“Maioria de docentes pensa como o nosso ministro da educação”, diz aluna vítima de racismo na USP

Durante reunião que discutia a volta presencial das aulas, um professor, que esqueceu o microfone aberto, comentou que "a pluralidade" na universidade "atrapalha" após o comentário de uma aluna negra

As recentes falas do ministro da Educação de que a “universidade deve ser para poucos” e que “alunos com deficiência atrapalham” são absurdas, mas, infelizmente elas encontram forte ressonância no próprio corpo acadêmico das principais universidades do Brasil, entre elas, a USP (Universidade de São Paulo).

No último dia 24 de agosto o Conselho Universitário da USP, instância máxima para deliberação de assuntos da universidade, se reuniu para discutir uma série de assuntos. Letícia Lé, que faz parte da primeira turma de cotistas da USP e está em seu segundo mandato como representante discente no Conselho, fez uma intervenção criticando a portaria que determina o retorno das aulas presenciais para outubro e, logo após, um professor (a identidade não foi revelada), que estava com o microfone aberto, comentou que “a pluralidade da USP às vezes é muito ruim”.

“A minha fala foi no contexto da discussão sobre o retorno das aulas presenciais, que foi deliberado através de uma portaria pelo reitor da USP, uma decisão unilateral sem consultar os trabalhadores e os estudantes, e também não consultaria esse órgão máximo que é o Conselho Universitário e nós estudantes pedimos para incluir essa pauta, e só por isso estava sendo discutido aquilo (retorno presencial) ali”, relata Letícia Lé à Fórum.

“Depois da minha fala, o microfone aberto do professor revelou esse incômodo dele com a pluralidade da USP e isso não estava em discussão, então, a fala dele não é sobre o tema discutido. Fica evidente que a fala dele é sobre quem está falando”, critica a estudante vítima de racismo.

Para Letícia, a fala do professor “retoma um sentimento que é latente em muitas das pessoas negras que adentraram a USP desde a implementação de cotas: as microações que vão mostrando que a gente não pertence a aquele lugar”.

Universidade democrática?

“A implantação da política de cotas traz uma mudança muito marcante no perfil da universidade e ela precisa responder a altura para dizer se é de fato uma instituição pública, democrática e feita para o povo. É muito triste ouvir essa declaração que é contra a nossa presença ali dentro”, lamenta Letícia.

“Uma maioria de docentes ainda pensa como o nosso ministro da educação: universidade para poucos, mas a gente não pensa assim, queremos que a universidade seja para todos. Essa instância burocrática reflete muito essa elite do atraso que acredita que a ciência deve ser feita por poucos e para poucos, quando na verdade a universidade pública tem que ser ocupada por todos nós: mulheres, pessoas negras, juventude, LGBT, pessoas periféricas”, pontua a estudante.

Letícia Lé, que também é diretora geral do Centro Acadêmico XI de Agosto, destaca o fato de que a pluralidade incomoda alguns setores pois, “estava muito cômodo do jeito que estava: a manutenção da elite, que é do atraso, pois, está cercada de pessoas iguais a ela e produzindo ciência para poucas pessoas e pelas mesmas pessoas”.

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“Esse conceito de universidade pública, gratuita e democrática nunca existiu até o momento em que a gente começa a ocupar a universidade. Ela só é de todos de verdade quando essas pessoas estão lá dentro e não só quando elas entram pelas portas dos fundos, que foi a única maneira como as pessoas acessaram a USP por anos. Agora que estamos entrando pelas portas da frente e queremos estar em todos os espaços, elas vão se incomodar”, critica.

Sobre a ações contra o professor que fez o comentário racista, Letícia Lé revela que a resposta será dada “em unidade”, pois, o docente “atacou um grupo”. Uma nota de repúdio já foi lançada e conta com a assinatura de mais de 70 centros acadêmicos e 80 discentes. Além disso, a estudante revelou à Fórum que outras medidas contra o professor estão sendo pensadas.

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A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da USP para comentar o ocorrido, mas até o fechamento dessa matéria não obteve retorno.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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