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27 de agosto de 2016, 18h36

Apesar de ironias, imagem ‘para a história’ da ‘farsa ou golpe’ pauta senadores

Parlamentares pró-impeachment acusam adversários de tentar “aparecer”. Mas não é de hoje que o documentário de Anna Muylaert e os editoriais do “Le Monde” desvendam o processo de impeachment

Por Hylda Cavalcanti, na RBA

sexta-feira (26) foi tumultuada e os parlamentares fizeram um pacto de evitar confrontos acalorados daqui por diante. Mas as trocas de farpas não param e terminam sendo um dos principais pontos dos trabalhos no plenário hoje (27). Favoráveis e contrários ao impeachment se acusam mutuamente de tentar “aparecer para a mídia”. Ignorando que o que não falta no ambiente do Senado são câmeras – tanto das emissoras comerciais como da própria TV Senado, parlamentares pró-Temer tentam desqualificar a postura dos anti-impeachment. Alegam, que estariam motivados pela equipe da cineasta Anna Muyalert – diretora do filme Que Horas Ela Volta, que prepara documentário sobre os dias de Dilma Rousseff que antecederam à votação final.

Na verdade, a equipe da cineasta trabalha há várias semanas em Brasília. No dia em que parte da reportagem da RBA viajou à capital federal para entrevistar a presidenta no Palácio das Alvorada, em 6 de julho, Anna Muylaert e seu grupo estavam no mesmo avião que partiu de São Paulo. Dias depois, em outro evento, ela contou à reportagem sobre o projeto em andamento.

As críticas dos senadores mencionam palavras como “desespero” por ambos os lados e até comentários em tons diferentes sobre o editorial do jornal francês Le Monde, que chamou o processo de impeachment de “golpe ou fraude”.

Embora nos encontros reservados dos gabinetes e nas mesas do cafezinho o ambiente seja outro e todos se cumprimentem – algumas vezes, até, de forma acalorada – o clima levou até mesmo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, a se desgastar e reclamar da diferença de estilo dos parlamentares em relação aos magistrados. Lewandowski confessou ao microfone, durante a sessão e depois, no intervalo, que estaria ficando cansado de pedir para ser respeitada a ordem dos trabalhos.

Na manhã de hoje, o início das divergências começou quando o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), que desde a quinta-feira só tem chamado o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) e as senadoras Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) de “meninos e meninas”, numa forma provocativa, disse que gostaria de pedir calma aos três. E acrescentou que estava achando um absurdo ver os parlamentares que apoiam a presidenta Dilma Rousseff, em vez de se aterem ao julgamento, demonstrarem maior preocupação com o documentário.

“Vejo muitos senadores aqui atuando quando chegam a esse microfone, como se fossem atores que estivessem carregando scripts embaixo do braço”, acusou. Cunha Lima também lembrou o confronto acalorado observado ontem (quando Renan Calheiros discutiu publicamente com Gleisi Hoffmann) e afirmou que estava pedindo calma aos colegas para evitar que o mesmo se repetisse, sobre o qual disse: “nem quero mais comentar como foi nem do que se tratou”.

“Então não comente”, rebateu de pronto Gleisi Hoffmann. Em seguida, mesmo com todos sabendo que o ponto nevrálgico da polêmica partiu da irritação dos senadores com a fala de Gleisi, na quinta-feira, de que nenhum senador tinha condições morais para votar o processo de impeachment, Fátima Bezerra (PT-RN) resolveu retomar a frase – embora de maneira mais amena.

‘Estatura ética’

Fátima aproveitou a deixa para afirmar que não via, entre vários dos senadores presentes, o que chamou de ‘estatura ética’ para condenar Dilma. “A agenda do golpe é a agenda da destruição de direitos, de sonhos, de esperanças”, acrescentou, ao fazer perguntas ao ex-ministro da Fazenda Nelson Barbosa e chamar o processo de impeachment sem crime de responsabilidade de “infâmia contra a presidenta”.

Professora experiente, que saiu das salas de aula para a política, Fátima disse ainda que a presidenta Dilma, ao editar os decretos de crédito suplementar, “o fez dentro da legislação em vigor e para garantir as atividades de ações importantíssimas do governo na área da Educação”. “Foi para ajudar a manter as universidades federais, as escolas técnicas, a qualificação dos professores”, afirmou, acrescentando que “há um golpe em curso e um ministro biônico da Educação que está promovendo um verdadeiro desmonte das políticas do setor”.

Jorge Viana (PT-AC), por sua vez, observou que considera no mínimo estranha a preocupação dos senadores com o filme que está sendo produzido.

“Vocês culpam os petistas e demais parlamentares contrários ao impeachment pelas brigas, dizem que os petistas estão representando, mas quero lembrar que a imprensa do mundo inteiro está aqui. E lembrar mais: que durante o golpe de 1964, a imprensa internacional chegou a pedir desculpas ao Brasil por ter feito a cobertura de um golpe militar no país. Os repórteres internacionais não estão apenas registrando a fala dos petistas nem dos outros senadores contrários a esse processo, não. Estão registrando a conduta de todos nós”, ressaltou.

Le Monde

Viana citou o editorial do jornal francês Le Monde que criticou o impeachment. O senador afirmou que o periódico, um dos mais famosos do mundo, tem caráter apartidário e costuma fazer duras críticas ao governo Dilma Rousseff.

“No entanto, este mesmo veículo de imprensa afirma que afastar a presidenta Dilma é uma grande injustiça que afeta gravemente a democracia brasileira e ainda acrescenta que o que acontece no país ‘ou é golpe ou é fraude’”. “Credito este fato como um dos que estão levando a nervosismos entre os que demonstram incômodo com as câmeras neste parlamento.”

Não é a primeira vez que o jornal francês – que está longe de ser de esquerda, muito ao contrário – identifica a movimentação política para o afastamento de Dilma. Em 13 de julho, o jornal já havia publicado artigo assinado coletivamente por 30 senadores franceses, como o título “Dilma é vítima de baixa manobra parlamentar” – e expondo alerta de que a “democracia chegou ao fim” no Brasil e que as “máscaras estão caindo de forma rápida”. O jornal, que em março havia defendido em editorial que não há golpe em curso e que Dilma deveria renunciar, demorou a captar a realidade.

Para Gleisi Hoffmann, a grande questão da crítica feita por Cunha Lima e outros senadores que já tinham dito que os petistas estariam fazendo encenações é a preocupação com a forma como serão vistas suas imagens no futuro. “Todos sabem, com os depoimentos que estão sendo tomados aqui, mais ainda, que há um golpe em curso e estão preocupados em como ficará a imagem deles perante a história, com suas biografias”.

Falando de maneira mais branda, o advogado de defesa de Dilma Rousseff, José Eduardo Cardozo, que também citou o editorial do Le Monde, afirmou que a acusação enfrenta um momento “delicadíssimo” desde que o procurador do Ministério Público de Contas Júlio Marcelo de Oliveira, inicialmente arrolado como testemunha, passou à condição de informante, na última quinta-feira.

“Todos sabem que a situação das testemunhas arroladas pela acusação e os depoimentos tomados, seja como depoentes, seja como informantes, não é comparável à das nossas testemunhas de defesa. Estamos cientes e seguros de que os argumentos que estão sendo apresentados pelos técnicos por nós indicados, são muito bem fundamentados”, comentou.


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