Brasil passa a enxergar o óbvio: pobres serão as principais vítimas do coronavírus

A fome voltou ao Brasil, o desemprego bate recordes, a saúde do povo brasileiro que come menos e com menos qualidade também piorou. O nível de informalidade explodiu. Mesmo assim Paulo Guedes solta mais um pacote de maldades

Nesta quarta-feira (18) circulou muito nas redes abertas e privadas um vídeo de um trem lotado em São Paulo com um dos passageiros reclamando e mostrando a exposição dos trabalhadores da periferia ao risco de contágio pelo coronavírus.

O autor do vídeo se autodenomina Berinjela. Trata-se do paulista Luciano Marcelino Camargo, vendedor pracista, que nas últimas eleições foi candidato a Deputado Federal em São Paulo pelo AVANTE e teve 2.799 (0,01% dos válidos).

https://www.facebook.com/lucianoberin/videos/2375677536055795/

No vídeio ele cobra dos governantes, especialmente de João Doria, governador de São Paulo, melhores condições na saúde e no transporte público. Argumenta, com razão, que o povo mais pobre é o que mais sofrerá na pandemia.

Há décadas sofremos com a falta de mobilidade urbana

Nos grandes centros a situação do transporte público no Brasil é uma calamidade. São Paulo é uma cidade de carros com uma classe média que odeia qualquer limite para sua circulação. Marta Suplicy e Haddad sofreram imensos ataques por criarem corredores e faixas de ônibus. Haddad foi alvo de uma campanha feroz, inclusive do Ministério Público, por fazer ciclovias e também por reduzir limites de velocidade nas marginais. Haddad sucumbiu a 2013 nas manifestações que começaram contra o aumento da tarifa e terminaram com a direita tomando as ruas e expulsando os movimentos sociais organizados e suas pautas concretas.

Eu acordo por volta das 6 da manhã e pego três conduções para chegar ao trabalho: um ônibus e duas linhas do metrô. Tenho “sorte”, porque na linha vermelha vou no sentido do contrafluxo. Ainda assim muitas vezes chego atrasada no trabalho cujo horário de entrada é às 9H. Gasto pelo menos 1H30 no trajeto de ida e mais 1H30 no retorno. São três horas diárias que perco em deslocamento.

Essa é a realidade de milhões de trabalhadores dos grandes centros urbanos há décadas. Mas a pandemia do coronavírus está fazendo até Bolsonaro enxergar o óbvio. O transporte público superlotado será um espaço central de contágio.

A matemática da dinâmica de propagação do Coronavírus

O modelo de predição do COVID-19, chamado SIR (Suscetíveis-infectados-Removidos) é um modelo de epidemiologia matemática que considera a população do país separadas em quatro categorias: suscetível, infectada, curada e mortos. A partir de um conjunto de interações os matemáticos conseguem compreender a dinâmica de propagação da infecção.

Usando os dados da Itália os cientistas perceberam a rapidez do contágio: lá, uma pessoa infectada passa o vírus para, em média, entre 3 e 4 pessoas antes de se curar ou morrer pela infecção e com isso o número de casos dobra a cada 4 dias.

A base de dados utilizada pelos cientistas apresenta informações de todos os países atingidos pela epidemia. Os principais utilizados no modelo foram: China, Coreia do Sul, Itália, Suécia, Estados Unidos e o Brasil.

No Brasil a projeção é assustadora. O astrônomo e astrofísico professor doutor Wladimir Lyra, especializado em matemática aplicada e modelos computacionais, ao aplicar o modelo SIR ao estado de epidemia no Brasil prevê que cada pessoa infectada está, em média, infectando 6 pessoas. A partir dessa taxa, o número de casos dobra entre 2 e 3 dias. De acordo com Lyra: “se continuar desta maneira, sem fazermos nada, a epidemia terá seu pico daqui a 50 dias, no começo de maio, com 53% da população infectada ao mesmo tempo. Isso são mais de 100 milhões de casos. Os hospitais não têm capacidade de lidar com esse número. E, ao final da epidemia, teríamos 2 milhões de mortos.”

Os pobres pagando a conta com suas próprias vidas

Até mesmo o neoliberal Trump criou um Bolsa Família emergencial nos EUA. Aqui, em meio a pandemia do coronavírus, Bolsonaro e Guedes publicam Medida Provisória que autoriza empresas a cortarem os salários pela metade!

A fome voltou ao Brasil, o desemprego bate recordes, a saúde do povo brasileiro que come menos e com menos qualidade também piorou. O nível de informalidade explodiu. Mesmo assim Paulo Guedes solta mais um pacote de maldades. O mesmo Guedes que perdoa bilhões em REFIS da dívida do grande capital, como a dívida do véio da Havan, aprova como medida de contenção do coronavírus mais privilégios para patrões e empresários: o patrão poderá cortar salários, descontar antecipadamente férias e feriados.

Com o desgoverno de BolsonaroGuedes, o Brasil segue na contramão de medidas de contenção do Coronavírus e os pobres mais uma vez pagarão a conta.

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Maria Frô

Historiadora, pedagoga, educadora, formadora, blogueira, autora de coleções didáticas e séries para a televisão.

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Renato Rovai
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