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21 de junho de 2016, 20h08

Agenda conservadora, golpe e religião: alguns pontos para começar o mapeamento da questão

Uma das questões mais complicadas no conjunto de temas que envolvem o golpe brasileiro é a questão religiosa. O golpe tem evidentemente uma agenda conservadora, pautada por uma bancada, dita da Bíblia, que exige cargos tidos como essencialmente ligados a questões fundamentais ao tema de Direitos Humanos e, inclusive, a Tratados Internacionais. Na verdade, a incapacidade dos governos de esquerda de negociar com a bancada dita evangélica, ao longo do tempo, por uma série de motivos, culminou numa estratégia que levou esses parlamentares e sua pauta ao protagonismo no golpe

Por Adriana Dias*

Uma das questões mais complicadas no conjunto de temas que envolvem o golpe brasileiro é a questão religiosa. O golpe tem evidentemente uma agenda conservadora, pautada por uma bancada, dita da Bíblia, que exige cargos tidos como essencialmente ligados a questões fundamentais ao tema de Direitos Humanos e, inclusive, a Tratados Internacionais. Na verdade, a incapacidade dos governos de esquerda de negociar com a bancada dita evangélica, ao longo do tempo, por uma série de motivos, culminou numa estratégia que levou esses parlamentares e sua pauta ao protagonismo no golpe. O conservadorismo do atual Congresso Nacional, tão falado e tão pouco entendido em suas raízes, tem um núcleo expressamente pentecostal e neopentecostal, e falta a muitos analistas uma caracterização desses grupos com mais precisão.

Uma excelente fonte para pensar a questão é PENTECOSTALS AND CHARISMATICS IN LATIN AMERICA AND LATINO COMMUNITIES, organizado por Néstor Medina and Sammy Alfaro e publicado em 2015. Outra fonte interessante é o banco de Dados, com estudos disponíveis na WEB em http://www.glopent.net/.

O livro, que trata de vários cenários latino-americanos, ajuda a pensar as relações entre religião, ou melhor, religiões e política, dentro de uma sofisticação maior. Para tanto, elabora melhor compreensão das dimensões social, política, e de fatores econômicos e simbólicos para dar conta de uma reflexão que possa contribuir, de fato, para entender o fenômeno do crescimento das igrejas pentecostais e neo-petencostais no Brasil e na América Latina. Afinal, evidentemente, a antiga análise weberiana que gira em torno de repetir a fórmula escapismo social mais desengajamento político não dá, há muito tempo, conta da questão. Também, a outra versão weberiana, muito comum, de busca de sentido num mundo em anomia também parece por demais simplista. Religião é busca de sentido desde sempre. Isso não explica nada porque explica quase tudo. Porque, queremos saber, de fato, em Cuba, há grupos ligados a estas novas manifestações religiosas que apoiam a revolução de Castro, e grupos radicalmente contra? Porque, no Brasil há denominações pentecostais que estão claramente contra o golpe e outras claramente a favor dele? Qualquer generalização não dará, obviamente, bons resultados para pensar o tema…

O presente ensaio é uma tentativa, portanto de iniciar um diálogo sobre a questão, com você leitor, deixando claro que não sou antropóloga da religião, embora meu objeto de estudo principal, a extrema direita, tenha características religiosas, e por isto, sempre me vi obrigada a acompanhar a questão. Também explicito que falo de um lugar demarcado, sou cristã, católica, formada pela Teologia da Libertação. Dirigi por certo tempo o site da revista Sem Fronteiras dos Missionários Combonianos, e como leiga comboniana, preservo a fonte de luta desta ordem contra toda forma de discriminação.

Isto posto, comecemos. O pentecostalismo, principal tema aqui, teve origem dentro da igreja evangélica reformada, que se distribuem em dezenas de denominações originárias nas confissões luteranas, anglicanas, calvinistas (congregacionais e presbiterianas), episcopais, metodistas, batistas e anabatistas, entre outras. Não é um movimento novo. O marco inicial, para a grande maioria dos autores seria o movimento da rua Azusa, em Los Angeles, nos EUA, uma tentativa de “avivamento espiritual” liderado por William Seymour em 1901, e que se expandiu para vários outros lugares na América do Norte. Seymour era filho de ex-escravos católicos e frequentara tanto as igrejas batistas como a Episcopal. O movimento iniciado por ele trazia como diferencial a glossolalia (falar em línguas estranhas) e atraía principalmente imigrantes e afro-descedentes.

Dentro do pentecostalismo clássico norte-americano se desenvolveram três orientações principais: Santidade-Wesleyana, Vida Superior e Unitários. A primeira corrente de forte vocação episcopal e metodista, tem como cerne a vida interior do indivíduo e seu papel social como agente transformador no mundo. No segundo, a “prática cristã social”, foi desmerecida, pois o marco do “batismo pelo Espírito Santo” eram os dons, em especial “de profecia, cura e outros milagres”, e como “dons”, não havia a necessidade do “esforço pessoal” para alcançar a bênção de tal “batismo”. Ambas as correntes são trinitárias e, portanto, defendem a crença na Trindade, como as denominações de tradição histórica e o catolicismo. Na terceira corrente desaparece a crença na Trindade, e o nome de Jesus surge como a fórmula de toda doutrina, pois ele que se manifestaria de várias formas durante o percurso das Escrituras. O batismo nas águas é um rito muito importante, e há grandes exigências sobre a santificação do corpo, em especial o da mulher.

No Brasil, exemplos desses três grupos entre dezenas de denominações são: a) Santidade-Wesleyana: Igreja do Nazareno, Exército da Salvação, Igreja Metodista Livre, Igreja Metodista Wesleyana, Igreja Wesleyana Unida; b) Vida Superior: Congregação Cristã no Brasil, Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil – Ministério Belém (Pastor Silas Malafaia já foi membro da Diretoria), Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil – Ministério de Madureira, Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil Para Cristo, Igreja Pentecostal Deus é Amor, Catedral da Bênção, Igreja Cristã Maranata, Igreja Presbiteriana Renovada do Brasil, todas as denominações ditas “renovadas”; c)Unitários: Igreja Pentecostal Unida do Brasil, Congregação Unitarista.

Paralelamente a construção destas denominações surgiram movimentos interdenominacionais, fundados em pregadores que pretendiam “unir” os diversos grupos, principalmente se autonomeando como profetas. É o caso de William Marrion Branham, que conseguiu milhões de seguidores e de Soto Santiago, que se dizia seu sucessor. No geral essas profecias tinham laços fortes entre política e religião: o primeiro atacava muito o comunismo, o segundo tentou criar um grupo mundial chamado “povo de Israel”.

Posteriormente, com o advento das tecnologias de rádio e televisivas surgiram os grandes pregadores/comunicadores e os programas de evangelização para TV viraram de grande efeito pirotécnico. Nesse momento, surgem as denominações neopentecostais. De caráter fortemente emotivo, o neopentecostalismo se formata em dois grandes grupos: um voltado diretamente para a teologia da prosperidade e para uma interlocução com o fracasso material como expressão da presença do mal na vida do indivíduo. O outro, organizado nas igrejas em células, que valoriza mais o desenvolvimento pessoal e coletivo dos membros.

No primeiro grupo estão: Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra, entre outras e no segundo campo, a Videira Igreja em Células, a Igreja Celular Internacional, a Igreja Bola de Neve, entre outras.

Como se pode observar, há uma diversidade imensa. Mas, o grupo é bastante heterogêneo, e a bastante espaço para a esquerda dialogar, inclusive com pautas progressivas, nos grupos da Santidade-Wesleyana, e nas Igrejas em Células, assim como nas denominações dos evangélicos que vem da reforma histórica. Mas, a falta de preparo da esquerda para esta interlocução entrega o parlamento exatamente ao grupo mais conservador e com a pauta mais anti-democrática.

Observem que a política brasileira se viu, nos últimos tempos dominada por certos pastores, quer parlamentares como o senador Magno Malta (PR/ES), os deputados João Campos (PSDB/GO) e Marcos Feliciano (PSC/SP) e membros atuantes de diversas denominações, como Sostenes Cavalcante que se dizem representantes dos evangélicos e do “BRASIL CRISTÃO”. De fato, o são? A Frente parlamentar Evangélica tem 199 deputados signatários, sendo que 11 estão fora de exercício no momento que escrevo este artigo. Conta ainda com quatro senadores. A Assembleia de Deus tem a maior representação na Frente, seguida pela Universal do Reino de Deus, ambas denominações cuja estrutura doutrinária não prioriza a justiça social como meta. Menos de 20% dos parlamentares parecem estar filiados a igrejas com preocupação social: a maioria dos presbiterianos são da Igreja renovada, não os históricos, o mesmo acontece com os batistas e assim por diante.

Há duas questões aí: uma é a capacidade dessas igrejas em se articular para eleger representantes, visto tornar o país “superior” moralmente é parte de seu propósito, a outra é a incapacidade do poder público de mapear e dialogar com as denominações que em sua interpretação das Escrituras problematizam a questão social. É importante frisar, ainda, que muitos evangélicos das denominações que tem representação no parlamento estão decepcionados com seus líderes, em especial pelos escândalos de corrupção. Grupos e blogs de membros das igrejas se multiplicam sobre o tema nas redes sociais.

Nesse momento, a esquerda precisa dialogar com todos os brasileiros abertos à necessidade de uma sociedade mais justa e solidária. Esse primeiro mapeamento pretende começar um diálogo nessa direção. Volto ao tema novamente em outro artigo.

*Adriana Dias é Bacharel em Ciências Sociais em Antropologia, Mestre e Doutoranda em Antropologia Social – tudo pela UNICAMP. É também coordenadora do Comitê “Deficiência e Acessibilidade” da Associação Brasileira de Antropologia


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