Apoiador do golpe na Bolívia, governo Bolsonaro, finalmente, reconhece vitória de Luis Arce

De acordo com Evo Morales, governo brasileiro não só apoiou como teria participado do golpe na Bolívia, em 2019, que o retirou do poder; Itamaraty, agora, parabeniza volta do partido de Evo à presidência

O governo de Jair Bolsonaro reconheceu na noite desta sexta-feira (23) a vitória de Luis Arce, do MAS (Movimento Ao Socialismo), na eleição presidencial da Bolívia, ocorrida no último domingo (18). Apesar do resultado final do pleito ter sido confirmado apenas no final da semana, diversas autoridades e organismos já haviam reconhecido a vitória de Arce logo após as pesquisas de boca de urna.

O principal oponente de Arce na eleição, o jornalista neoliberal Carlos Mesa, reconheceu a vitória do candidato do MAS na segunda-feira (19), assim como a Organização dos Estados Americanos (OEA).

Uma vitória de Arce no pleito boliviano, que representa a volta do partido de Evo Morales ao poder após o golpe de 2019 que retirou o indígena da presidência, preocupava o governo brasileiro, já que Jair Bolsonaro, através de seu Ministério das Relações Exteriores, apoiou o governo golpista da ditadora Jeanine Añez e a reconheceu como presidente do país rapidamente.

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Com os números acachapantes da vitória de Arce e o reconhecimento de que ele venceu a eleição por parte de organismos internacionais, o governo brasileiro foi obrigado a recuar no discurso e se colocar à disposição para o diálogo com o novo governo.

“O governo brasileiro felicita os senhores Luis Alberto Arce Catacora e David Choquehuanca por sua eleição à Presidência e Vice-Presidência do Estado Plurinacional da Bolívia e saúda o povo e o governo bolivianos pela realização do processo eleitoral em clima de tranquilidade e harmonia, para cujo êxito contribuiu a atuação independente do Tribunal Supremo Eleitoral na contagem oficial dos voto”, diz a nota divulgada nesta sexta pelo Itamaraty.

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“O governo brasileiro afirma sua disposição de trabalhar com as novas autoridades bolivianas com vistas à implementação de iniciativas de interesse comum e no âmbito dos laços de amizade, vizinhança e de cooperação que unem os dois países e seus povos”, completa o governo Bolsonaro no texto.

Brasil participou do golpe

Em entrevista ao jornal argentino Pagina 12, em junho, o ex-presidente boliviano, Evo Morales, afirmou que o governo brasileiro não só apoiou o golpe que o retirou do poder, como também participou diretamente no processo golpista.

Morales renunciou à presidência em 10 de novembro de 2019 diante do eminente risco de vida que corria após a contestação de sua vitória na eleição presidencial ocorrida em outubro. A alegação de que houve fraude no pleito para beneficiar o presidente do MAS foi usada de base para o golpe militar no país.

De acordo com o ex-mandatário, o embaixador brasileiro em La Paz, Otavio Côrtes, se reuniu horas depois de sua renúncia com os líderes opositores Carlos Mesa e Fernando Camacho para definir que a então senadora Jeanine Áñez ocuparia a presidência.

Vitória acachapante

Luis Arce e Evo Morales têm repetido que o resultado da eleição do último domingo (18) comprova que a Bolívia foi alvo de um golpe em 2019, já que a base para o processo golpista foi a de que houve fraude na eleição de Evo, o que agora cai por terra pelo fato de que a maioria da população, em 2020, votou no candidato apoiado por ele.

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A apuração final mostra que Arce venceu seus oponentes em primeiro turno, com 55,1% dos votos. Uma análise do o centro de estudos CELAG (Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica) divulgado esta semana, comparando o resultado das duas eleições e os informes da OEA que justificaram a retirada de Evo Morales do poder, comprova que não houve fraude em 2019 e que o governo do MAS foi, sim, alvo de um golpe. Saiba mais aqui.

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Ivan Longo

Jornalista e repórter especial da Revista Fórum.