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02 de março de 2015, 11h23

Argentina: Cristina critica promotor e anuncia estatização de todas as ferrovias do país

Na abertura do Congresso, mandatária chamou acusação feita por Nisman de “vergonhosa"; anúncio pode favorecer ministro pré-candidato

Na abertura do Congresso, mandatária chamou acusação feita por Nisman de “vergonhosa”; anúncio pode favorecer ministro pré-candidato

Por Vanessa Martina Silva, no Opera Mundi 

No último discurso enquanto presidente na abertura das sessões ordinárias do Congresso, a mandatária argentina, Cristina Kirchner, classificou, neste domingo (01/03), como “vergonhosa” e “constrangedora” a atitude do fiscal Alberto Nisman, encontrado morto no começo do ano. Como última grande medida de governo, que se encerra em outubro, ela anunciou a estatização de todas as ferrovias do país. O projeto será encaminhado ao Congresso.

O discurso de mais de três horas foi acompanhado por uma grande mobilização de apoiadores e foi interpretado como o marco inaugural da campanha presidencial no país. Em sua fala, Cristina fez um balanço dos 12 anos de governo kirchnerista no país, defendeu os acordos realizados com a China e apresentou dados de sua gestão na Casa Rosada.

O caso do promotor foi, no entanto, o ponto alto de sua explanação. “Com qual Nisman eu fico? Com o que nos acusa de ocultação ou com o que se dirigia a mim reconhecendo tudo o que havíamos feito?”, disse a mandatária em alusão aos documentos encontrados no cofre da promotoria pelo juiz Daniel Rafecas. De acordo com ele, o material possui “postura diametralmente oposta” à que o fiscal expressou contra a presidente em sua denúncia de 14 de janeiro. Na última quinta-feira (25/02), Rafecas decidiu não investigar a denúncia por entender que não existiu delito.

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“O caso deveria se chamar Nisman contra Nisman”, disse Kirchner. “O que aconteceu entre o momento em que o fiscal Nisman saiu de férias e voltou, que em vez de apresentar o documento que iria apresentar, apresentou uma denúncia?”, questionou a presidente. O juiz Rafecas destacou que o texto deixado pelo investigador destacava “considerações absolutamente positivas da política de Estado do governo nacional, desde 2004 até a atualidade”.

O caso Nisman desatou uma crise política na Argentina, que culminou na realização de uma ampla mobilização, chamada de “marcha do silêncio”, com caráter opositor, para pedir que a morte do promotor seja investigada. Apesar do desgaste com o caso, a mandatária conseguiu reunir neste domingo (01/03) a maior concentração de apoiadores em uma visita presidencial anual ao Congresso.

Respondendo a uma matéria do jornal La Prensa que dizia que Kirchner não deixará “um país cômodo para governar”, a mandatária respondeu: “Tem razão. Eu não deixo um país cômodo para os dirigentes que estejam pensando em diminuir direitos, deixo um país cômodo para as pessoas”, concluiu sob aplausos.

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Ferrovias estatais

Em meio ao tom de campanha eleitoral, a mandatária anunciou a recuperação pelo Estado da administração das estradas de ferro e a criação da empresa estatal Ferrocarriles Argentinos. A proposta será enviada ao Congresso.

De acordo com o jornal La Nación, a estatização dará a Florencio Randazzo, um dos pré-candidatos da situação, e atual ministro do Interior e Transporte, uma forte plataforma de campanha até as primárias do Partido Justicialista, de Cristina Kirchner, que serão realizadas em 9 de agosto.

“Esta nova estatização dos trens é um novo capítulo na agenda de conquistas como a nacionalização da YPF [Yacimientos Petrolíferos Fiscales], das Aerolíneas Argentinas e das empresas de aposentadorias e pensões, AFJP. Tem como objetivo apelar para o sentimento nacional justamente no momento que antecede as eleições”, como disse uma fonte próxima a Randazzo ao jornal argentino.

Foto: Presidência da Argentina


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