Bruna Morato: Médicos da Prevent Senior eram treinados e levados a acreditar no tratamento precoce

A advogada relatou a existência de um prédio chamado “Pentágono” onde médicos pesquisadores da rede apresentavam “estudos” e “resultados” positivos com o uso do “Kit Covid”

Em entrevista ao Fórum Onze e Meia desta segunda-feira (18), a advogada que representa os 12 médicos que denunciaram a Prevent Senior por fazer pacientes de cobaia para um experimento com o chamado “Kit Covid” fez novas revelações de como os profissionais era treinados para acreditarem na eficácia do “Kit Covid” e também explicou por que os trabalhadores da rede demoraram tanto para fazer a denúncia.

Durante a entrevista, Morato afirmou que conhece os médicos da Prevent Senior desde 2014. “Em 2020 os relatos mudaram, eles tomaram um viés que eu comecei a estranhar com base em tudo que estava acontecendo, mas eu demorei muito para acreditar nas histórias que eu ouvia. O primeiro contato que eu tive dentro desse contexto de pandemia, foi com um diretor clínico de uma unidade que tinha uma dúvida quanto a utilização de EPI, que em sua unidade não estavam autorizando o uso de EPI. E o questionamento dele era simples: qual era a responsabilidade dele diante dessa determinação que vinha acima dele, ou seja, ele como diretor clínico não tinha autonomia para decidir se o próprio corpo clínico do hospital podia ou não usar o Equipamento de Proteção Individual”, relata Morato.

Em seguida, a advogada explicou que esse foi o primeiro relato e que o achou bem estranho, pois, por se tratar de uma pandemia, considerou “peculiar” uma instituição não autorizar a utilização de EPI. “Isso durou por duas semanas, foi em abril, no começo da pandemia, e depois eu achei que a situação tinha acabado ali. Mas, na verdade não. Depois eu passei a receber outros contatos”, disse.

“Eu assumo para vocês: por mais que eu escutasse histórias muito estranhas, até pavorosas, eu levei muto tempo para acreditar. Eu não via com tanta concretude o que me era falado no primeiro momento. Vou dar o exemplo de uma pesquisa: eu recebi o contato de um médico que falava ‘olha doutora, agora na minha unidade a gente vai fazer parte de uma pesquisa, a gente está junto do governo [federal], a gente vai ter que produzir dados, informações, vai ter um protocolo que vai ser obrigatório para todos os médicos da minha unidade’. Então, eram discursos muito estranhos, eu não via concretude naquelas informações. Levei um ano para entender tudo o que aconteceu”.

Sobre o grupo de 12 médicos que produziram o dossiê contra a Prevent Senior, a advogada Bruna Morato explicou que eles não são “amigos próximos”. “Eles se conhecem, mas eles não sabem quem são os 12, porque a rede Prevent Senir tem um número muito grande de médicos. Foram informações que eu organizei, que eu consegui entender e passei as informações para todos os médicos: ‘olha, eu acho que a gente tem aqui uma situação muito grave’. A partir disso começa a movimentação de como levar isso para uma possível investigação”.

“Algo de errado acontecia na Prevent Senior desde abril de 2020”

O ex-ministro da Saúde e deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP), que é médico, também participou da entrevista e relatou que desde abril de 2020 já havia notado, a partir de uma informação Secretaria Municipal de Saúde de SP que algo de errado acontecia na Prevent Senior.

“No começo da pandemia, quando a Secretaria Municipal de Saúde fez uma denúncia ao Ministério da Saúde e o próprio ministério chamou a atenção quanto a isso, de que estava tendo um aumento na internação idosos nos hospitais da Prevent Senior sem notificar à Secretaria Municipal de Saúde do diagnóstico da Covid-19. Aliás, foi um grande susto que se soube que teve uma superlotação dos hospitais [Prevent Senior]”.

Padilha, que também é professor de medicina, conta que, um mês após a denúncia da Secretaria Municipal de Saúde, um de seus alunos foi perguntar sobre o estudo da Prevent com a cloroquina em 19 de abril.

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“A primeira coisa que eu falei: ‘vamos ver o desenho disso tudo’, pois, qualquer estudo, qualquer resultado, precisa saber como foi o desenho, como foram recrutados os pacientes, mas não se encontrava o desenho da pesquisa. De imediato eu acionei a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa e no mesmo dia a própria Conep diz que não havia aprovação do estudo e é quando a Conep manda suspender o estudo”, relata o deputado.

“Pentágono”

O médico infectologista e pesquisador Marcos Caseiro levantou a questão do fato de a Prevent Senior enviar por correio o “Kit Covid” e questionou a advogada Bruna Morato sobre o porquê dos médicos da Prevent Senior demorarem tanto para fazer a denúncia.

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“A Prevent Senior detém um instituto de pesquisa. Os médicos da Prevent que trabalhavam na rede Sancta Marggiore eram convidados, aquele convite obrigatório, se você não for, você é punido Então existe um convite obrigatório para que eles comparecessem a um prédio que recebe o nome de ‘Pentágono’, onde eles eram submetidos a aulas e cursos e nesses cursos eles eram informados ‘olha, nós conseguimos esses resultados, essa interação medicamentosa não era perigosa, o nosso protocolo tem mostrado eficácia […] segundo os médicos, essas aulas eram extremamente convincentes, por que eles traziam dados, gráficos e esses médicos acreditavam”.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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