Fórumcast #20
14 de agosto de 2013, 11h22

Aldeia Maracanã volta para casa

Depois de uma audiência pública na Justiça Federal no dia 5, um grupo de indígenas retomou o prédio com o apoio de manifestantes. A ocupação já dura mais de uma semana e o número de barracas aumenta a cada dia

Depois de uma audiência pública na Justiça Federal no dia 5, um grupo de indígenas retomou o prédio com o apoio de manifestantes. A ocupação já dura mais de uma semana e o número de barracas aumenta a cada dia

Por Natasha Ísis, do Canal Ibase

“Teve gente que saiu daqui levando tapa na cara. Mas estamos de volta”, conta um dos índios que voltou para o espaço do antigo Museu do Índio, lar da Aldeia Maracanã. Depois de uma audiência pública na Justiça Federal no dia 5 de agosto, um grupo de indígenas formado por 21 etnias retomou o prédio com o apoio de manifestantes. A ocupação já dura mais de uma semana e o número de barracas e visitantes aumenta a cada dia.

Índios e apoiadores voltam a ocupar o prédio. (Foto Natasha Ísis/Canal Ibase)

Sem dúvidas, o momento que a Aldeia vive é outro. Os canais de diálogo com o governo estão mais abertos e o apoio popular é grande. Além disso, antes ameaçado de demolição, o prédio foi tombado na última segunda-feira, 12, pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Mesmo com a permissão de permanecer no local, os ocupantes se revezam para garantir a segurança do local, com medo de uma ação surpresa que possa retirá-los à força novamente. Agora, a luta é pela gestão do espaço.

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– Estamos em um momento muito, muito importante e simbólico para todos nós. A melhor forma de ocupar esse prédio é respeitar a história dele. Por isso, está certa a criação de um Centro Cultural de Referência Indígena neste local. Temos agora que discutir o modelo de gestão e a governança que ele terá – afirmou a secretária de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, Adriana Rattes, na primeira reunião com as lideranças indígenas após a ocupação.

Durante a última reunião entre o poder público e os ocupantes, a resistência deixou clara a sua vontade de instalar no espaço uma universidade indígena gerida por eles. Inicialmente, a Secretaria de Cultura levou até os indígenas duas propostas de gestão. A primeira sugere uma terceirização, onde uma organização escolhida pelos índios seria responsável pelo local através de uma concessão até 2020. A outra sugestão consiste em uma gestão conjunta entre governo e outras organizações do Centro Referência Indígena da Aldeia Maracanã, englobando também a Universidade Indígena. Os representantes do poder público deixaram claro que os indígenas podem trabalhar no local, mas não residir.

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Para os indígenas, as condições impostas pelo governo não são satisfatórias. De acordo com o manifesto do movimento, o impasse se dá por diferenças político-culturais, principalmente com relação aos princípios dos povos indígenas, que são intrinsecamente ligados a questões de ancestralidade, bens comuns e relação com o espaço. Dessa forma, para eles não é possível vislumbrar a sobrevivência de uma Aldeia Maracanã atendendo as exigências mencionadas. No entanto, o esforço para um diálogo continua, com mais uma assembleia marcada dentro de quinze dias.

Enquanto isso, a Aldeia continua a respirar aliviada por estar de volta. Doações chegam todos os dias por visitantes, que são convocados a voltar sempre. Para os índios e militantes que passam os dias defendendo o espaço, é possível ver uma grande mudança na visão do público sobre a ocupação.

– Eu já passei fome aqui, mas agora tem comida para todo mundo. Antes, nos assustávamos com gritos no meio da noite dizendo para a gente “ir trabalhar” e nos xingando de “índio vagabundo”. Agora as pessoas passam aplaudindo, tirando foto, falando para a gente ter força e continuar aqui – conta um dos indígenas, que preferiu não se identificar.

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