaca uma reflexão sobre o desespero de uma mulher que escolhe abortar clandestinamente. Talvez seja o caso de questionar quantas mulheres não encerrariam a gestação caso não houvesse risco de desemprego. Afinal, a questão do aborto é muito mais complexa do que qualquer discurso maniqueísta pode abarcar. Sem debate sério e comprometido com o avanço social e a defesa da vida feminina, jamais haverá avanço.

Foto de capa: Reprodução

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