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08 de fevereiro de 2012, 19h14

Aymaras bolivianas: muitas tarefas, poucos direitos

Entre os aymaras da Bolívia, as adolescentes só adquirem a condição plena de mulher perante sua comunidade quando demonstram uma grande laboriosidade e conhecimento de tarefas ancestrais. Mas, essa mesma condição lhes nega direitos, justiça e acesso à liderança comunitária.

Esse é o resultado de uma pesquisa sobre a vida das mulheres do Altiplano boliviano que retrata uma realidade pouco conhecida, como terem de provar que sabem acumular a administração da casa, a educação dos filhos, a elaboração de artesanatos e o trabalho junto ao homem na agricultura, entre outras tarefas.

“Valoriza-se muito o caráter laborioso das mulheres nas comunidades. É considerada fraca a que só fica em casa cuidando do ‘wawa’ (filho) e cozinhando”, disse à IPS a linguista Filomena Nina Harcacho, que dirigiu o estudo “Por trás das lentes com que se olha: Mulheres do Altiplano, ordens normativas e interligação”.

O estudo, promovido pela organização não governamental Coordenadora da Mulher, colheu depoimentos em seis comunidades originais e evidenciou que a passagem de adolescente para mulher também exige que a jovem tenha conhecimentos sobre pastoreio, tecer manualmente, usar ervas medicinais e praticar ritos e cerimônias.

A população de língua aymara na Bolívia representa 1,7 milhão dos 10 milhões de habitantes do país e se concentra na região do Altiplano que se estende no oeste do território, entre as montanhas mais altas da Cordilheira dos Andes.

A cultura aymara é a segunda em importância neste país, depois da quéchua que se expande desde as zonas montanhosas até os vales centrais e que reúne mais de 2,5 milhões de pessoas, segundo o censo de 2001.
“A hierarquia masculino-feminina é produto da superioridade do homem em termos de força física. Mas, o outro lado desta interpretação é que a força bruta é associada com o trabalho masculino, enquanto a capacidade de trabalho das mulheres se baseia na força mais sutil do conhecimento, da memória e da habilidade”, disse a linguista aymara.

Delfina Laura, de 82 anos que nasceu em uma família quéchua mas há 34 anos vive dentro da cultura aymara, contou à IPS em Calamarca, povoado do Altiplano 60 quilômetros ao sul de La Paz e a quatro mil metros de altitude, o quanto a mulher aymara evoluiu nos últimos anos.

“Agora, são bem espertas, antes eram tontas”, disse, para descrever as aymaras atuais como hábeis comerciantes de batata, “chuño” (batata desidratada), vacas e ovelhas. “Ao contrário dos homens, que acabam gastando o dinheiro em bebida, as aymaras cuidam e o administram para comprar alimentos e multiplicar a renda”, disse Laura na barraca de refrescos, biscoitos e balas que tem em uma praça do povoado, depois de estender um couro de ovelha com lã amaciada como assento para seu hóspede.

“Hoje as mulheres podem estudar e se formar, e isso lhes dá força”, disse, acrescentando, no único momento em que perdeu o sorriso, que ela não aprendeu a ler e escrever porque seus país a abandonaram com quatro anos aos cuidados de uma avó.

Laura perdeu o marido e dois filhos há 60 anos e então dedicou-se à sua vocação de comerciante para sobreviver de forma independente, percorrendo por longo tempo feiras camponesas, onde ainda predomina a troca de produtos, até se instalar em Calamarca (povoado de pedra, em língua aymara), com cerca de dois mil habitantes.

Flavia Amaru administra um terreno familiar de 1,5 hectare e é especialista em cultivos e criação de animais domésticos. Veste saias, manta e chapéu ao estilo das mulheres de Calamarca, mas se difere da média por ter título de técnica superior em agropecuária, com especialidade em zootecnia.
“Por minha família, meu lar e minhas três filhas”, respondeu à IPS com um sorriso triste, ao ser perguntada por que não chegou a obter o diploma de engenheira.

Amaru, mulher de um engenheiro agrônomo, preferiu não se estender em sua decisão de ceder ao seu marido o privilégio de ostentar o título acadêmico superior e se conformar com um grau técnico, para evitar incômodos e conflitos familiares.

Mas a maior carga de trabalho cabe a ela, em jornadas que começam às seis da manhã, em uma zona andina onde as temperaturas baixam de madrugada a menos de zero graus centígrados. A ela corresponde cuidar das filhas, que estudam na escola local, de sua casa, da comida e de atender a “chacra” (fazenda) familiar.

Na chacra, dedicada à produção de “plantines” (mudas) de verduras e à pecuária, dirige tudo e trabalha mais do que seus três empregados, embora ressalte que o chefe é seu marido. Suas jornadas se prolongam por 15 e até 17 horas na época da colheita.
Amaru admitiu que a única recompensa para ela de tanto esforço é “a satisfação de uma boa produção”, mas explicou que “essa é a vida da mulher, nada mais”.

Suportar é a norma
De fato, nas centenas de entrevistas feitas com as mulheres aymaras por Nina Huarcacho, a palavra “suportar” foi uma das mais repetidas na hora de resumir qual a sua obrigação, segundo as tradições e normas que regem suas comunidades, inclusive quando o que precisam aguentar são abusos e maus tratos.

Para Amaru, a violência é própria de “todo lar” e descartou que, salvo exceções, as aymaras recorram à justiça comunitária porque os encarregados de aplicá-la sempre serão homens, que conhecem os maridos e se sentirão mais próximos de sua posição.

O acesso a terra está, em geral, vedado às aymaras, que herdam apenas os utensílios e bens móveis, enquanto os imóveis correspondem ao homem. Somente quando são filhas únicas podem ficar na casa paterna ao se casar, mas será o marido quem administrará a terra de seus país.

A nova Constituição boliviana reconhece no artigo 304 o exercício da jurisdição indígena e camponesa para aplicar justiça e resolver conflitos dentro da comunidade. Mas, falta uma lei que regulamente este princípio, que deve conviver com o da igualdade de gênero, também consagrado na Carta Magna.

Nina Huarcacho confirmou que as entrevistadas “dizem não conhecer muito de justiça comunitária”, e menos ainda sabem com a justiça comum pode apoiar seus direitos específicos de gênero.
Gostariam de conhecer seus direitos, mas, “também dizem, por exemplo, que é preciso assumir a vida como ela é e que suportar a violência é parte da condição de mulher”, explicou.

Algumas entrevistadas consideram que o castigo para o homem é que “se estou maltratada (apanhei), o marido tenha que me amparar e cuidar de mim”, contou.
A mulher camponesa, na maioria dos casos, “não constrói sua concepção de justiça, o meio constrói para ela. Esse meio social leva a perceber o bom e o mau, constrói seus valores e sua cultura”, disse à IPS a advogada Adriana Ríos, especialista em vinculação entre gênero e justiça.

Portanto, “as expectativas da mulher aymara para obter apoio na defesa de seus direitos pessoais na comunidade são existentes, ainda mais porque a comunidade expulsou os tribunais ordinários e administra justiça diretamente”, afirmou.

Além disso, a falta de instrumentos e conhecimentos jurídicos básicos impossibilitam uma boa aplicação da justiça comunitária, disse à IPS o responsável pela Defensoria da Infância e Adolescência em Calamarca, Santos Mamani.

De fato, este defensor viu-se forçado por vários vazios existentes a assumir tarefas como conciliação familiar de juiz de paz, enquanto tenta contornar o desconhecimento sobre os direitos da mulher com cursos especiais de capacitação e sensibilização.
Mamani atende em seu escritório municipal casos de Calamarca e de remotas comunidades do município, que em sua maioria se referem a problemas matrimoniais e familiares e abandono dos filhos.

O estudo conclui que na maioria das comunidades os depoimentos mostraram que o papel da mulher “é, antes de tudo, ser acompanhante de seu par masculino como um ornamento simbólico que legitima o discurso de paridade, mas sem que o assuma com forma alternativa de organização política”

Por Envolverde.


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