questaodegenero

01 de dezembro de 2014, 13h49

AIDS também é questão de machismo

Hoje é o Dia Mundial de Combate à AIDS, uma excelente oportunidade para disseminar informações e conscientizar a população a respeito da doença e sua prevenção. Além da utilização de preservativos e da Profilaxia Pós-Exposição como métodos preventivos, a desconstrução do machismo pode auxiliar muito nessa luta. O machismo enraizado culturalmente gera diversos prejuízos nas vidas das pessoas – especialmente das mulheres. Pode-se dizer que a AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis fazem parte desses prejuízos, pois estão relacionadas ao comportamento sexual humano e, portanto, também habitam em contextos de abuso, coação e omissão.

É provável que você conheça algum casal que não usa camisinha, talvez porque a mulher já faça uso de outros métodos contraceptivos, tais como as pílulas ou injeções anticoncepcionais. Muitos casais não compreendem que a gravidez indesejada não é a única coisa com que devem se preocupar em evitar: várias DSTs, como a AIDS, só podem ser evitadas com o uso de preservativo. Mas nem tudo se deve ao mero “esquecimento” ou rejeição da camisinha: enquanto isso pode acontecer devido à simples negligência de ambos, também pode ser algo imposto e demarcado pela violência de gênero.

Há diversos relatos de mulheres que compreendem a importância do preservativo e desejam sua utilização, mas que não conseguem sequer dialogar com os parceiros a respeito porque são tratadas com misoginia. São homens que se sentem ultrajados pela sugestão da camisinha e insinuam que o único motivo por que uma mulher utilizaria um preservativo seria por estar transando com outras pessoas; afinal, se não traísse, não se preocuparia com isso. Outros afirmam que o sexo é mais prazeroso sem o uso da camisinha. Essas mulheres muitas vezes se sentem intimidadas e amedrontadas, possivelmente até porque já possuem a autoestima fragilizada ou porque estão em uma situação de dependência financeira, em que não é tão simples dar um fim ao relacionamento.

Se o parceiro demonstra ser perigoso também em relação às agressões físicas, as mulheres encontram mais dificuldades para estabelecer o uso da camisinha como condição para manter o relacionamento. Em uma sociedade que reproduz forças tão desiguais no campo do gênero, é importante ter consciência de que muitas mulheres ainda estão em situação de violência e são roubadas de qualquer autonomia.

Por isso, é preciso pensar seriamente nas estruturas machistas de poder e tomar medidas educativas para que mulheres e homens compreendam a importância da prevenção, sem que caiam em equívocos machistas tão comuns. Aos homens, é necessário conscientizá-los de que a prevenção contra DSTs é importante para a saúde de todos, seja em um relacionamento hetero ou homossexual, e que isso não pode ser negligenciado com base em ideias machistas. Exigir o uso da camisinha do parceiro não significa que a outra pessoa está fazendo sexo com mais gente e indo contra o acordo específico do casal. É preciso ensinar os homens a ter uma visão humanizada do corpo feminino e do seu direito de escolha. Às mulheres, que também devem romper tabus e preconceitos, devemos garantir redes de acolhimento e conscientização, para que saibam seguramente dos seus direitos e consigam terminar relacionamentos abusivos.

Negar cuidados básicos, negligenciar o cuidado com a saúde e expor a mulher a doenças sexualmente transmissíveis também é violência de gênero. Somente com a compreensão dessa realidade o combate à AIDS poderá avançar com eficiência.


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